domingo, 10 de dezembro de 2017

Cardeal Luis Antonio Tagle - Aprendi com os últimos

Cardeal LUÍS ANTÓNIO TAGLE (2017). Aprendi com os últimos. A minha vida, as minhas esperanças. Lisboa: Paulus Editoria. 160 páginas.
       No último conclave em que foi eleito o atual Papa, Francisco, então Cardeal Jorge Mario Bergoglio, o Cardeal das Filipas, Tagle, era apontando como um dos possíveis à sucessão do papa Bento XVI. Se já era um Cardeal muito conhecido, pela sua juventude e pela presença nos meios de comunicação e por ser também o responsável da Cáritas Internacional, o que lhe permite viajar um pouco por todo o mundo. Abrindo-se a possibilidade de ser Papa,então a procura da sua biografia, da sua história.
       Este livro em formato de entrevista, conduzida por Gerolamo Fazzini e Lorenzo Fazzini, procura apresentar-nos este jovem Bispo e um dos mais novos Cardeais da Santa Igreja, passando pelo berço e contexto em que nasceu e crescer, a sua vocação e a vida como seminaristas, os primeiros anos como padre e os estudos superiores nos EUA, a escolha para Bispo e posteriormente a ascensão a Cardeal. Pelo meio, a escolha para integrar a Comissão Teológica Internacional, presidida então pelo Cardeal Joseph Ratzinger. Quando este o apresentou ao Papa João Paulo II, em dois momentos lhe perguntou a idade e se já tinha feito a Primeira Comunhão.
       A biografia revela as origens humildes do Cardeal Tagle, da sua ascendência filipina e chinesa, abarcando a cultura das Filipinas, mas a abertura ao mundo chinês e ao mundo ocidental. Os estudos nos EUA deram-lhe outra perspetiva mais universal da cultura, da religião, do cristianismo, mas simultaneamente, como filipino, pode dar um contributo para a vivência cristã, o testemunho de vida num mundo de muitas dificuldades, o diálogo e a combatividade com os as autoridades locais, a teologia da libertação vista a partir das Filipinas, numa libertação sobretudo ideológica. As dificuldades do povo filipino está presente na sua formação, na pastoral de sacerdote e de bispo, alargando-se pelo facto de ter assumido a Presidência da Cáritas Internacional. Está habituado ao contacto com a pobreza e com os pobres, a trabalhar não tanto para eles, mas a trabalhar com eles, já que o próprio partilhou o trabalho para viver com dignidade. Nos EUA teve que ser criativo para conseguir fazer o doutoramento, passando trabalhos a computador, ajudando os párocos, aproveitando as férias não para descansar mas para prover ao necessário para pagar as propinas.
       Hoje é uma referência mundial, mas a humildade, o trato fácil, a afabilidade é visível na entrevista e garantida pelos testemunho dos próprios entrevistadores. É também um homem da comunicação, está presente em diversas redes sociais, interagindo com os diocesanos e com pessoas  de todo o mundo.
       Na despedida "oficial" dos Cardeais ao papa Bento XVI o diálogo entre os dois suscitou o riso, pelo que os outros cardeais quiseram saber que palavras trocaram. Segredo pontíficio! Revelando um grande humor. Foi oicasião para o Cardeal lembrar ao papa Bento XVI que afinal já tinha feito a Primeira Comunhão.

Leitura: ANDREA MONDA - BENDITA HUMILDADE

ANDREA MONDA (2012). Bendita Humildade. O estilo simples de Joseph Ratzinger. Prior Velho: Paulinas Editora. 176 páginas.
       No dia 10 de novembro (2017), desloquei-me com três amigos sacerdotes, o Giroto, o Diamantino e o Diogo à VIII Jornada de Teologia Prática na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, e um dos conferencistas era precisamente o italiano Andrea Monda, testemunhando o anúncio do Evangelho às gerações atuais. O professor Andrea Monda leciona o equivalente a EMRC, tem um programa na TV2000, num formato semelhante a uma aula de 25 minutos, interagindo com a turma.
Bastava o livro ser referido a Bento XVI / Joseph Ratzinger para me despertar o interesse, mas a conferência de Andrea Monda despertou-me mais o interesse. Mas como digo, bastava ser uma obra sobre Joseph Ratzinger, que já o lia e estudava, para uma ou outra disciplina de Teologia, longe do tempo em que viria a ser eleito Papa. O testemunho da D. Fernanda, que dedicou uma parte importante da sua vida ao Seminário de Lamego, aquando uma missão em Roma, era que àquele Cardeal era muito afável, muito simpático e atencioso, muito simples e muito humano. São características que Andrea Monda também descobrir, sem precisar de muito esforço, bastando o encontro com Bento XVI e os milhentos testemunhos dados por quem conviveu ou convive com o agora Papa Emérito.
       O autor mostra que este Homem de Deus, simples, afável, de fácil trato, que olha as pessoas olhos nos olhos, com um olhar profundo e interpelante, atento aos interlecutores, não foi uma novida, sempre foi assim, como seminarista, como padre, como Bispo, como professor, como Prefeito da Congregação para a Doutrina na Fé (ex-Santo Ofício). A comunicação social, desde a primeira hora, não lhe concedeu qualquer interregno de simpatia, pois sendo já conhecido, agora era tempo de levantar suspeitas, insinuações, colocando com rótulos, com preconceitos, pelo facto de ser alemão e pelo facto de ter sido durante tantos anos o fiel guardador da fé, da doutrina católica, como se isso fosse um crime.
       Segundo o autor, a HUMILDADE é uma palavra que marca a vida de Joseph Ratzinger / Bento XVI, nas diferentes etapas da vida, como sacerdote, como professor, como Bispo, Cardeal e Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, como Papa. Numa biografia do atual Papa Francisco é sublinha a atenção e o cuidado com que o então Cardeal Ratizinger tratava as pessoas que encontrava, com atenção, colocando-se ao mesmo nível da pessoa. Era um dos poucos cardeais, consta, que não tratava o então Cardeal Jorge Mario Bergoglio com sobranceria, como um Cardeal das periferias, como fazia outras eminências, mas de igual para igual, com respeito, deferência, respeito e simpatia.
       É uma humildade assente na verdade, sobretudo a Verdade do Evangelho. A fé é antes de mais um encontro com Jesus. Humildade que assenta na transparência, na comunhão com a Igreja, em comunhão com a "maioria" formada pelos santos. Uma humildade caracterizada pela simplicidade. Basta recordar a primeira vez que apareceu na varanda pontifícia como Papa, o simples servidor da vinha do Senhor, com uma camisola preta, normal, debaixo da batina branca. Mais tarde confessará q dificuldade em usar botões de punho.
       Como Prefeito era conhecida a rotina que mantinha, manhã cedo e no final do dia, atravessava a praça de São Pedro, com uma boina na cabeça, sempre disponível para quem se aproximava. Por vezes fazia-se acompanhar por gatos. Sempre cordial e simples. Já como professora passava como segundo ou terceiro coadjutor de uma paróquia de cidade, tal a simplicidade com que interagia com os alunos, nesse caso. Permaneceu sempre assim, simples, cordato e acessível, um sacerdote a caminho, que se move em direção aos outros, colocando-se sempre ao nível dos seus interlecutores.
"Se João Paulo II foi definido como «o pároco do mundo», nesta aceção de simplicidade e humildade, pode-se tranquilamente definir Bento XVI como «coadjutor paroquial do mundo»... Em Bona, Ratzinger podia andar a pé, em Munique, como jovem sacerdote, andava de bicicleta de um lado para o outro, em Tubinga, voltou a recorrer às duas rodas".
       A sua vida é marcada pela renúncia. O autor apresenta essa característica fundamental antes de se sonhar que o Papa bávaro iria renunciar ao pontificado, assumindo-se como simples Padre Bento (terá sido essa a designação que propôs usar depois da renúncia). Humildade obediente. Outros foram conduzindo o seu percurso. Vai numa direção e de repente alguém o desafia para outra missão, sempre com o sentido de obediência aos seus superiores.
       Como teólogo marcante, o próprio confessou que nunca se propôs apresentar/criar uma linha teológica, mas aprofundar a teologia dentro da comunidade, da Igreja, em comunhão com o testemunho dos santos, uma teologia de joelhos.
       A verdadeira grandeza de homem reside na sua humildade". É uma caracterização que lhe assenta bem. Numa das catequeses, ao apresentar a figura do Papa Gregório Magno, quase poderia falar de si mesmo, lembrando como o monge que se tornou Papa "procurou de todos os modos evitar aquela nomeação; mas, no fim, teve de render-se e, tendo deixado pesarosamente o claustro, dedicou-se à comunidade, consciente de cumprir um dever e de ser simples 'servo dos servos de Deus'".
       "Todas as pessoas que de algum modo se encontraram com Joseph-Bento, «ao vivo», puderam constatar a doçura deste homem simples e dialogante, sem traços de altivez nem de afetação... ele é o primeiro a movimentar-se e ir ao encontro dos outros, pondo-se ao seu nível, delicadamente".
       Um dos aspetos relevantes do autor - tendo em conta os 24 anos de Joseph na Congregação responsável por ajudar o Papa e a Igreja a manter-se fiel a Jesus Cristo e ao Evangelho, ao nível dos princípios e das palavras em cada tempo -, o dogma! O dogma é o que nos liberta e nos ajuda a viver em dinâmica de amor. «Se na Igreja existem os dogmas, é para que ninguém se engane sobre o amor. Eles expõem-se à acusação de ideologia: na realidade, têm por efeito impedir que o amor seja transformado em ideologia».

BENTO XVI: «Deus não nos deixa tatear na escuridão. Mostrou-se como homem. Ele é tão grande que pode permitir-se tornar-se pequeníssimo».

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Novena da Imaculada Conceição 2017 - Nono Dia

       O Senhor é a nossa fortaleza, a nossa muralha (cf. Is 26, 1-6). A muralha é para nossa defesa, para nossa proteção. Então, dizer que Deus é a nossa muralha, é dizer que Ele nos quer bem, que quer proteger-nos. Tudo passa, mas Ele permanece. É um Deus forte em Quem podemos confiar a nossa vida.
       O salmo deste dia (117) mantém o mesmo registo. Deus é o nosso refúgio. Sabemos o que é um refúgio e quando precisamos dele. Por exemplo, para nos protegermos da chuva: o refúgio pode ser um guarda-chuva, uma varanda, uma paragem de autocarro. Deus é o nosso refúgio, n'Ele nos refugiamos quando advém as dificuldades, as intempéries, os problemas na nossa vida. Então recorramos a Ele, Ele é verdadeiramente o refúgio.
       No Evangelho (Mt 7, 21.24-27), Jesus fala no homem sensato e no homem insensato. O homem sensato é aquele que constrói sobre rocha firme. Temos estas duas possibilidades, construir sobre a areia, que agora está, mas logo desaparece, com o vento ou com a chuva. Também assim a nossa vida quando a construímos sobre coisas passageiras, que passam. Ou construímos sobre rocha firme, que não desmorona. A rocha firme, a muralha, o nosso refúgio é Deus. "Todo aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática é como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as torrentes e sopraram os ventos contra aquela casa; mas ela não caiu, porque estava fundada sobre a rocha".
       Nossa Senhora constrói a sua casa sobre a rocha firme. Um dia fazem saber a Jesus: Tua Mãe e Teus irmãos estão lá fora... Jesus responde: quem é Minha Mãe e Meus irmãos? Quem escuta a Palavra de Deus e a põe em prática, esse é Minha Mãe, Meu irmão, Minha irmã.
       O desafio para hoje, proposto pelo Pe. Luís Rafael é então confiar no Senhor, a nossa muralha e o nosso refúgio, construir a nossa vida sobre a rocha firme da Sua palavra procurando pô-la em prática, imitando Maria, próxima de Jesus porque é a Sua Mãe, mas também por escutar a Palavra de Deus, concretizando-a na sua vida.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Novena da Imaculada Conceição 2017 - Oitavo Dia

       Temos um Deus que gosta de nós. Um Deus que está próximo e nos ama. Ama e cuida de nós.  Que enxugará as nossas lágrimas (Is 25, 6-10a). Prepara-nos a mesa. Uma refeição. Não um sandes, mas um banquete. Quando vimos à Igreja, tomamos parte neste banquete, temos mesa, temos pão e vinho. Venhamos com alegria.
       No Evangelho (Mt 15, 29-37 ), o cuidado e atenção nos gestos e na postura de Jesus. Não é indiferente. Age. Cura os coxos, os aleijados, dá vista aos cegos, devolve a voz aos mudos. Talvez precisemos que Jesus nos devolva a visão para vermos a realidade, nos dê a voz para denunciarmos as injustiças, nos redime do nosso coxear, do nosso pecado. Este é como uma pedra no sapato, faz-nos andar torcidos...
       O cuidado de Jesus, este Deus que nos quer bem, continua. Aquela multidão está faminta, pois há três dias que O acompanham sem comer. O nosso Deus é um Deus atento. Jesus faz saber aos seus discípulos que é necessário fazer algo por aqueles homens e mulheres. Os apóstolos hesitam, argumentam sobre a falta de meios. Jesus pede-lhes o que têm. Jesus atende-nos e faz-nos milagres, mas contando connosco.
       Maria é bem diferente dos apóstolos, estes só reparam depois de Jesus os chamar a atenção. Maria está atenta, como nas Bodas de Caná, e intervém quando é preciso. Assim devemos ser nós, atentos, observadores, prontos para fazer o que está ao nosso alcance para ajudarmos quem mais precisa.

Santo Ambrósio, Bispo e Doutor da Igreja

Nota Histórica:
       Nascido em Tréveris, cerca do ano 340, de uma família romana, fez os seus estudos em Roma e iniciou em Sírmio a carreira pública. Em 374, vivendo em Milão, foi inesperadamente eleito para bispo da cidade e recebeu a ordenação em 7 de Dezembro. Fiel cumpridor do seu dever, distinguiu-se sobretudo na caridade para com todos, como verdadeiro pastor e mestre dos fiéis.       Defendeu corajosamente os direitos da Igreja; com seus escritos e sua atividade ilustrou a verdadeira doutrina contra o arianismo. Morreu no Sábado Santo, em 4 de Abril de 397.

Oração:
       Senhor, que nos destes em Santo Ambrósio um mestre insigne da fé católica e um exemplo de apostólica fortaleza, fazei surgir na Igreja homens segundo o vosso coração, que a governem com firmeza e sabedoria. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Fonte: Secretariado Nacional da Liturgia.

Papa Bento XVI sobre Santo Ambrósio:

Das cartas de Santo Ambrósio, bispo
(Epist. 2, 1-2.4-5.7: PL 16 [ed. 1845], 847-881) (Sec. IV)

O encanto da tua palavra inspire confiança ao povo

Recebeste o ofício sacerdotal e, sentado à popa da Igreja, governas a barca contra a fúria das ondas. Segura bem o timão da fé, para que não te inquietem as violentas tempestades deste mundo. O mar é, sem dúvida, grande e espaçoso, mas não temas: Ele a fundou sobre os mares e a consolidou sobre as águas.
Por isso, a Igreja do Senhor, edificada sobre a pedra apostólica, mantém-se segura entre os escolhos do mundo e, apoiada em tão sólido fundamento, permanece firme contra as investidas do mar em tempestade. Vê-se envolvida pelas ondas, mas não abalada; e embora muitas vezes os elementos deste mundo a sacudam com grande fragor, ela oferece aos navegantes cansados um porto seguro de salvação. Ela flutua no mar, mas navega também pelos rios, sobre aqueles rios de que se diz no salmo: Os rios levantam a sua voz. São os rios que brotam do coração daqueles que beberam da água de Cristo e receberam o Espírito de Deus. Quando transbordam de graça espiritual, estes rios levantam a sua voz.
Há também um rio que corre para os seus santos como uma torrente. Há um rio que alegra com as suas águas a alma tranquila e pacífica. Quem receber da plenitude deste rio, como João Evangelista, Pedro e Paulo, levanta a sua voz; e do mesmo modo que os Apóstolos difundiram até aos confins da terra a voz da pregação evangélica, também o que recebe deste rio começará a anunciar o Evangelho do Senhor Jesus. Recebe também tu da plenitude de Cristo, para que se faça ouvir também a tua voz. Recebe a água de Cristo, essa água que louva o Senhor. Recolhe a água dos numerosos lugares em que a deixam cair as nuvens dos Profetas.
Quem recolhe a água dos montes ou a tira e bebe das fontes, pode enviar o seu orvalho como as nuvens. Enche, portanto, o teu coração com esta água, para que a terra da tua alma seja regada e tenhas a fonte em tua própria casa.
Quem muito lê e entende, enche-se com aquilo que lê; e quem está cheio pode regar os demais; por isso, diz a Escritura: Se as nuvens estão cheias, derramarão chuva sobre a terra.
As tuas pregações sejam fluentes, puras e claras, de modo que a tua exortação moral se infunda suavemente no coração dos ouvintes e o encanto da tua palavra inspire a confiança do povo; deste modo ele te seguirá voluntariamente para onde o conduzires.
Os teus discursos estejam cheios de inteligência. Neste sentido diz Salomão: Os lábios do sábio são as armas da sabedoria; e noutro lugar: O pensamento dirija os teus lábios, isto é, os teus sermões brilhem pela sua clareza e inteligência, os teus discursos e as tuas explicações não precisem de sentenças alheias mas sejam capazes de se defender por si mesmas; enfim não saia da tua boca nenhuma palavra inútil e sem sentido.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Novena da Imaculada Conceição 2017 - Sétimo Dia

       Se no dia anterior a alegria esteve no centro da reflexão, foi a alegria o ponto de partida para a pregação deste sétimo dia de novena. As palavras do Evangelho (Lc 10, 21-24) dizem-nos que Jesus exultou de alegria. E qual a motivação desta alegria? A verdade e a salvação que veio revelar à humanidade inteira, mas desvendada, percebida e acolhida pelos mais pequeninos. Com efeito, é a pequenez que nos faz perceber a grandeza de Deus. Por vezes não são aqueles que estudam muitas coisas acerca de Deus que sabem mais de Deus. Pessoas mais simples, muitas vezes, percebem e acolhem mais facilmente os mistérios de Deus. «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos».
       A simplicidade, a pobreza, a pequenez que deixam ver Jesus. Jesus faz-Se tão pequeno que é um de nós. Ele vem para servir, não para ser servido ou para dominar. Ser pequenino é ser parecido com Jesus. Foi assim com Maria. No Magnificat, Maria alegra-se porque na Sua humildade Deus pode ser encontrado, pode ser visto e pode ser louvado. «Ninguém sabe o que é o Filho senão o Pai, nem o que é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar». No rosto de Jesus podemos encontrar o rosto do Pai. Também nós somos provocados a sermos parecidos com Jesus, a sermos cara chapada do mesmo Deus. Se Ele é Pai de todos, todos nós somos filhos, então todos devemos ser parecidos, para que quem nos veja possa ver o Pai.
       Os desafios para este dia: fazer-se pequeno ao jeito de Jesus, contrapondo à tendência do mundo, para o qual os pequeninos são excluídos; procurar ser parecido com Jesus, tal como Ele o é em relação ao Pai, também nós em relação a Jesus, porque irmãos, filhos do mesmo Pai, então todos parecidos com o Pai; então ajamos em atitude de serviço para com os outros imitando Jesus, imitando Nossa Senhora.

Deus enxugará as lágrimas de todas as faces

       Sobre este monte, o Senhor do Universo há-de preparar para todos os povos um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos deliciosos: comida de boa gordura, vinhos puríssimos. Sobre este monte, há-de tirar o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações; Ele destruirá a morte para sempre. O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e fará desaparecer da terra inteira o opróbrio que pesa sobre o seu povo. Porque o Senhor falou. Dir-se-á naquele dia: «Eis o nosso Deus, de quem esperávamos a salvação; é o Senhor, em quem pusemos a nossa confiança. Alegremo-nos e rejubilemos, porque nos salvou. A mão do Senhor pousará sobre este monte» (Is 25, 6-10a).
       "Jesus  foi para junto do mar da Galileia e, subindo ao monte, sentou-Se. Veio ter com Ele uma grande multidão, trazendo coxos, aleijados, cegos, mudos e muitos outros, que lançavam a seus pés. Ele curou-os, de modo que a multidão ficou admirada, ao ver os mudos a falar, os aleijados a ficar sãos, os coxos a andar e os cegos a ver; e todos davam glória ao Deus de Israel. Então Jesus, chamando a Si os discípulos, disse-lhes: «Tenho pena desta multidão, porque há três dias que estão comigo e não têm que comer. Mas não quero despedi-los em jejum, pois receio que desfaleçam no caminho». Disseram-Lhe os discípulos: «Onde iremos buscar, num deserto, pães suficientes para saciar tão grande multidão?» Jesus perguntou-lhes: «Quantos pães tendes?» Eles responderam-Lhe: «Sete, e alguns peixes pequenos». Jesus ordenou então às pessoas que se sentassem no chão. Depois tomou os sete pães e os peixes e, dando graças, partiu-os e foi-os entregando aos discípulos e os discípulos distribuíram-nos pela multidão. Todos comeram até ficarem saciados. E com os pedaços que sobraram encheram sete cestos" (Mt 15, 29-37).
       O profeta Isaías é, sem dúvida, o que mais claramente anuncia a chegada do Messias de Deus, caracterizando esse tempo de salvação. A vinda de Deus até nós reveste-se de esperança e envolve-nos em salvação. Ele vem salvar, Ele vem para nos reconduzir à abundância da felecidade. A imagem do banquete é sugestiva. Deus sacia-nos na nossa ânsia de viver.
       Jesus Cristo é verdadeiramente o Messias que estava para vir. Vem da parte de Deus, acolhendo e salvando os que andam perdidos, os aleijados, os paraliticos, os pobres, os surdos, os mudos, todos os doentes. N'Ele se revela um Deus compassivo, próximo das pessoas. Ele sente compaixão por aquela multidão, faminta de pão e de um sentido para a vida. Na multiplicação dos pães a certeza que em Jesus Cristo encontramos o alimento que nos salva e que sobeja, chega para todos.
       Pode ver-se aqui a figura da Eucaristia, banquete que nos alimenta até à vida eterna.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Paróquia de Tabuaço | Compromisso de Acólitos | 2017

       Ao longo dos anos, com exceção feita para o ano pastoral anterior, dentro da Novena, na Missa com crianças, sábado, o Compromisso dos Acólitos, com a renovação do compromisso dos acólitos mais velhos. Este ano estiveram presentes a Daniela Rodrigues, o Pedro Lemos e a Mara Longa, que renovaram perante o pároco o seu compromisso com a comunidade, no cuidado ao altar e na resposta a Jesus Cristo. Depois do compromisso, a investidura de novos acólitos: a Cláudia Feição, o Guilherme, a Adriana, o Fábio, o Bernardo, o Jorge e a Rita.

Créditos: Música - Mendigo de Deus | Fotos - Sara Santos

Novena da Imaculada Conceição 2017 - Sexto Dia

(Seminário de Resende, 5 de junho de 2010)

       Uma senhora muito devota, ia a Missa e levava o neto. Sempre que se aproximava da comunhão assumia uma expressão muito séria e carregada. O neto que a acompanhava muitas vezes olhava para ela, assimilando a postura e as expressões. Ao comungar esta senhora suspirava profundamente, com uns "ais" bem sonoros. O neto, entretanto, aproximava-se da celebração da Primeira Comunhão e um dia perguntou à avó: Vovó, comungar dói muito?
        Uma pequena estória proposta pelo pregador, o Pe. Luís Rafael, para sublinhar a alegria que a fé, a vivência em comunidade, a participação na Eucaristia, na Novena, nas "coisas" da Igreja deve suscitar, ao ponto de outros perguntarem, não se dói, se custa muito, mas como é que é, o que é que vos deixa tão satisfeitos, tão alegres?
       O Evangelho, ponto de partida para a pregação, apresentava-nos o Centurião que vai ter com Jesus para que Ele socorra o seu criado (Mt 8, 5-11). Sublinhe-se que era um estrangeiro, não era judeu, e a acrescentar ainda o facto de estar ao serviço de uma potência estrangeira. Como estrangeiro, não teria direito à intervenção de Deus, à salvação, reservado precisamente aos judeus. Contudo, o Evangelho mostra que Jesus vem para todos e a salvação está acessível a todos, tem mais a ver com a predisposição do coração. O centurião vai até Jesus, acredita e confia em Jesus. E Jesus responde de imediato: irei curá-lo. Vem então a consciência do centurião: «Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa; mas diz uma só palavra e o meu servo ficará curado». A consciência humilde do seu pecado perante a grandeza de Jesus, mas não deixa de se dirigir a Ele. Esta é a humildade com que devemos aproximar-nos de Jesus, conscientes da nossa fragilidade e do nosso pecado, mas certos de que Ele nos cura, nos salva, nos redime.
       E depois a alegria com que vivemos o nosso encontro e a nossa fé. A alegria do centurião ao regressar a casa. A alegria de Nossa Senhora, por exemplo, quando vai apressadamente ao encontro da Sua prima santa Isabel. Vai feliz da vida, sem lamentos nem protestos, simplesmente vai, levando também a alegria no Seu seio, ao encontro de uma grávida, estando grávida do Salvador. Seja essa também a nossa alegria de sermos e vivermos como cristãos.

S. Martinho de Dume, S. Frutuoso, e S. Geraldo, bispos

Nota Histórica:
       Martinho, oriundo da Panónia, nasceu no princípio do século VI e foi, ainda novo, para a Palestina. Era um homem de grande erudição e «por inspiração divina», como ele mesmo afirmava, veio para a Galiza cerca do ano 550. Converteu os suevos do arianismo à fé católica e fixou-se em Dume; aí fundou um mosteiro de que foi eleito bispo. Em 569 ficou a ser também bispo metropolita de Braga. Com a sua virtude e saber, diz S. Isidoro, a Igreja floresceu na Galiza. Morreu no dia 20 de Março do ano 579.
       Frutuoso nasceu no princípio do século VII, de nobre família visigótica. Fundou numerosos mosteiros, que muito contribuíram para a educação da juventude, como centros de vida religiosa e cultural. Nomeado arcebispo de Braga, a fama da sua santidade e sabedoria estendeu-se a toda a Península Hispânica. Morreu cerca do ano 666.
       Geraldo nasceu na Gália, de nobre família; professou no mosteiro de Moissac onde desempenhou os cargos de bibliotecário, mestre dos oblatos e cantor. O bispo Bernardo de Toledo conseguiu levá-lo para a sua catedral para aí exercer as funções de mestre e de cantor. Eleito bispo de Braga, exerceu grande actividade na reorganização da diocese, na promoção da vida monástica, na reforma litúrgica e pastoral, bem como na aplicação da disciplina eclesiástica. Morreu a 5 de Dezembro de 1108.

Oração:
       Deus, inspirador dos pastores da Igreja e luz de todos os povos, que chamastes os santos bispos Martinho, Frutuoso e Geraldo para ensinar ao vosso povo os mistérios do reino, concedei-nos que, animados pelo seu exemplo e iluminados pela sua doutrina, cheguemos ao esplendor eterno da vossa glória. Por Nosso Senhor.
«Fórmula de vida honesta», de São Martinho de Dume, bispo

Os que temem o Senhor são justificados e as suas boas obras brilham como a luz

Não procures granjear a amizade de alguém por meio da adulação, nem permitas que outros por meio dela granjeiem a tua. Não sejas ousado nem arrogante; submete-te e não te imponhas; conserva a serenidade e aceita de boa mente as advertências e com paciência as repreensões. Se alguém te repreender com razão, reconhece que é para teu bem; se o faz sem motivo, admite que é com boa intenção. Não temas as palavras ásperas, mas sim as brandas. Emenda-te dos teus defeitos e não sejas curioso indagador ou severo censor dos alheios; corrige os outros sem incriminação, prepara a advertência com mostras de sincera simpatia, e ao erro dá facilmente desculpa.
Não exaltes nem humilhes pessoa alguma. Sê discreto a respeito do que ouves dizer e acolhedor benévolo dos que te querem ouvir. Responde prontamente a quem te pergunta e cede facilmente a quem porfia, para que não venhas a cair em contendas e imprecações.
Se és moderado e senhor de ti mesmo, vigia sobre as moções do teu ânimo e os impulsos do teu corpo, evitando todas as inconveniências; não os ignores pelo facto de serem ocultos; pois não importa que ninguém os veja, se tu de facto os vês.
Sê flexível, mas não leviano; constante, mas não teimoso. A tua ciência não seja ignorada nem molesta. Considera a todos iguais a ti; não desprezes os inferiores com altivez, e não temas os superiores, se vives rectamente. Em matéria de obséquios e saudações não te dispenses nem os exijas. Para todos deves ser afável; para ninguém, adulador; com poucos, familiar; para todos, justo.
Sê mais severo no discernimento do que nas palavras e mais nobre na vida do que na aparência. Afeiçoa-te à clemência e detesta a crueldade. Quanto à boa fama, não apregoes a tua nem invejes a alheia. Sobre rumores, crimes e suspeitas não sejas crédulo nem inclinado a pensar mal, mas opõe-te decididamente àqueles que com aparente simplicidade maquinam a difamação alheia.
Sê tardo para a ira e fácil para a misericórdia; firme nas adversidades, prudente e moderado nas prosperidades; ocultador das próprias virtudes, como outros o são dos vícios. Evita a vanglória e não busques o reconhecimento das tuas qualidades.
A ninguém desprezes por ignorante. Fala pouco, mas tolera pacientemente os faladores. Sê sério mas não desumano, e não menosprezes as pessoas alegres.
Sê desejoso da sabedoria e dócil. Sem presunção, ensina o que sabes a quem to pedir; e sem disfarçar a ignorância, pede que te ensinem o que não sabes.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Novena da Imaculada Conceição 2017 - Quinto Dia

       O 5.º dia da Novena coincidiu com o 1.º Domingo de Advento, tempo de preparação para a celebração do Natal, o nascimento de Jesus. Por ser domingo a dinâmica da Novena alterou-se um pouco, uma vez que a Eucaristia foi celebrada da parte da manhã. Sendo assim, a Eucaristia foi exposta em adoração e diante do Santíssimo Sacramento rezamos com Maria a Jesus, para que no Filho, pelo Espírito Santo sejamos acolhidos pelo Pai.
       Depois da recitação do Rosário, a proclamação do Evangelho deste domingo, em que Jesus nos desafia a estarmos preparados, vigilantes, pois o "dono da casa" virá a horas imprevistas e tendo-nos confiado a casa o expectável é que nos encontre acordados para o receber e com a casa bem arrumada.
       O Pe. Luís Rafael centrou a pregação na necessidade de prepararmos bem a vinda de uma Pessoa importante, de uma Pessoa muito especial, Jesus. Tal como fazemos quando vem uma personalidade importante à nossa terra, por exemplo, o Presidente da República, em que limpamos estradas e caminhos, tapamos buracos, arrancamos as ervas, as urtigas, as silvas, assim também, ao prepararmos a vinda de Jesus, arranquemos as urtigas que existem em nós, sabendo que picam, que picam quem se aproxima de nós. Se recebemos uma visita em casa, arrumamos melhor a casa, mesmo que esteja habitualmente arrumada, fazemos uma comida especial e ansiosamente esperamos, vamos espreitando pela janela a ver se a pessoa está a chegar. Então também com Jesus, vivamos nesta ansiedade pela Sua chegada, preparemo-nos bem para O acolhermos bem.
       Afinal, Ele quer estar connosco, tanto que Se fez um de nós. Tanto que não apenas Se fez um de nós mas Se transformou em Pão. Mais simples e mais acessível. Está ao nosso lado, está na Eucaristia, está exposto como Santíssimo Sacramento. Agora é a nossa vez de O acolhermos, de O acolhermos bem.
       Quando uma mulher está grávida, e muitas mulheres que estão na assembleia já estiverem grávidas, preparam tudo com antecedência para acolher o filho que vai nascer e sabendo quando darão à luz, preparam tudo para levar para o hospital, pijama, roupinha do bebé. Ela preparou-se durante 9 meses. Nós temos um pouco menos de 4 semanas para prepararmos bem, exterior e interiormente a vinda de Jesus. Em vésperas da Solenidade da Imaculada Conceição temos o Sacramento da Reconciliação para dessa forma nos prepararmos interiormente para a celebração festiva do nascimento de Jesus.

Não encontrei ninguém em Israel com tão grande fé

       Ao entrar Jesus em Cafarnaum, aproximou-se d’Ele um centurião, que Lhe suplicou, dizendo: «Senhor, o meu servo jaz em casa paralítico e sofre horrivelmente». Disse-lhe Jesus: «Eu irei curá-lo». Mas o centurião respondeu-Lhe: «Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa; mas diz uma só palavra e o meu servo ficará curado. Porque eu, que não passo dum subalterno, tenho soldados sob as minhas ordens: digo a um ‘Vai’ e ele vai; a outro ‘Vem’ e ele vem; e ao meu servo ‘Faz isto’ e ele faz». Ao ouvi-lo, Jesus ficou admirado e disse àqueles que O seguiam: «Em verdade vos digo: Não encontrei ninguém em Israel com tão grande fé. Por isso vos digo: Do Oriente e do Ocidente virão muitos sentar-se à mesa, com Abraão, Isaac e Jacob, no reino dos Céus» (Mt 8, 5-11).
       O encontro de Jesus com o Centurião mostra como é fundamental a tolerância e a colaboração com aqueles que não fazem parte da nossa religião, da nossa ideologia, do nosso partido, do nosso grupo. Por um lado a abertura do Centurião, um homem justo, honesto, crente, que recorre a Jesus, depois de ter ouvido maravilhas acerca d'Ele, pedindo auxílio, não para si ou para a sua família, mas para um dos seus criados a quem ele estima.
       Por outro lado, Jesus mostra claramente que não é preciso ser judeu, pertencer a esta ou àquela religião para se ser bom e para fazer o bem. É um convite à tolerância, à compreensão, ao acolhimento do bem que nos chega dos outros, uma vez que todo o bem nos aproxima de Deus. Mas isso não alivia a nossa responsabilidade, todos podem ser bons, mas pelo facto de sermos cristãos a nossa consciência deve estar ainda mais apurada...
       O testemunho que Jesus dá acerca do centurião foi assumido e sublinhado pela Igreja, incluindo na Eucaristia a sua profissão de fé: "Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa; mas diz uma só palavra e o meu servo ficará curado". (Na Liturgia: "Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei um palavra e eu serei salvo").

domingo, 3 de dezembro de 2017

Paróquia de Tabuaço | Festa do Acolhimento | 2017


       Festa do Acolhimento aos meninos do 1.º Ano de Catequese. Conforme o nome indica, esta festa pretende acolher aqueles que entram pela primeira vez para a catequese, para que se sintam em casa, com os pais, familiares e amigos, e se sintam mais próximos dos outros meninos da catequese, catequistas e comunidade paroquial.
       Dentro da Eucaristia vespertina, a 25 de novembro de 2017, alguns gestos que colocaram em evidência os membros mais novos da comunidade, mas também os seus pais e as catequistas, todos firmaram o compromisso de participar com alegria e contribuir para a vivência alegre da fé.

       Créditos: Mara Longa | Paróquia de Tabuaço.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Domingo I do Advento - ano B - 3 de dezembro de 2017

Portanto, vigiai e orai em todo o tempo

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Tende cuidado convosco, não suceda que os vossos corações se tornem pesados com a intemperança, a embriaguês e as preocupações da vida e esse dia não vos surpreenda subitamente como uma armadilha; porque ele atingirá todos os que habitam sobre a face da terra. Portanto, vigiai e orai em todo o tempo, para que possais livrar-vos de tudo isto que está para acontecer e comparecer sem temor diante do Filho do homem» (Lc 21, 34-36).
        No último dia do ano litúrgico, o Evangelho apresenta-nos a recomendação de Jesus - com que se iniciará o novo tempo litúrgico, o Advento -, vigiai e orai. Viver com alegria, com sentido, não esperar por tempos melhores ou mais favoráveis, viver em todo o tempo e em todas as circunstâncias dar o melhor de si. Orar para que o nosso coração não se torne pesado pelas situações do tempo actual mas nos abra à generosidade e à esperança.
       Ao olharmos à nossa volta, neste mundo em que vivemos, o nosso coração poderá tornar-se insensível, ou amargurado, pelo mal, pelo sofrimento, pelas diversas situações de injustiça e conflitualidade. A oração coloca-nos em Deus, na certeza que Ele, em Jesus Cristo já venceu, por nós e para nós, o mal. Cabe-nos agora prosseguir para construir à nossa volta, com palavras, gestos, obras, um ambiente mais saudável, sabendo que o mal não dura para sempre, mas sem cruzarmos resignadamente os braços à espera que as injustiças desapareçam por si mesmo...

Novena da Imaculada Conceição 2017 - Terceiro Dia

       A liturgia da Palavra ofereceu-nos como 1.ª Leitura um texto apocalíptico de Daniel, com imagens de animais, fortes, ferozes. Correspondem a 4 reinos cuja grandeza, riqueza e poder dominam e metem medo, mas não perdurarão, tem os dias contados. Num segundo momento, surge «alguém semelhante a um Filho do homem. Dirigiu-Se para o Ancião venerável e conduziram-no à sua presença. Foi-lhe entregue o poder, a honra e a realeza, e todos os povos, nações e línguas O serviram. O seu poder é eterno, não passará jamais, e o seu reino jamais será destruído» (Dan 7, 2-14).
       No Evangelho, Jesus fala na proximidade do reino, garantindo, que «não passará esta geração sem que tudo aconteça. Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão» (Lc 21, 29-33).
O Pe. Luís Rafael sublinhou que tudo passa, só não passa a Palavra de Deus, o reino de Deus permanece. E não apenas passa, a Palavra de Deus trespassa. Jesus é trespassado com um lança. Assim a Palavra de Deus deve trespassar-nos, deixar marcas em nós, para que possamos também transparecer essa Palavra que nos atravessa.
       Não é uma Palavra qualquer. É uma Palavra que marca. Beijamos o Evangelho, porque é importante. Não se beija um papel, a não ser alguma fotografia de quem gostamos, a quem amamos. Amamos a Palavra de Deus.
       Nossa Senhora deixou-se trespassar pela Palavra de Deus, acolhendo-A no Seu coração e no Seu ventre, na Sua vida. n'Ela podemos ler a Palavra de Deus. É uma Bíblia aberta. Trespassada pela Palavra de Deus, dá-no-l'A. Assim nos cabe a nós fazer o mesmo: amar a Palavra de Deus. Beijar a Palavra, deixarmo-nos trespassar pela Palavra de Deus e sermos uma Bíblia aberta para os outros, que eles descubram em nós a Palavra e a presença de Deus.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

O Reino de Deus está próximo...


       Jesus contou-lhes a seguinte parábola: «Reparai na figueira e nas restantes árvores. Quando começam a deitar rebentos, ao vê-los, ficais a saber que o Verão está próximo. Assim também, quando virdes essas coisas, conhecereis que o Reino de Deus está próximo. Em verdade vos digo: Não passará esta geração sem que tudo se cumpra. O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão-de passar» (Lc 21, 29-33).

       Jesus, no Evangelho, utiliza uma linguagem semelhante, dizendo aos seus discípulos para se não alarmarem, pois o que está para acontecer é oportunidade de salvação, o Reino de Deus está próximo. Os sinais não são de desgraça, mas são sinais que falam da proximidade do Reino de Deus. O reino que se avizinha é um Reino de verdade, de justiça e de paz. Chega com o próprio Jesus Cristo, já está em ebulição. As palavras proféticas do Mestre dos Mestres são um desafio à confiança. Entretanto muitas coisas acontecerão, guerras, conflitos, destruição, morte, mas aqueles que perseverarem salvar-se-ão em Cristo Jesus.
       A Sua vinda é um encontro que nos redime, nos salva, nos insere na comunhão com Deus. Ele ilumina o nosso caminho e as nossas opções. As suas palavras elevam-nos até à eternidade. Por ora é tempo de colocarmos mãos à obra e transformarmos o mundo em que vivemos, cuja responsabilidade Deus nos concedeu.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Novena da Imaculada Conceição 2017 - Segundo Dia

       Ao segundo dia de NOVENA, a Festa do Apóstolo Santo André. O Pe. Luís Rafael, tendo como referência Santo André, mas partindo sempre da liturgia da Palavra, começou por lembrar a importância da pregação para a fé. "Se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor e se acreditares em teu coração que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo. Pois com o coração se acredita para obter a justiça e com a boca se professa a fé para alcançar a salvação".
       É a pregação que conduz à conversão, à fé, à adesão a Jesus Cristo (cf. Rom 10, 9-18). Não fales com estranhos, não fales com desconhecidos. é a recomendação dos nossos pais. Ora se Deus é desconhecido como podemos acreditar com o coração e professá-l'O com a boca? Se ninguém nos falar de Deus, Ele será então um desconhecido. Nós temos fé porque alguém O tornou conhecido para nós, os nossos pais e avós, as nossas catequistas, outras pessoas mais velhas que nos ensinaram a conhecer melhor Jesus, os nossos párocos. E assim foi com os Apóstolos, conhecendo Jesus Cristo puderam dá-l'O a conhecer a outros através da pregação, do testemunho.
       O Evangelho deste dia (Mt 4, 18-22) mostra como Jesus Se deu a conhecer aos Apóstolos, os chamou para O seguirem, O acompanharem e posteriormente darem d'Ele testemunho para que para outros Jesus Se tornasse conhecido. A pregação, esta Novena visa precisamente conhecer cada vez melhor Jesus, para nos tornamos Seus discípulos, nos tornarmos pescadores de homens e de mulheres. O contexto do chamamento apostólico é um mar. Para nós, sublinhou o Pregador, o mar é sinónimo de férias, relaxamento, de descanso. Para os apóstolos o mar é sinónimo de trabalho, de fadiga, de sofrimento e de morte. É a esse mar que Jesus os vai chamar. É para isso que Jesus dá a Sua vida. É o mistério da Sua morte e sobretudo da Sua ressurreição. Pescar homens e mulheres para os libertar do sofrimento e da morte. Com a Sua ressurreição, Jesus pescou-nos ao mar da morte, primeiro da Sua e depois da nossa. Depois chamou os apóstolos e chamou-nos também a nós, para sermos pescadores e pescarmos homens e mulheres ao mar do sofrimento, dos flagelos e da morte.
       Maria tem tudo a ver com isto. Ela dá-nos a conhecer Jesus, para que Ele não seja um desconhecido para nós e assim possamos acreditar n'Ele com o coração e professá-l'O com a boca. Foi ela que nos pescou a todos, nos tirou do mar das nossas casas, onde por vezes vivemos a dor, o sofrimento, e nos trouxe para melhor conhecermos Jesus, melhor O testemunharmos.

Festa de Santo André, Apóstolo

Nota biográfica:
       André é irmão de Simão Pedro e é natural de Betsaida.
       O nome é de origem grega e não hebraica. Na lista dos Apóstolos aparece em segundo lugar, e outras vezes em quarto. Gozava de um enorme prestígio nas comunidades cristãs do início. É, juntamente com Pedro, dos primeiros a ser chamado por Jesus: "Caminhando ao longo do mar da galileia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar. Disse-lhes: «Vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens»" (Mt 4, 18-19; Mc 1, 16-17). O quarto Evangelho dá-nos a informação que ele foi primeiramente discípulo de João Baptista e depois seguiu a Cristo, a quem apresentou também seu irmão Pedro (Jo 1, 36-43).
       A Igreja Bizantina honra-o como Protóklitos, isto é o primeiro chamado por Jesus.
       Os Evangelho apresentam André em outras ocasiões: aquando da multiplicação dos pães, dizendo a Jesus que havia um jovem que tinha cinco pães de cevada e dois peixes, mas insuficiente para tanta gente (Jo 6, 8-9); quando Jesus refere que do Templo não ficará pedra sobre pedra, apesar da solidez da construção, então juntamente com Pedro e João, André interroga Jesus: "Diz-nos quando isto acontecerá e qual o sinal de que tudo está para acabar?" (Mc 13, 1-4); próximo da Páscoa, antes da Paixão, vêm à cidade alguns gregos e manifestam o desejo de ver Jesus e é André e Filipe que servem de intérpretes (Jo 12, 23-24). Depois do Pentecostes, segundo uma tradição, pregou em diversas regiões e foi crucificado na Acaia.
       A tradição narra a morte de André em Petrasso, onde sofreu o suplício da crucifixão e à semelhança de Pedro pediu para ser crucificado de maneira diferente á do Mestre, tendo sido crucificado numa cruz decussada, cruzada transversalmente e inclinada, e que ficou conhecida como a "cruz de Santo André".
       Portanto, diz-nos o Papa Bento XVI, "o apóstolo André ensina-nos a seguir Jesus com prontidão (cf (Mt 4,20; Mc 1, 18), a falar com entusiasmo d'Ele a quantos encontrarmos, e sobretudo a cultivar com Ele um relacionamento de verdadeira familiaridade, bem conscientes de que só n'Ele podemos encontrar o sentido último da nossa vida e da nossa morte".

Oração de coleta:
       Nós Vos suplicamos, Deus omnipotente, que, assim como o apóstolo Santo André foi na terra pregador do Evangelho e pastor da vossa Igreja, seja também no Céu poderoso intercessor junto de Vós. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo

BENTO XVI SOBRE SANTO ANDRÉ, o Protóklitos 
Queridos irmãos e irmãs!
Nas últimas duas catequeses falámos da figura de São Pedro. Agora queremos, na medida em que as fontes o permitem, conhecer mais de perto também os outros onze Apóstolos. Portanto, falamos hoje do irmão de Simão Pedro, Santo André, também ele um dos Doze. A primeira característica que em André chama a atenção é o nome: não é hebraico, como teríamos pensado, mas grego, sinal de que não deve ser minimizada uma certa abertura cultural da sua família. Estamos na Galileia, onde a língua e a cultura gregas estão bastante presentes. Nas listas dos Doze, André ocupa o segundo lugar, como em Mateus (10, 1-4) e em Lucas (6, 13-16), ou o quarto lugar como em Marcos (3, 13-18) e nos Actos (1, 13-14). Contudo, ele gozava certamente de grande prestígio nas primeiras comunidades cristãs.
O laço de sangue entre Pedro e André, assim como a comum chamada que Jesus lhes faz, sobressaem explicitamente nos Evangelhos. Neles lê-se: "Caminhando ao longo do mar da Galileia, Jesus viu os dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes: "Vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens"" (Mt 4, 18-19; Mc 1, 16-17). Do Quarto Evangelho tiramos outro pormenor: num primeiro momento, André era discípulo de João Baptista; e isto mostra-nos que era um homem que procurava, que partilhava a esperança de Israel, que queria conhecer mais de perto a palavra do Senhor, a realidade do Senhor presente. Era verdadeiramente um homem de fé e de esperança; e certa vez, de João Baptista ouviu proclamar Jesus como "o cordeiro de Deus" (Jo 1, 36); então ele voltou-se e, juntamente com outro discípulo que não é nomeado, seguiu Jesus, Aquele que era chamado por João o "Cordeiro de Deus". O evangelista narra: eles "viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia" (Jo 1, 37-39). Portanto, André viveu momentos preciosos de familiaridade com Jesus.
A narração continua com uma anotação significativa: "André, o irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram João e seguiram Jesus. Encontrou primeiro o seu irmão Simão, e disse-lhe: "Encontramos o Messias" que quer dizer Cristo. E levou-o até Jesus" (Jo 1, 40-43), demonstrando imediatamente um espírito apostólico não comum. Portanto, André foi o primeiro dos Apóstolos a ser chamado para seguir Jesus. Precisamente sobre esta base a liturgia da Igreja Bizantina o honra com o apelativo de Protóklitos, que significa exactamente "primeiro chamado". E não há dúvida de que devido ao relacionamento fraterno entre Pedro e André a Igreja de Roma e a Igreja de Constantinopla se sentem irmãs entre si de modo especial. Para realçar este relacionamento, o meu Predecessor, o Papa Paulo VI, em 1964, restituiu as insignes relíquias de Santo André, até então conservadas na Basílica Vaticana, ao Bispo metropolita Ortodoxo da cidade de Patrasso na Grécia, onde segundo a tradição o Apóstolo foi crucificado.
As tradições evangélicas recordam particularmente o nome de André noutras três ocasiões, que nos fazem conhecer um pouco mais este homem. A primeira é a da multiplicação dos pães na Galileia. Naquele momento foi André quem assinalou a Jesus a presença de um jovem que tinha cinco pães de cevada e dois peixes: era muito pouco observou ele para todas as pessoas reunidas naquele lugar (cf. Jo 6, 8-9). Merece ser realçado, neste caso, o realismo de André: ele viu o jovem portanto já se tinha perguntado: "mas o que é isto para tantas pessoas?" (ibid.) mas apercebeu-se da insuficiência dos seus poucos recursos. Contudo, Jesus soube fazê-los bastar para a multidão de pessoas que vieram ouvi-lo. A segunda ocasião foi em Jerusalém. Saindo da cidade, um discípulo fez notar a Jesus o espectáculo dos muros sólidos sobre os quais o Templo se apoiava. A resposta do Mestre foi surpreendente: disse que não teria ficado em pé nem sequer uma pedra daqueles muros. Então André, juntamente com Pedro, Tiago e João, interrogou-o: "Diz-nos quando tudo isto acontecerá e qual o sinal de que tudo está para acabar" (Mc 13, 1-4).
Para responder a esta pergunta Jesus pronunciou um importante discurso sobre a destruição de Jerusalém e sobre o fim do mundo, convidando os seus discípulos a ler com atenção os sinais do tempo e a permanecer sempre vigilantes. Podemos deduzir deste episódio que não devemos ter receio de fazer perguntas a Jesus, mas ao mesmo tempo devemos estar prontos para receber os ensinamentos, até surpreendentes e difíceis, que Ele nos oferece.
Por fim, nos Evangelhos está registrada uma terceira iniciativa de André. O Cenário ainda é Jerusalém, pouco antes da Paixão. Para a festa da Páscoa narra João tinham vindo à cidade santa alguns Gregos, provavelmente prosélitos ou tementes a Deus, que vinham para adorar o Deus de Israel na festa da Páscoa. André e Filipe, os dois apóstolos com nomes gregos, servem como intérpretes e mediadores deste pequeno grupo de Gregos junto de Jesus. A resposta do Senhor à sua pergunta parece como muitas vezes no Evangelho de João enigmática, mas precisamente por isso revela-se rica de significado. Jesus diz aos dois discípulos e, através deles, ao mundo grego: "Chegou a hora de se revelar a glória do Filho do Homem. Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto" (12, 23-24).
O que significam estas palavras neste contexto? Jesus quer dizer: sim, o encontro entre mim e os Gregos terá lugar, mas não como simples e breve diálogo entre mim e algumas pessoas, estimuladas sobretudo pela curiosidade. Com a minha morte, comparável à queda na terra de um grão de trigo, chagará a hora da minha glorificação. A minha morte na cruz originará grande fecundidade: o "grão de trigo morto" símbolo de mim crucificado tornar-se-á na ressurreição pão de vida para o mundo; será luz para os povos e para as culturas. Sim, o encontro com a alma grega, com o mundo grego, realizar-se-á naquela profundidade à qual faz alusão a vicissitude do grão de trigo que atrai para si as forças da terra e do céu e se torna pão. Por outras palavras, Jesus profetiza a Igreja dos gregos, a Igreja dos pagãos, a Igreja do mundo como fruto da sua Páscoa.
Tradições muito antigas vêem em André, o qual transmitiu aos gregos esta palavra, não só o intérprete de alguns Gregos no encontro com Jesus agora recordado, mas consideram-no como apóstolo dos Gregos nos anos que sucederam ao Pentecostes; fazem-nos saber que no restante da sua vida ele foi anunciador e intérprete de Jesus para o mundo grego. Pedro, seu irmão, de Jerusalém, passando por Antioquia, chegou a Roma para aí exercer a sua missão universal; André, ao contrário, foi o apóstolo do mundo grego: assim, eles são vistos, na vida e na morte, como verdadeiros irmãos uma irmandade que se exprime simbolicamente no relacionamento especial das Sedes de Roma e de Constantinopla, Igrejas verdadeiramente irmãs.
Uma tradição sucessiva, como foi mencionado, narra a morte de André em Patrasso, onde também ele sofreu o suplício da crucifixão. Mas, naquele momento supremo, de modo análogo ao do irmão Pedro, ele pediu para ser posto numa cruz diferente da de Jesus. No seu caso tratou-se de uma cruz decussada, isto é, cruzada transversalmente inclinada, que por isso foi chamada "cruz de Santo André". Eis o que o Apóstolo dissera naquela ocasião, segundo uma antiga narração (início do século VI) intituladaPaixão de André: "Salve, ó Cruz, inaugurada por meio do corpo de Cristo e que se tornou adorno dos seus membros, como se fossem pérolas preciosas. Antes que o Senhor fosse elevado sobre ti, tu incutias um temor terreno.
Agora, ao contrário, dotada de um amor celeste, és recebida como um dom. Os crentes sabem, a teu respeito, quanta alegria possuis, quantos dons tens preparados. Portanto, certo e cheio de alegria venho a ti, para que também tu me recebas exultante como discípulo daquele que em ti foi suspenso... Ó Cruz bem-aventurada, que recebestes a majestade e a beleza dos membros do Senhor!... Toma-me e leva-me para longe dos homens e entrega-me ao meu Mestre, para que por teu intermédio me receba quem por ti me redimiu. Salve, ó Cruz; sim, salve verdadeiramente!".
Como se vê, há aqui uma profundíssima espiritualidade cristã, que vê na Cruz não tanto um instrumento de tortura como, ao contrário, o meio incomparável de uma plena assimilação ao Redentor, ao grão de trigo que caiu na terra. Nós devemos aprender disto uma lição muito importante: as nossas cruzes adquirem valor se forem consideradas e aceites como parte da cruz de Cristo, se forem alcançadas pelo reflexo da sua luz. Só daquela Cruz também os nossos sofrimentos são nobilitados e adquirem o seu verdadeiro sentido.
Portanto, o apóstolo André ensina-nos a seguir Jesus com prontidão (cf. Mt 4, 20; Mc 1, 18), a falar com entusiasmo d'Ele a quantos encontramos, e sobretudo a cultivar com Ele um relacionamento de verdadeira familiaridade, bem conscientes de que só n'Ele podemos encontrar o sentido último da nossa vida e da nossa morte.
Saudação em Língua portuguesa:
Amados irmãos!
Nossa Catequese de hoje se centra na figura do Apóstolo André, irmão de Pedro. A Igreja bizantina honra-o com o nome deProtóklitos, ou seja o que foi "chamado por primeiro", por ter sido o primeiro entre os apóstolos a seguir o Senhor. Depois dele viriam todos os demais, antes de mais Pedro, a quem o Messias confiara a sua Igreja. André foi o apóstolo do mundo grego; por isso, ele exprime uma simbólica aliança entre a Igreja de Roma e a de Constantinopla.
Ao recorrer à intercessão deste grande apóstolo, peço a todos os peregrinos presentes de língua portuguesa, especialmente aos grupos vindos de Portugal e do Brasil, que rezem pela unidade da Igreja e pela comunhão de todos os cristãos. Com a minha Bênção Apostólica.

BENTO XVI, Os Apóstolos e os Primeiros Discípulos de Cristo. As origens da Igreja. Editorial Franciscana: Braga 2008.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Novena da Imaculada Conceição 2017 - Primeiro Dia

      A Paróquia de Tabuaço, como certamente outras comunidades paroquiais, vive um tempo de graça, com a NOVENA de preparação e em honra de Nossa Senhora da Conceição, nossa Padroeira. Este ano o Pregador da Novena e da Festa é o Pe. Luís Rafael, natural de Vila da Ponte, Pároco de Almacave e responsável pelo Departamento Diocesano da Pastoral dos Jovens, tendo sido ordenado sacerdote a 2 de julho do corrente ano de 2017.
       Situando-nos à volta da Liturgia da Palavra, o Pe. Luís Rafael fez-nos revisitar o banquete de Nabucodunosor (Dan 5, 1ss), rei da Babilónia, um dos impérios que subjugou os judeus. Num banquete onde prevaleceu a maldade até que uma mão escreve na parede, vem o temor pelo mal feito e o pedido a Daniel para interpretar as palavras escritas por aquela mão, revelando-se a fragilidade daquele reino.
       Fazer as coisas corretas, ser cristão, seguir Jesus Cristo nem sempre é fácil, como referiu Jesus aos seus discípulos (Lc 21, 12-19). Uma das palavras vincadas no Evangelho é precisamente a que é dita também a Nossa Senhora pelo Anjo aquando da Anunciação: não temas!
      O mal pode levar-nos a tremer como varas verdes, mas deve levar-nos sobretudo à confiança em Deus, acolhendo-nos à Sua misericórdia. Preparamo-nos para a Festa da Senhora da Conceição, mas também para irmos até Jesus, reconhecendo o nosso pecado e recebendo o Seu perdão para prosseguirmos. Segui-l'O nem sempre é fácil, mas é decisivo, faz-nos bem, é bonito. Tal como Maria não temamos dar testemunho d'Ele, como Ela. Se ela tivesse optado pelo medo, não nos teria dado Jesus.

Na perseverança salvareis as vossas almas

       Disse Jesus aos seus discípulos: "Deitar-vos-ão as mãos e hão-de perseguir-vos, entregando-vos às sinagogas e às prisões, conduzindo-vos à presença de reis e governadores, por causa do meu nome. Assim tereis ocasião de dar testemunho. Tende presente em vossos corações que não deveis preparar a vossa defesa. Eu vos darei língua e sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer. Sereis entregues até pelos vossos pais, irmãos, parentes e amigos. Causarão a morte a alguns de vós e todos vos odiarão por causa do meu nome; mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá. Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas" (Lc 21, 12-19).
       As palavras de Jesus aos seus discípulos são de alerta, mas igualmente de confiança. Alerta-os para as dificuldades que enfrentarão no cumprimento da missão de pregar a boa-nova, serão perseguidos e alguns deles sofrerão o martírio. O seguimento de Jesus não traz facilidades, mas há-de trazer a felicidade até à eternidade.
       Com efeito, Deus não nos pede impossíveis e, por isso, Jesus sossega os seus discípulos para que tenham confiança, Deus acompanhá-los-á, protegê-los-á, nem um só cabelo se perderá.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Não vos alarmeis... não será logo o fim!

       Jesus disse-lhes: «Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído». Eles perguntaram-Lhe: «Mestre, quando sucederá isto? Que sinal haverá de que está para acontecer?». Jesus respondeu: «Tende cuidado; não vos deixeis enganar, pois muitos virão em meu nome e dirão: ‘Sou eu’; e ainda: ‘O tempo está próximo’. Não os sigais. Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas, não vos alarmeis: é preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim». Disse-lhes ainda: «Há-de erguer-se povo contra povo e reino contra reino. Haverá grandes terramotos e, em diversos lugares, fomes e epidemias. Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu» (Lc 21, 5-11).
       Ao olharmos para os textos litúrgicos sugeridos para hoje, constatámos como é fácil alguém utilizar a Bíblia para fomentar o medo, a ameaça, a pregação cataclítica do fim do mundo, de destruição de todo o que nos é visível, e até mesmo de uma grande castigo da parte de Deus.
       Mas sem necessidade de grandes teorizações, basta ler com atenção o texto sagrado para vermos que as palavras proferidas são sobretudo de esperança e de confiança em Deus. Diz Jesus, "não vos alarmeis" com estas coisas e se aparecerem os profetas da desgrala, "não vos deixeis enganar". Mesmo que o mundo esteja a ruir, tende confiança, "Eu venci o mundo".
       Aquilo que parecem profecias da desgraças, são anúncio do julgamento de Deus e Deus vem, em Jesus Cristo, para julgar recuperando o que estava perdido.
       A plenitude dos tempos, para nós crentes, chega com Jesus Cristo. Ele insere-nos no Seu mundo de justiça, de perdão, de amor e de paz. Com Ele, o reino de Deus chegou, ainda que não se tenha manifestado totalmente no tempo, impele-nos para a eternidade de Deus.
       Jesus caminha connosco. Não há nada a temer. E muito menos a morte. A nossa missão e o nosso compromisso é com a vida.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A viúva que deu mais que todos

       Naquele tempo, Jesus levantou os olhos e viu os ricos deitarem na arca do Tesouro as suas ofertas. Viu também uma viúva muito pobre deitar duas pequenas moedas. Então Jesus disse: "Em verdade vos digo: Esta viúva pobre deu mais do que todos os outros. Todos eles deram do que lhes sobrava; mas ela, na sua penúria, ofereceu tudo o que possuía para viver" (Lc 21, 1-4).
       Obviamente que a solidariedade não se quantifica. Também será demasiado complicado qualificar a generosidade desta ou daquela pessoa, desta ou daquela empresa. Quando alguém dá muito, podendo dar muito, beneficiará muitos. Quem dá pouco, ainda que pouco possa dar, vai beneficiar a poucos.
       Mas as contas de Jesus são de outra ordem. Ele qualifica a doação desta mulher. Os que deitam altas quantias no tesouro do templo dão muito, podem dar muito, dão do que não lhes faz falta, e dão à frente de todos para serem bem vistos. Aquela mulher, dá do que lhe faz falta. A sua oferta é genuína: tem pouco, mas quer dar uma oferenda para o tesouro do templo, ainda que lhe venha a faltar.
       Deus não nos pede impossíveis, mas na hora de ajudar, não devemos calcular, mas dar genuinamente. Deus não nos pede muito ou pouco, pede que nos demos a nós mesmos, o nosso tempo, a nossa energia, os nossos dons, ao serviço do outro.

sábado, 25 de novembro de 2017

Solenidade Jesus Cristo Rei do Universo - ano A

Deus é um Deus de vivos e não de mortos!

      Aproximaram-se de Jesus alguns saduceus – que negam a ressurreição – e fizeram-lhe a seguinte pergunta: «Mestre, Moisés deixou-nos escrito: ‘Se morrer a alguém um irmão, que deixe mulher, mas sem filhos, esse homem deve casar com a viúva, para dar descendência a seu irmão’. Ora havia sete irmãos. O primeiro casou-se e morreu sem filhos. O segundo e depois o terceiro desposaram a viúva; e o mesmo sucedeu aos sete, que morreram e não deixaram filhos. Por fim, morreu também a mulher. De qual destes será ela esposa na ressurreição, uma vez que os sete a tiveram por mulher?». Disse-lhes Jesus:  «Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento. Mas aqueles que forem dignos de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos, nem se casam nem se dão em casamento. Na verdade, já não podem morrer, pois são como os Anjos, e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus. E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça ardente, quando chama ao Senhor ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’. Não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos». Então alguns escribas tomaram a palavra e disseram: «Falaste bem, Mestre» (Lc 20, 27-40).
       No tempo de Jesus existiam vários grupos, fações. Um desses grupos, os saduceus, classe dos comerciantes, preocupava-se sobretudo com o que era material, com o que poderia dar dinheiro. Era um grupo materialista. Os seus membros não acreditavam na ressurreição dos mortos.
       Aproximam-se de Jesus e colocam-lhe um "problema" muito da tradição judaica. Se um irmão tivesse casado e morrido sem descendência, o irmão a seguir desposaria a mesma mulher para desse modo lhe dar descendência, e se este, por sua vez, também não deixasse descendência, o seguinte assumia a responsabilidade de casar com a mesma mulher a fim de lhe dar a descendência. Ora sucedeu que sete desposaram a mulher, mas todos morreram sem descendência, com qual deles ficaria ela na vida eterna?
       A resposta de Jesus é clara e inequívoca, na vida eterna nem se casam nem se dão em casamento. É uma realidade distinta da terrena e história.
       Por outro lado, Jesus evoca a Sagrada Escritura, na ocasião em que Moisés vai falar com Deus, tratando Deus como o "Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob", ou seja, um Deus de vivos e não de mortos. Como Moisés é uma referência fundante e fundamental para todos os judeus, esta referência de Jesus é conclusiva e não merece reparos.
       Jesus di-lo de forma clara, quando invocamos o nome de Deus é porque reconhecemos que Ele vive, e que a Sua referência é aos vivos, mesmo que tenham morrido há centenas de anos. A fé na ressurreição abre a nossa vida à eternidade, abre-nos à esperança de um sentido último e definitivo.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Tabuaço: Padre Victor em concerto acústico

No dia 18 de novembro de 2017, a Paróquia de Tabuaço, no âmbito e de acordo com o seu Plano Pastoral Paroquial, promoveu um concerto acústico com o Padre Victor Silva, pároco de Samodães e de Avões, com a banda que o acompanhou, no Auditório do Centro de Promoção Social de Tabuaço.

Algumas imagens, em formato de videoporama, com dois temas musicais do último Álbum do Padre Victor, Faces:

Jesus chorou sobre a cidade de Jerusalém

       Quando Jesus Se aproximou de Jerusalém, ao ver a cidade, chorou sobre ela e disse: "Se ao menos hoje conhecesses o que te pode dar a paz! Mas não. Está escondido a teus olhos. Dias virão para ti, em que os teus inimigos te rodearão de trincheiras e te apertarão de todos os lados. Esmagar-te-ão a ti e aos teus filhos e não deixarão em ti pedra sobre pedra, por não teres reconhecido o tempo em que foste visitada" (Lc 19, 41-44).
       Ao olharmos para o Médio Oriente deparamos, na maioria da vezes, com notícias de atentados terroristas, de respostas bélicas às ameaças, suicídios para matar grupos de pessoas, conflitos, muros físicos que dividem, suspeitos em todas as esquinas, famílias destroçadas pela morte de algum familiar. Jerusalém é um foco de divisão. Três religiões presentes na Terra Santa: judaísmo, islamismo e cristianismo. Certamente outras pessoas com outros credos religiosos ou sem credo nenhum. A religião que deveria "re-ligare", deveria ser ponte, tornou-se muro intransponível entre os judeus e os muçulmanos, mas onde, no passado, o cristianismo também esteve presente nas guerras e guerrilhas pela posse da Terra sagrada.
       Jesus chora sobre Jerusalém sabendo que a salvação está próxima, basta abrir o coração ao perdão e ao amor. Mas chegar ao coração?

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Fiel no pouco, receberás o governo de dez cidades

       Então Jesus disse: «Um homem nobre foi para uma região distante, a fim de ser coroado rei e depois voltar. Antes, porém, chamou dez dos seus servos e entregou-lhes dez minas, dizendo: ‘Fazei-as render até que eu volte’...
       Quando voltou, investido do poder real, mandou chamar à sua presença os servos a quem entregara o dinheiro, para saber o que cada um tinha lucrado...
       Apresentou-se o primeiro e disse: ‘Senhor, a tua mina rendeu dez minas’. Ele respondeu-lhe: ‘Muito bem, servo bom! Porque foste fiel no pouco, receberás o governo de dez cidades’. Veio o segundo e disse-lhe: ‘Senhor, a tua mina rendeu cinco minas’. A este respondeu igualmente: ‘Tu também, ficarás à frente de cinco cidades’. Depois veio o outro e disse-lhe: ‘Senhor, aqui está a tua mina, que eu guardei num lenço, pois tive medo de ti, que és homem severo: levantas o que não depositaste e colhes o que não semeaste’. Disse-lhe o senhor: ‘Servo mau, pela tua boca te julgo. Sabias que sou homem severo, que levanto o que não depositei e colho o que não semeei. Então, porque não entregaste ao banco o meu dinheiro?...
       A todo aquele que tem se dará mais, mas àquele que não tem, até o que tem lhe será tirado. Quanto a esses meus inimigos, que não me quiseram como rei, trazei-os aqui e degolai-os na minha presença’». 
       Dito isto, Jesus seguiu, à frente do povo, para Jerusalém (Lc 19, 11-28).
       A parábola que Jesus nos apresenta, aqui na versão do Evangelho de São Lucas, corresponde à parábola dos Talentos, do Evangelho de São Mateus e que nos foi proposta no domingo passado. O reino de Deus é comparado a um senhor ou um rei que vai de viagem e se ausenta por um tempo determinado. Na sua volta ajusta contas com aqueles a quem confiou os seus bens, o seu dinheiro, os talentos. Com satisfação há quem multiplique o que recebeu e assim aquele senhor confiará bens maiores. Porém, um deles, temendo a severidade do seu senhor não produz, esconde com medo os bens que recebeu. O senhor retira-lhe tudo pois se não foi fiel no pouco, muito menos o será no muito.
       Deus entrega-nos o mundo. "Ausenta-Se" e deixa-nos ao comando. Cabe-nos a nós, na Sua "ausência", edificar, construir, transformar o mundo em que vivemos. Quando chegar a hora do ajuste de contas, será a hora da misericórdia de Deus, então como queremos apresentar-nos diante do Senhor?

Santa Cecília, Virgem e Mártir

Nota biográfica:
       O culto de S. Cecília, que deu o nome a uma basílica construída em Roma no século V, difundiu se amplamente a partir da narração do seu martírio em que ela é exaltada como exemplo perfeitíssimo de mulher cristã, que abraçou a virgindade e sofreu o martírio por amor de Cristo.
Oração de coleta:
       Ouvi, Senhor, benignamente as nossas súplicas e, por intercessão de Santa Cecília, concedei nos as graças que Vos pedimos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo Vosso Filho na unidade do Espírito Santo.

Comentários de Santo Agostinho, bispo, sobre os Salmos

Cantai a Deus com arte e com júbilo

Dai graças ao Senhor com a cítara, tocai em sua honra o saltério de dez cordas. Cantai-Lhe um cântico novo. Despojai-vos do homem velho, pois conheceis já o cântico novo. Homem novo, testamento novo, cântico novo. O cântico novo não é para homens velhos. Só o aprendem os homens novos, que foram renovados pela graça despojando se do pecado e pertencem já ao novo testamento que é o reino dos Céus. Por ele suspira todo o nosso amor e lhe canta um cântico novo. Cante lhe um cântico novo, não a nossa língua, mas a nossa vida.
Cantai-Lhe um cântico novo, cantai-Lhe com arte e com alma. Cada qual pergunta como há de cantar ao Senhor. Canta para Ele, mas não cantes mal. Deus não quer ouvir um cântico que ofenda os seus ouvidos. Cantai bem, irmãos. Se te pedem que cantes para um bom apreciador de música de modo que lhe agrade, não te atreves a cantar se não tens preparação musical, pelo receio de lhe desagradar, porque um bom artista notará os defeitos que a qualquer outro passam despercebidos. Quem se atreverá a cantar para Deus, tão excelente conhecedor de cantores, juiz tão completo e tão bom apreciador de música? Como poderás oferecer Lhe tão excelente audição de canto que em nada ofendas ouvidos tão perfeitos?
Mas eis que Ele mesmo te sugere a maneira como Lhe hás de cantar. Não andes à procura de palavras, como se com elas pudesses expressar aquilo que agrada a Deus. Canta com júbilo. Cantar bem para Deus é cantar com júbilo. Que é cantar com júbilo? Compreender e não poder explicar com palavras o que se canta com o coração. Os que cantam na colheita, na vindima ou em qualquer trabalho intenso, começam a exultar de alegria com as palavras do cântico; mas depois, quando cresce a emoção, sentem que já não podem explicá la por palavras, desprendem se da letra das palavras e entregam se totalmente à melodia jubilosa.
O «júbilo» é aquela melodia que traduz a incapacidade de exprimir por palavras o que sente o coração. E a quem pode consagrar se este cântico de júbilo senão ao Deus inefável? É realmente inefável Aquele que não podes dar a conhecer por palavras. E se não tens palavras para O dar a conhecer e não deves permanecer calado, nada mais te resta senão cantar com júbilo. Sim, para que o coração possa expandir a imensidade superabundante da sua alegria sem se ver coarctado pelas sílabas das palavras, cantai ao Senhor com arte e com júbilo.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Raniero Cantalamessa - PARA QUE NADA SE PERCA

RANIERO CANTALAMESSA (2017). Para que nada se perca. Novos pensamentos sobre o Concílio Vaticano II. Lisboa: Paulus Editora. 128 páginas.
       Raniero Cantalamessa é o Pregador oficial da Casa Pontifícia, há mais de 30 anos, desde 1980. Nos tempos fortes do Advento e da Quaresma, é ele quem, habitualmente, orienta os retiros do Papa, dos Cardeais e de outros signatários da Cúria vaticana. Cantalamessa, italiano, nascido a 22 de julho de 1934, é frade franciscano capuchinho.
       No 50.º aniversário do Encerramento do Concílio Ecuménico Vaticano II, o autor teve a ideia de refletir sobre o mesmo nos retiros seguintes a realizar na Casa Pontifícia, Advento (2015) e Quaresma (2016). Muito já se refletiu sobre o Vaticano, Cantalamessa procurou abordar os principais documentos, as quatro Constituições: Lumen Gentium, sobre a Igreja; Sacrosanctum Concilium, sobre a Liturgia; Dei Verbum, sobre a Palavra de Deus, e Gaudium et Spes, sobre a Igreja no mundo, refletindo também sobre o Decreto sobre o Ecumenismo, Unitatis redintegratio.
       A reflexão proposta visa uma dinâmica sobretudo espiritual dos documentos, acentuando os compromissos dos cristãos e da Igreja já em andamento ou ainda a cumprir, desafiando-nos de novo a debruçar-nos sobre a riqueza do Concílio e dos documentos gerados para bem da Igreja e do compromisso dos cristãos para este tempo da história, deixando que o Espírito Santo continue a a inspirar-nos para acolhermos e transparecermos Jesus Cristo e assim nos assumirmos, em definitivo, filhos do mesmo Pai.
       É um saboroso contributo para viver a fé na e com a Igreja, Corpo de Cristo, do qual somos membros, povo de Deus convocado pela palavra e pela caridade. Fica mais perto de nós o sopro do Espírito Santo que inspirou os Padres conciliares do Vaticano II.

Algumas frases sugestivas proferidas pelo autor e agora passadas a livro:
Mérito do então Cardeal Ratzinger ao ter realçado a relação intrínseca entre as duas imagens: «A Igreja é Corpo de Cristo porque é Esposa de Cristo... Corpo de Cristo que é Igreja com o Corpo de Cristo que é a Eucaristia... Sem a Igreja e sem a Eucaristia, Cristo não teria "corpo" no mundo».
«O que conta não é o lugar que ocupo na Igreja, mas o lugar que Cristo ocupa no meu coração!».
«Se a Igreja é o corpo de Cristo, a adesão pessoal a Ele é o único modo de começar, existencialmente, a fazer parte dela».
«Jesus já não é uma personagem, mas uma pessoa; já não é alguém de quem se fala, mas alguém a quem e com quem se pode falar, porque ressuscitado e vivo; já não é apenas uma memória, por mais liturgicamente viva e operante, mas uma presença... A fecundidade da Igreja depende do seu amor a Cristo».
«Não nos salvamos pelas boas obras, mas não nos salvamos sem  as boas obras... A criança não pode fazer absolutamente nada para ser concebida no ventre da mãe, precisa do amor de dois progenitores... no entanto, depois de ter nascido, tem de acionar os seus pulmões para respeirar e mamar; em suma tem de fazer alguma coisa, senão a vida que recebeu acabará... a fé sem as obras morre».
«O contrário de santo não é pecador, mas fracassado».
Madre Teresa de Calcutá: «A santidade não é um luxo, é uma necessidade».
«É sobretudo quando a oração se torna cansaço e luta que se descobre toda a importância do Espírito Santo para a nossa vida de oração. Então o Espírito Santo torna-se a força da nossa oração 'débil', a luz da nossa oração extinta; numa palavra, a alma da nossa oração. Na verdade, Ele 'irriga o que é árido'... O fosso que existe entre nós e o Jesus da história é preenchido pelo Espírito Santo. Sem Ele, na liturgia tudo é apenas memória; com Ele, tudo também é presença».
Santo Inácio de Antioquia: «Que nada se faça sem o teu consentimento; mas tu não faças naa se o consentimento de Deus».
«Não há missão, nem envio, sem uma prévia saída. Falamos frequentemente de uma Igreja 'em saída'. Mas devemos dar-nos conta  de que a primeira porta que temos de sair não é da Igreja,da comunidade, das instituições ou das sacristias; é a do nosso 'eu'. O Papa Francisco explicou-o muito bem em determinada ocasião: 'Estar em saída - dizia - significa antes de tudo sair do centro para deixar no centro o lugar a Deus'».
«Antes de ferir os ouvintes, a palavra deve ferir o anunciador, mostrar-lhe o seu pecado e impeli-lo à conversão».
«Quanto mais aumenta o volume da atividade, tanto mais deve aumentar  o volume da oração».
«A palavra não faltará, certamente, porque, ao contrário, quanto menos se ora, mais se fala, mas são palavras ocas, que não chegam a ninguém».
«O Evangelho do amor só se pode anunciar por amor. Se não nos esforçarmos por amar as pessoas que temos diante de nós, as palavras transformam-se-nos facilmente nas mãos em pedras que ferem e das quais nos protegemos como nos protegemos de uma saraivada».«É preciso amar Jesus, porque só quem está apaixonado por Jesus pode proclamá-l'O ao mundo com íntima convicção. Só se fala com entusiasmo daquilo por que se está apaixonado. Quando, no anunciador, existe o amor também existe a alegria, o que é o fator determinante para o sucesso do anúncio».
«Abrir-se ao outro sexo é o primeiro passo para se abrir ao outro que é o próximo, até ao Outro com maiúscula que é Deus. O matrimónio nasce no sinal da humildade; é o reconhecimento de dependência e, portanto, da própria condição de criatura. Apaixonar-se por uma mulher ou por um homem é fazer o ato mais radical de humildade. É fazer-se mendigo e dizer ao outro: 'Não e basto a mim mesmo, preciso do teu ser'... Diante de Deus, podemos dizer que a sexualidade humana é a primeira escola de religião».
«O predomínio do homem sobre a mulher faz parte do pecado do homem, não do projeto de Deus».
«Deus é amor e o amor exige comunhão, permuta interpessoal; requer que haja um 'eu' e um 'tu'. Não há amor que não seja amor por alguém; onde só há um sujeito não pode haver amor, mas apenas egoísmo ou narcisismo. Onde Deus é concebido como Lei ou como Poder absoluto não há necessidade de uma pluralidade de pessoas... O Deus revelado por Jesus Cristo é amor, é único e só, mas não é solitário; é uno e trino...».