terça-feira, 24 de abril de 2018

As minhas ovelhas escutam a minha voz

A liturgia da Palavra deste dia faz-nos perceber a proximidade de Jesus, como Bom Pastor, que acompanha o seu rebanho em todas as circunstâncias, também na perseguição.
Celebrava-se em Jerusalém a festa da Dedicação do templo. Era inverno e Jesus passeava no templo, sob o Pórtico de Salomão. Então os judeus rodearam-n’O e disseram: «Até quando nos vais trazer em suspenso? Se és o Messias, diz- nos claramente». Jesus respondeu-lhes: «Já vo-lo disse, mas não acreditais. As obras que Eu faço em nome de meu Pai dão testemunho de Mim. Mas vós não acreditais, porque não sois das minhas ovelhas. As minhas ovelhas escutam a minha voz: Eu conheço as minhas ovelhas e elas seguem-Me. Eu dou-lhes a vida eterna e nunca hão-de perecer, ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que Mas deu, é maior do que todos e ninguém pode arrebatar nada da mão do Pai. Eu e o Pai somos um só» (Jo 10, 22-30).

       Poderíamos considerar esta a semana do BOM PASTOR. O 4.º Domingo da Páscoa, Dia Mundial de Oração pelas Vocações, é o conhecido como Domingo do Bom Pastor, mas que se estende pela semana fora, mormente na proposta do Evangelho em que se aprofunda a temática de Jesus como Bom Pastor, como a Porta do aprisco pela qual entram as ovelhas.
       As palavras de Jesus revelam o amor e o cuidado de Deus por cada um de nós. Eu conheço as minhas ovelhas, e elas conhecem-me. Dou-lhes a vida eterna. Venho para que tenham vida e vida em abundância. Para que nenhuma se perca. Eu e o Pai somos UM. Que haja um só rebanho e um só pastor. Unidade e comunhão. Vida nova. Vida com qualidade. São expressões que deixam transparecer a proximidade de Deus através de Jesus Cristo.

Na primeira leitura, dos Atos dos Apóstolos, acompanhamos a dispersão do rebanho e que se deve (sobretudo) a perseguição à comunidade de Jerusalém. Oportunidade para anunciar o Evangelho em outras localidades, dando testemunho acerca de Jesus Cristo, morto e ressuscitado.
Os irmãos que se tinham dispersado, devido à perseguição desencadeada pelo caso de Estêvão, caminharam até à Fenícia, Chipre e Antioquia. Mas anunciavam a palavra apenas aos judeus. Houve, contudo, entre eles alguns homens de Chipre e de Cirene, que, ao chegarem a Antioquia, começaram a falar também aos gregos, anunciando-lhes o Senhor Jesus. A mão do Senhor estava com eles e foi grande o número dos que abraçaram a fé e se converteram ao Senhor. A notícia chegou aos ouvidos da Igreja de Jerusalém e mandaram Barnabé a Antioquia. Quando este chegou e viu a ação da graça de Deus, encheu-se de alegria e exortou a todos a que se conservassem fiéis ao Senhor, de coração sincero; era realmente um homem bom e cheio do Espírito Santo e de fé. Assim uma grande multidão aderiu ao Senhor. Então Barnabé foi a Tarso procurar Saulo e, tendo-o encontrado, trouxe-o para Antioquia. Passaram juntos nesta Igreja um ano inteiro e ensinaram muita gente. Foi em Antioquia que, pela primeira vez, se deu aos discípulos o nome de «cristãos» (Atos 11, 19-26).

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Eu sou a porta das ovelhas...

       Disse-lhes Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que não entra no aprisco das ovelhas pela porta, mas entra por outro lado, é ladrão e salteador. Mas aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. O porteiro abre-lhe a porta e as ovelhas conhecem a sua voz. Ele chama cada uma delas pelo seu nome e leva-as para fora. Depois de ter feito sair todas as que lhe pertencem, caminha à sua frente e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz. Se for um estranho, não o seguem, mas fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos». Jesus apresentou-lhes esta comparação, mas eles não compreenderam o que queria dizer. Jesus continuou: «Em verdade, em verdade vos digo: Eu sou a porta das ovelhas. Aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os escutaram. Eu sou a porta. Quem entrar por Mim será salvo: é como a ovelha que entra e sai do aprisco e encontra pastagem. O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância» (Jo 10, 1-10).
       O tema do pastoreio volta nesta semana. Um dia depois do Domingo do Bom Pastor ressoa em nós a voz de Jesus Cristo: "Eu sou o bom Pastor... Eu sou a porta das ovelhas... quem entrar por mim será salvo... Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância".
       A temática mostra-nos, uma vez mais, quanto Deus Se coloca do nosso lado, à nossa beira, junto a nós. Em Jesus Cristo vem para nos salvar, para nos constituir verdadeiro povo, para nos formar como família de Deus.

Por sua vez, na primeira Leitura, em São Pedro visualiza-se o mandato de Jesus Cristo. Pedro anuncia a todos oa Boa Notícia, alargando o pastoreio:
Disse-lhes Pedro: Quando comecei a falar, o Espírito Santo desceu sobre eles, como sobre nós ao princípio. Lembrei-me então das palavras que o Senhor dizia: ‘João baptizou com água, mas vós sereis baptizados no Espírito Santo’. Se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós, por terem acreditado no Senhor Jesus Cristo, quem era eu para poder opor-me a Deus?» Quando ouviram estas palavras, tranquilizaram-se e deram glória a Deus, dizendo: «Portanto, Deus concedeu também aos gentios o arrependimento que conduz à vida» (Atos 11, 1-18).

       São Pedro regressa à comunidade judaica depois de ter estado entre pagãos. A reacção da comunidade é, de início, apreensiva, desconfiada, cautelosa. A salvação em Cristo é manifestada aos judeus, como é que Pedro vai até junto dos incircuncisos, os pagãos?
       Pedro, inspirado pelo Espírito Santo fala-lhes do sonho que teve e como Deus lhe manifestou a necessidade de alargar a mensagem para os pagãos e, ao mesmo tempo, a recepção positiva dos pagãos à mensagem pregada por Pedro, em nome de Jesus Cristo.
       Finalmente, a comunidade compreende que a salvação não é exclusiva de um povo, de uma nação, de um grupo de pessoas, mas destina-se à humanidade inteira... ainda que episódios destes se repitam pela história da Igreja...

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Eu sou Jesus, a quem tu persegues...

       O livro dos Atos dos Apóstolos narra a vida e a missão dos apóstolos, depois da morte e ressurreição de Jesus Cristo, bem assim como a vida das primeiras comunidades cristãs. A evangelização prossegue a bom ritmo, com uma grande ajuda do mais recente Apóstolo: São Paulo. A sua conversão provoca uma grande viragem na evangelização.
       Vale a pena ler o relato apresentado sobre a conversão de São Paulo:
Na viagem, quando estava já próximo de Damasco, viu-se de repente envolvido numa luz intensa vinda do Céu. Caiu por terra e ouviu uma voz que lhe dizia: «Saulo, Saulo, porque Me persegues?». Ele perguntou: «Quem és Tu, Senhor?». O Senhor respondeu: «Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Mas levanta-te, entra na cidade e aí te dirão o que deves fazer». Os companheiros de viagem de Saulo tinham parado emudecidos; ouviam a voz, mas não viam ninguém. Saulo levantou-se do chão, mas, embora tivesse os olhos abertos, nada via. Levaram-no pela mão e introduziram-no em Damasco. Ficou três dias sem vista e sem comer nem beber. Vivia em Damasco um discípulo chamado Ananias e o Senhor chamou-o numa visão: «Ananias». Ele respondeu: «Eis-me aqui, Senhor». O Senhor continuou: «Levanta-te e vai à rua chamada Direita procurar, em casa de Judas, um homem de Tarso, chamado Saulo, que está a orar». – Entretanto, Saulo teve uma visão, em que um homem chamado Ananias entrava e impunha-lhe as mãos, para que recuperasse a vista. Ananias respondeu: «Senhor, tenho ouvido contar a muitas pessoas todo o mal que esse homem fez aos teus fiéis em Jerusalém; e agora está aqui com plenos poderes dos príncipes dos sacerdotes para prender todos os que invocam o teu nome». O Senhor disse-lhe: «Vai, porque esse homem é o instrumento escolhido por Mim, para levar o meu nome ao conhecimento dos gentios, dos reis e dos filhos de Israel. Eu mesmo lhe mostrarei quanto ele tem de sofrer pelo meu nome». Então Ananias partiu, entrou na casa, impôs as mãos a Saulo e disse-lhe: «Saulo, meu irmão, quem me envia é o Senhor, – esse Jesus que te apareceu no caminho por onde vinhas – a fim de recuperares a vista e ficares cheio do Espírito Santo». Imediatamente lhe caíram dos olhos uma espécie de escamas e recuperou a vista. Depois levantou-se, recebeu o baptismo e, tendo tomado alimento, readquiriu as forças. Saulo passou alguns dias com os discípulos de Damasco e começou logo a proclamar nas sinagogas que Jesus era o Filho de Deus (Atos 9, 1-20).
        De perseguidor dos cristãos, Paulo cai em si e descobre que Aquele que persegue é o mesmo quem procura: o Caminho, a Verdade e a Vida, Jesus Cristo.
       No Evangelho deste dia, seguindo a temática do Pão da Vida, em que Jesus Se identifica com o verdadeiro alimento que perdurará até à vida eterna, o Pão que desce do Céu, vislumbra-se o desfecho que ora celebramos, a Paixão de Jesus, que aponta para o AMOR que supera a própria morte.
Os judeus discutiam entre si: «Como pode Jesus dar-nos a sua carne a comer?». Então Jesus disse-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia. A minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e Eu nele. Assim como o Pai, que vive, Me enviou e Eu vivo pelo Pai, também aquele que Me come viverá por Mim. Este é o pão que desceu do Céu; não é como o dos vossos pais, que o comeram e morreram: quem comer deste pão viverá eternamente». Assim falou Jesus, ao ensinar numa sinagoga, em Cafarnaum (Jo 6, 52-59).

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Continuou o caminho, cheio de alegria, anunciando...

       Vale a pena ler todo o texto da primeira leitura, proposta para esta Quinta-feira da 3.º Semana da Páscoa, dos Atos dos Apóstolos. A perseguição à Igreja leva à deslocalização da missão da primeira comunidade cristã, a de Jerusalém. Na mesma perspetiva, havendo uma clara oposição e perseguição aos cristãos, só por si é já divulgação, chega facilmente aos ouvidos de mais pessoas. Uma "notícia" ruim corre veloz. Neste texto, porém, a evangelização de Filipe é suscitada pelo Espírito Santo.
O Anjo do Senhor disse a Filipe: «Levanta-te e dirige-te para o sul, pelo caminho deserto que vai de Jerusalém para Gaza». Filipe partiu e dirigiu-se para lá. Quando ia a caminho, encontrou-se com um eunuco etíope, que era alto funcionário de Candace, rainha da Etiópia, e administrador geral do seu tesouro. Tinha ido a Jerusalém para adorar a Deus e regressava ao seu país, sentado no seu carro, a ler o livro do profeta Isaías. O Espírito de Deus disse a Filipe: «Aproxima-te e acompanha esse carro». Filipe aproximou-se do carro e, ouvindo o etíope a ler o profeta Isaías, perguntou-lhe: «Entendes, porventura, o que estás a ler?». Ele respondeu: «Como é que eu posso entender sem ninguém me explicar?» Convidou então Filipe a subir para o carro e a sentar-se junto dele. A passagem da Escritura que ele ia a ler era a seguinte: «Como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha muda ante aqueles que a tosquiam, ele não abriu a boca. Foi humilhado e não se lhe fez justiça. Quem poderá falar da sua descendência? Porque a sua vida desapareceu da terra». O eunuco perguntou a Filipe: «Diz-me, por favor: de quem é que o profeta está a falar? De si próprio ou de outro?». Então Filipe tomou a palavra e, a partir daquela passagem da Escritura, anunciou-lhe Jesus. Ao passar por um lugar onde havia água, o eunuco exclamou: «Ali está água. Que me impede de ser baptizado?». Mandou parar o carro, desceram ambos à água e Filipe baptizou-o. Quando saíram da água, o Espírito do Senhor arrebatou Filipe e o eunuco deixou de o ver. Mas continuou o seu caminho cheio de alegria. Filipe encontrou-se em Azoto e foi anunciando a boa nova a todas as cidades por onde passava, até que chegou a Cesareia (Atos 8, 26-40)
       O processo de evangelização: a pessoa sente-se "tocada" pelo Espírito Santo (como os discípulos de Emaús - "não ardia cá dentro..."); a leitura da Sagrada Escritura, e a explicação da mesma (aqui por Filipe, e com os discípulos de Emaús, Jesus explica...); conversão a Jesus Cristo (batismo; nos discípulos de Emaús, o reconhecimento de Jesus ao partir do pão); a alegria e o anúncio (também em Emaús, os discípulos correm a anunciar, com grande alegria, o que lhes sucedeu no encontro com Jesus...).
       O Evangelho que nos é proposto nestes dias torna claro o mistério da redenção: Jesus é o Pão que desce do Céu como alimento para vida dos homens. A Sua morte e ressurreição não é um acontecimento ocasional nem um acontecimento passado. É vontade de Deus, assumida por Jesus, e que nos mostra que o Seu amor vai até ao fim. Ele entrega a Sua vida para nossa salvação, que acontece também HOJE. Estamos em dinâmica de ressuscitados em Cristo.

Disse Jesus à multidão: «Ninguém pode vir a Mim, se o Pai, que Me enviou, não o trouxer; e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia. Está escrito no livro dos Profetas: ‘Serão todos instruídos por Deus’. Todo aquele que ouve o Pai e recebe o seu ensino vem a Mim. Não porque alguém tenha visto o Pai; só Aquele que vem de junto de Deus viu o Pai. Em verdade, em verdade vos digo: Quem acredita tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida. No deserto, os vossos pais comeram o maná e morreram. Mas este pão é o que desce do Céu, para que não morra quem dele comer. Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que Eu hei-de dar é a minha carne que Eu darei pela vida do mundo» (Jo 6, 44-51).

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Levantou-se uma grande perseguição à Igreja

       No tempo de Páscoa são-nos apresentadas leituras dos Atos dos Apóstolos e muito do Evangelho de São João. A primeira transparece a vida, a alegria, a garra, a vitalidade com que as comunidades cristãs se vão formando, enfrentando dificuldades e novas realidades. O anúncio do Evangelho dá frutos efetivos, ainda que surgem obstáculos nem sempre fáceis de vencer. O Espírito Santo guia os discípulos para nossas paragens.
       Depois do apedrejamento de Estêvão, o primeiro mártir cristão, a perseguição à Igreja acentuou-se o que vai permitir a expansão mais célere do cristianismo. Os persguidos levam a mensagem e os motivos da perseguição e suscitam entusiasmo noutros, pela alegria, convicção, pelo testemunho.
Levantou-se uma grande perseguição contra a Igreja de Jerusalém e todos, à excepção dos Apóstolos, se dispersaram pelas terras da Judeia e da Samaria. Alguns homens piedosos sepultaram Estêvão e fizeram grandes lamentações por ele. Saulo, por sua vez, devastava a Igreja: ia de casa em casa, arrastava homens e mulheres e metia-os na prisão. Entretanto, os irmãos dispersos andaram de terra em terra, a anun¬ciar a palavra do Evangelho. Foi assim que Filipe, tendo descido a uma cidade da Samaria, começou a anunciar Cristo àquela gente. As multidões aderiam unânimemente às palavras de Filipe, porque ouviam falar dos milagres que fazia e também os viam. De muitos possessos saíam espíritos impuros, soltando enormes gritos, e numerosos paralíticos e coxos foram curados. E houve muita alegria naquele cidade (Atos 8, 1b-8).
       No evangelho, São João fala-nos da identidade de Jesus, como o verdadeiro alimento, o Pão que desce do Céu para dar vida ao mundo, para que n'Ele saciemos a nossa sede, a nossa ânsia de sentido e de felicidade:
Disse Jesus à multidão: «Eu sou o pão da vida: Quem vem a Mim nunca mais terá fome e quem acredita em Mim nunca mais terá sede. No entanto, como vos disse, ‘embora tivésseis visto, não acreditais’. Todos aqueles que o Pai Me dá virão a Mim e àqueles que vêm a Mim não os rejeitarei, porque desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade d’Aquele que Me enviou. E a vontade d’Aquele que Me enviou é esta: que Eu não perca nenhum dos que Ele Me deu, mas os ressuscite no último dia. De facto, é esta a vontade de meu Pai: que todo aquele que vê o Filho e acredita n’Ele tenha a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia» (Jo 6, 35-40)
       Para Jesus, e assim também para os seus discípulos, que somos nós também, a missão fundamental é fazer a vontade de Deus, procurando que a nossa vontade se aproxime ou funda com a vontade de Deus para nós e para a humanidade. Ele vem para salvar. A salvação acontece quando nos tornamos dóceis ao Espírito de Deus e disponíveis para darmos a vida a favor de muitos.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Eu sou o pão da vida: quem vem a Mim não terá fome

Disse a multidão a Jesus: «Que milagres fazes Tu, para que nós vejamos e acreditemos em Ti? Que obra realizas? No deserto os nossos pais comeram o maná, conforme está escrito: ‘Deu-lhes a comer um pão que veio do céu’». Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: Não foi Moisés que vos deu o pão que vem do Céu; meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão que vem do Céu. O pão de Deus é o que desce do Céu para dar a vida ao mundo». Disseram-Lhe eles: «Senhor, dá-nos sempre desse pão». Jesus respondeu-lhes: «Eu sou o pão da vida: quem vem a Mim nunca mais terá fome, quem acredita em Mim nunca mais terá sede» ( Jo 6, 30-35 ).
       Persistir e voltar ao passado é uma tentação muito frequente, sobretudo quando ainda não se sabe muito do futuro que se vai tornando presente. O que lá vem, envolve uma dose de desconfiança e medo, pois não sabemos com o que podemos contar. Repetir o que já vivemos, fazer o que já fizemos, dá-nos alguma tranquilidade e sossego. Já sabemos com o que contamos. Na vida pessoal, na vida familiar, na vida profissional, precisamos de nos sentirmos em casa, seguros, saber com o que contámos, sem grandes surpresas. A rotina também solidifica a nossa relação com os outros e com a vida. O que valoriza a festa é a féria, se todos os dias fossem de festa, a festa passava a ser rotina e deixava festa. Mas, muitas vezes, precisamos de abrir as janelas e as portas, para entrar ar fresco e salubre, e para sairmos para que os nossos movimentos nos tornem ágeis e saudáveis.
        Jesus é água vida, e vida nova, é ar puro, alimento que nos sacie, Irrompe pela nossa vida, como uma enxurrada de vida e de compaixão. Ele é NOVIDADE, a grande BOA NOVA, bela notícia de salvação. Vem por inteiro e traz-nos Deus, dando-nos o melhor de Si, dando-Se, entregando a Sua vida, mostrando que o amor de Deus por nós não tem limite, o limite é a eternidade. Desde sempre nos chama, para sempre nos quer com Ele junto do Pai. Não quer que nenhum de nós se perca, quer-nos TODOS com Ele. Faz-Se Um connosco, um de nós, para nos unir a Ele e nos elevar.
        A multidão segue-O. Vamos nós também. Sigamos. Vejamos. Ouçamos. Também duvidamos das Suas palavras? E do Seu amor? Ver para crer! Por vezes, diante do sofrimento e das dificuldades, parece que não há sol nem esperança. Quereríamos um sinal inequívoco que podemos contar com Deus e que Deus está na nossa vida. Jesus desafia-nos: quem acredita n'Ele tem a vida eterna, encontra um sentido para a vida, que ultrapassa o tempo, a morte, o sofrimento.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

VL - Jesus Cristo, nossa Páscoa e nossa alegria

Jesus Cristo é a nossa Páscoa, a nossa esperança e alegria, e a Luz que nos conduz e nos envolve no Seu amor e na Vida nova que nos dá. Tão grande este mistério que guia, ilumina e dá forma à nossa vida como cristãos. Existimos para a Páscoa, porque dela nascemos. Somos o que somos por causa da Páscoa. Sem a Páscoa não seríamos cristãos, não seríamos Corpo de Cristo, que é Igreja. E caminhamos como peregrinos para a Páscoa (eterna), que é Jesus Cristo. 
Com efeito, quando batizados, mergulhámos neste mistério maior, morrendo com Cristo, ressuscitando com Ele, tornando-nos novas criaturas. Por outro lado, o mistério da Eucaristia configura-nos totalmente a Cristo, morto e ressuscitado, somos Corpo n'Ele e com Ele. 

A cada ano, a festa das festas cristãs, a Páscoa anual, para recentrar a nossa fé, para imprimir a prioridade que deve habitar-nos, a essência do nosso crer, do nosso celebrar e do nosso agir. Vai e faz do mesmo modo. Como Eu vos fiz, fazei vós também. Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. Lavei-vos os pés... para que assim o façais aos vossos irmãos. Dai-lhes vós mesmos de comer. Onde dois ou três estiverem reunidos em Meu nome aí estarei no meio deles. Estarei convosco até ao fim dos tempos. Não temais, Eu venci o mundo. Quem acreditar em Mim será salvo. Vinde a Mim todos vós que andais cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei. Vinde benditos de Meu Pai. O que fizerdes ao mais pequeno dos irmãos é a Mim que o fazeis. Quem quiser ser o primeiro, seja o último e o servo de todos. Sede perfeitos e misericordiosos como o Vosso Pai do Céu. Nem um copo de água ficará sem recompensa. Perdoai, sempre, pois assim o Pai vos perdoará a vós. Ide reconciliar-vos com os irmãos. 

As palavras de Jesus são acompanhadas por gestos e vice-versa, os gestos são explicitados pelas palavras. Mas tudo é "sacralizado", fixado, elevado no mistério da Sua Páscoa que Ele nos deixa como memorial, para que também hoje, na minha e na tua, na nossa vida, Ele Se faça presente com a Sua vida e com o Seu amor sem fim. Ele vive, Ele está no meio de nós. A distância "ontológica" – Ele vive na dimensão do Pai – é contemporaneizada no mistério da Igreja, concentrado, vivido e celebrado no dom da Eucaristia em que Ele, Deus sempre connosco, Se faz presente nas espécies do vinho e do pão, novamente e sempre pela ação do Espírito Santo.

Publicado na Voz de Lamego, 27 de março de 2018

Trabalhai pelo alimento que dura até à vida eterna

       Depois de Jesus ter saciado os cinco mil homens, os seus discípulos viram-n’O a caminhar sobre as águas. No dia seguinte, a multidão que permanecera no outro lado do mar notou que ali só estivera um barco e que Jesus não tinha embarcado com os discípulos; estes tinham partido sozinhos. Entretanto, chegaram outros barcos de Tiberíades, perto do lugar onde eles tinham comido o pão, depois de o Senhor ter dado graças. Quando a multidão viu que nem Jesus nem os seus discípulos estavam ali, subiram todos para os barcos e foram para Cafarnaum, à procura de Jesus. Ao encontrá-l’O no outro lado do mar, disseram-Lhe: «Mestre, quando chegaste aqui?»
       Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: vós procurais-Me, não porque vistes milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes saciados. Trabalhai, não tanto pela comida que se perde, mas pelo alimento que dura até à vida eterna e que o Filho do homem vos dará. A Ele é que o Pai, o próprio Deus, marcou com o seu selo». Disseram-Lhe então: «Que devemos nós fazer para praticar as obras de Deus?» Respondeu-lhes Jesus: «A obra de Deus consiste em acreditar n’Aquele que Ele enviou» (Jo 6, 22-29).


       Nas palavras de Jesus a fé é o conteúdo essencial para alcançar a vida eterna e para, neste mundo, realizar as obras de Deus. Muitas vezes referimos a necessidade de passar da fé à vida, da oração para a acção, da igreja para a rua, para o trabalho, para o lazer. Ora, Jesus identifica as duas realidades: acreditar n'Aquele que o Pai enviou é a forma de realizar a obra de Deus.
       Numa leitura atenta das palavras de Jesus podemos ver facilmente que a fé não é oca, vazia, desligada da vida e das preocupações de transformar o mundo, pelo contrário, a fé implica a maior das mudanças e das revoluções, a adesão firme e militante à vida nova recebida de Deus. Uma pessoa crente, em que a fé seja autêntica e signifique seguimento de Jesus Cristo, leva inevitavelmente ao compromisso com os outros. Aliás, só na fé de Jesus Cristo nos reconhecemos como irmãos. Acreditar n'Ele implica que O imitemos em tudo, dando a vida uns pelos outros.
       Uma pessoa enamorada tudo fará para ser agradável à pessoa por quem nutre tal afeição. Se nos enamoramos por Jesus Cristo, a nossa vida seguirá nas Suas peugadas...

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Aquele que vem do alto está acima de todos...

       A Páscoa de Jesus reabilita e reúne os discípulos. O medo dá lugar à alegria, a dúvida cede à fé, o temor é assumido pela esperança. As portas e janelas antes fechadas abrem-se para o mundo e os discípulos apregoam Jesus vivo e o Seu Evangelho de compaixão em todos os lugares, ocasiões e oportunidades.
       O livro dos Atos dos Apóstolos, que nos acompanha em todo o tempo de Páscoa, mostra-nos como as primeiras comunidades assumem e testemunham o Evangelho e como os Apóstolos vão alargando o espaço e os mundos a que se dirigem para pregar.
       No Sinédrio, diante do tribunal judeu, no Templo ou na Sinagoga, os Apóstolos garantem que Jesus vive e só a Ele deverão obedecer, ainda que respeitem as autoridades dos judeus, dos gregos ou do romanos, por quem rezem.
       O Querigma, o primeiro anúncio, está bem sintetizado nas Palavras de Pedro e dos Apóstolos, como se pode ver na primeira leitura:
O comandante do templo e os guardas trouxeram os Apóstolos e fizeram-nos comparecer diante do Sinédrio. O sumo sacerdote interpelou-os, dizendo: «Já vos proibimos formalmente de ensinar em nome de Jesus; e vós encheis Jerusalém com a vossa doutrina e quereis fazer recair sobre nós o sangue desse homem». Pedro e os Apóstolos responderam: «Deve obedecer-se antes a Deus que aos homens. O Deus dos nossos pais ressuscitou Jesus, a quem vós destes a morte, suspendendo-O no madeiro. Deus exaltou-O pelo seu poder, como Chefe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e o perdão dos pecados. E nós somos testemunhas destes factos, nós e o Espírito Santo que Deus tem concedido àqueles que Lhe obedecem». Exasperados com esta resposta, decidiram dar-lhes a morte (Atos 5, 27-33).
       O Evangelho continua a trazer-nos o diálogo de Jesus com Nicodemos. A noite do encontro vai dando lugar à luz da fé, do esclarecimento, do testemunho.
       Disse Jesus a Nicodemos: «Aquele que vem do alto está acima de todos; quem é da terra, à terra pertence e da terra fala. Aquele que vem do Céu dá testemunho do que viu e ouviu; mas ninguém recebe o seu testemunho. Quem recebe o seu testemunho confirma que Deus é verdadeiro. De facto, Aquele que Deus enviou diz palavras de Deus, porque Deus dá o Espírito sem medida. O Pai ama o Filho e entregou tudo nas suas mãos. Quem acredita no Filho tem a vida eterna. Quem se recusa a acreditar no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele» (Jo 3, 31-36).
       Ouvíamos ontem no Evangelho Jesus dizer-nos claramente: "Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele". Hoje acentua-se a Mensagem de Jesus: Deus ama-nos, com amor eterno, criou-nos por amor, por amor nos dá o Seu Filho, Jesus Cristo, enviado ao mundo para que a humanidade seja salvo por Seu intermédio. A salvação é dom de Deus. Ele oferece-a de bom grado, gratuitamente. Aliás, dá-nos o melhor de Si mesmo, o Seu Filho Unigénito, que permanece no mundo através do Espírito Santo.
       Cabe-nos acreditar em Jesus, acolher a Sua mensagem de amor e de perdão, viver na/da Sua vida.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

...para que o mundo seja salvo por Ele

       Disse Jesus a Nicodemos: «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. Quem acredita n’Ele não é condenado, mas quem não acredita já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus. E a causa da condenação é esta: a luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque eram más as suas obras. Todo aquele que pratica más acções odeia a luz e não se aproxima dela, para que as suas obras não sejam denunciadas. Mas quem pratica a verdade aproxima-se da luz, para que as suas obras sejam manifestas, pois são feitas em Deus» (Jo 3, 16-21).
       Em tempo pascal, Jesus explica a Nicodemos a Encarnação, a entrega do Filho do Homem à humanidade: o amor infinito e pleno ao ser humano, a toda a pessoa. Diz-nos claramente que vem para salvar-nos. E, se nos deixarmos iluminar pela Sua luz, entramos no reino de eternidade.
       Nicodemos era um dos chefes dos fariseus, sensível para escutar a Palavra vinda de Jesus. Jesus acentua a bondade de Deus para com a Humanidade. Deus criou-nos por amor e não desiste de nós, quer a nossa salvação.
       A vinda de Jesus ao mundo tem como fito principal a salvação da humanidade. Quem n'Ele acredita tem a vida eterna. Quem O recusa, e à Sua Palavra, exclui-se da salvação. Destarte, a condenação não é uma acção positiva de Deus, mas uma acção dependente da vontade e da liberdade da pessoa, que Deus respeita, mesmo que fira o Seu amor de Pai.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Damos testemunho do que vimos...

       A Ressurreição é um desafio e um compromisso dos seguidores de Jesus Cristo em mostrá-l'O vivo nas palavras e nos gestos, na organização das comunidades crentes. Jesus coloca-se no MEIO deles e eles perdem o medo, pois Ele sempre estará.
       Na primeira leitura, que atravessa este tempo de Páscoa, do livro dos Atos dos Apóstolos, vamos acolhendo a chama com que os discípulos dão a conhecer o Evangelho de Jesus Cristo, morto e ressuscitado, suscitando entusiasmo mas também ódios e perseguição. O texto de hoje caracteriza a a comunidade, a forma como procurou encarnar o Evangelho:

A multidão dos haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma; ninguém considerava seu o que lhe lhe pertencia, mas tudo entre eles era comum. Os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus com grande poder e gozavam todos de muita simpatia. Não havia entre eles qualquer necessitado, porque todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas e traziam o produto das vendas, que depunham aos pés dos Apóstolos, e distribuía-se então a cada um conforme a sua necessidade. José, um levita natural de Chipre, a quem os Apóstolos chamaram Barnabé – que quer dizer «Filho da Consolação» – possuía um campo. Vendeu-o e trouxe o dinheiro, que depositou aos pés dos Apóstolos (Atos 4, 32-37)
No Evangelho, Jesus continua em diálogo com Nicodemos:
Disse Jesus a Nicodemos: «Não te admires por Eu te haver dito que todos devem nascer de novo. O vento sopra onde quer: ouves a sua voz, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito». Nicodemos perguntou: «Como pode ser isso?» Jesus respondeu-lhe: «Tu és mestre em Israel e não sabes estas coisas? Em verdade, em verdade te digo: Nós falamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos, mas vós não aceitais o nosso testemunho. Se vos disse coisas da terra e não acreditais, como haveis de acreditar, se vos disser coisas do Céu? Ninguém subiu ao Céu, senão Aquele que desceu do Céu: o Filho do homem. Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do homem será elevado, para que todo aquele que acredita tenha n’Ele a vida eterna» (Jo 3, 7b-15).
       São João coloca-nos junto de Jesus e de Nicodemos, doutor da Lei. Jesus diz claramente a Nicodemos que tem de nascer de novo, uma nova vida, que não virá apenas da conversão, mas também da redenção operado por Jesus Cristo. Por outro lado, Jesus coloca a transcendência de Deus em destaque, não O podemos encerrar na nossas concepções muito nossas. A força do Espírito manifesta-se onde quer, é como o vento que não sabemos de onde vem ou para onde vai.
       Por outro lado ainda, Jesus anuncia a elevação do Filho do homem, para que todos O vejam e acreditando tenham a vida eterna. A elevação do filho enquadra a crucifixão de Jesus, a Sua morte redentora, mas também o NOME que é colocado acima de todos os todos e ao qual todos os joelhos se deve dobrar, não como penitência, mas para que a contemplação de Deus os leve ao serviço dos irmãos.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Solenidade da Anunciação do Senhor

Nota histórica:
       Deus que no decorrer dos séculos, tinha encarregado os profetas de transmitir aos homens a Sua palavra, ao chegar a plenitude dos tempos, determina enviar-lhes o Seu próprio Filho, o Seu Verbo, a Palavra feita Carne.
       Contudo, o Pai das misericórdias quis que a Incarnação fosse precedida da aceitação por parte daquela que Ele predestinara para Mãe, para que, assim como uma mulher contribuiu para a morte, também outra mulher contribuísse para a vida» (Lumen gentium, 56).
       No momento da Anunciação, através do Anjo Gabriel, Deus expõe portanto, a Maria os Seus desígnios. E Maria, livre, consciente e generosamente, aceita a vontade do Senhor a seu respeito, realizando-se assim o mistério da Incarnação do Verbo. Nesse momento, com efeito, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade começa a Sua existência humana. O filho de Deus faz Se Filho do Homem. O Deus Altíssimo torna-Se o «Deus connosco».
       Ao celebrar este mistério, precisamente nove meses antes do Natal, a Solenidade da Anunciação orienta-nos já para o Nascimento de Cristo. No entanto, a Incarnação está intimamente unida à Redenção. Por isso, as Leituras (especialmente a segunda) introduzem-nos já no Mistério da Páscoa.
       Essencialmente festa do Senhor, a Anunciação não pode deixar de ser, ao mesmo tempo, uma festa perfeitamente mariana. Na verdade, foi pelo sim de Maria que a Incarnação se realizou, a nova Aliança se estabeleceu e a Redenção do mundo pecador ficou assegurada.
 
      O Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José, da descendência de David. O nome da Virgem era Maria. Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?» O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril; porque a Deus nada é impossível». Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 26-38).

sábado, 7 de abril de 2018

Domingo da Divina Misericórdia - ano B - 8.abril.2018

Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho

       Continuamos em DIA de PÁSCOA, uma semana como se fora um só DIA, tal é o mistério e a grandeza do AMOR de Deus para com a humanidade que Se revela em plenitude em Jesus Cristo, na extensão de toda a Sua vida e mensagem, mas mais expressivamente na Morte, Paixão redentora e Ressurreição. Com efeito, a Ressurreição é surpreendente. A morte do Mestre já fora uma surpresa, ninguém esperava que o Messias prometido e esperado, e que viria para trazer o esplendor a Israel, acabasse pregado numa cruz como malfeitor. Surpresa maior, Aquele que foi morto afinal vive e está no meio de nós. Três dias depois, Ele aparece ressuscitado, dando prosseguimento ao Seu projeto de amor e salvação:
Jesus ressuscitou na manhã do primeiro dia da semana e apareceu em primeiro lugar a Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete demónios. Ela foi anunciar aos que tinham andado com Ele e estavam mergulhados em tristeza e pranto. Eles, porém, ouvindo dizer que Jesus estava vivo e fora visto por ela, não acreditaram. Depois disto, manifestou-Se com aspecto diferente a dois deles que iam a caminho do campo. E eles correram a anunciar aos outros, mas também não lhes deram crédito. Mais tarde apareceu aos Onze, quando eles estavam sentados à mesa, e censurou-os pela sua incredulidade e dureza de coração, porque não acreditaram naqueles que O tinham visto ressuscitado. E disse-lhes: «Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda a criatura» (Mc 16, 9-15).
       A ressurreição e o encontro com o Ressuscitado há de dar lugar ao testemunho e à missão (a missão parte do testemunho): ide por todo o mundo e anunciai a todos os Evangelho. A Diocese de Lamego continua a acentuar esta dimensão missionária, ainda que com os olhos colocados na família: IDE E CONSTRUÍ COM MAIS AMOR A FAMÍLIA DE DEUS. Os Apóstolos fazem a experiência de encontro com Jesus Cristo e não mais deixarão de dar testemunho acerca d'Ele, mesmo colocando em perigo a próprio vida e sofrendo todo o tipo de ataques e perseguições:
Os chefes do povo, os anciãos e os escribas, vendo a firmeza de Pedro e de João e verificando que eram homens iletrados e plebeus, ficaram surpreendidos. Reconheciam-nos como companheiros de Jesus, mas, como viam diante deles o homem que fora curado, nada podiam replicar. Mandaram-nos então sair do Sinédrio e começaram a deliberar entre si: «Que havemos de fazer a estes homens? Que se realizou por meio deles um milagre, sabem-no todos os habitantes de Jerusalém e não podemos negá-lo. Mas para que isto não continue a divulgar-se entre o povo, vamos intimá-los com ameaças que não falem desse nome a ninguém. Chamaram-nos então e proibiram-nos terminantemente falar ou ensinar em nome de Jesus. Mas Pedro e João responderam: «Se é justo aos olhos de Deus obedecer-vos antes a vós que a Ele, julgai-o vós próprios. Nós é que não podemos calar o que vimos e ouvimos». Depois de novas ameaças, puseram-nos em liberdade, pois não encontravam modo de os castigar, por causa do povo, uma vez que todos davam glória a Deus pelo que tinha acontecido (Atos 4, 13-21).

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Tendes alguma coisa para comer?

        Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, e Natanael, que era de Caná da Galileia. Também estavam presentes os filhos de Zebedeu e mais dois discípulos de Jesus. Disse-lhes Simão Pedro: «Vou pescar». Eles responderam-lhe: «Nós vamos contigo». Saíram de casa e subiram para o barco, mas naquela noite não apanharam nada. Ao romper da manhã, Jesus apresentou-Se na margem, mas os discípulos não sabiam que era Ele. Disse-lhes então Jesus: «Rapazes, tendes alguma coisa para comer?» Eles responderam: «Não». Disse-lhes Jesus: «Lançai a rede para a direita do barco e encontrareis». Eles lançaram a rede e já mal a podiam arrastar por causa da abundância de peixes. Então o discípulo predilecto de Jesus disse a Pedro: «É o Senhor»...
        Disse-lhes Jesus: «Vinde comer». Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar: «Quem és Tu?» bem sabiam que era o Senhor. Então Jesus aproximou-Se, tomou o pão e deu-lho, fazendo o mesmo com o peixe. Foi esta a terceira vez que Jesus Se manifestou aos discípulos, depois de ter ressuscitado dos mortos (Jo 21, 1-14).
       Oito dias de Páscoa, como se de um só dia se tratasse, para sublinhar a importância primordial da Ressurreição de Jesus Cristo, como acontece também por ocasião do Natal. Em cada dia desta Semana, celebramos o primeiro dia - eis o DIA que o Senhor fez, exultemos e cantemos de alegria -, o grande DIA em que se inicia um tempo novo, de graça e salvação.
       Com o primeiro dia, vêm as aparições de Jesus aos seus, para renovar neles a esperança, para confirmar neles a missão de serem Apóstolos para a humanidade, Apóstolos da salvação, da ressurreição.
       Esta, segundo São João, é a terceira aparição.
       Jesus aparece-lhe no local de trabalho. Já por si é um dado importante. Jesus vem ao nosso encontro, não apenas nos momentos de oração e de reunião, mas também no hoje da nossa existência, no meio das nossas preocupações e trajetos. Podemos encontrar Deus em qualquer parte, em todos os momentos.
       Jesus dá-Se a conhecer no lugar onde tinha chamado alguns dos discípulos, relembrando que doravante serão pescadores de homens. É outro dado importante.
       Manifesta-Se na pesca abundante mas uma vez mais também na refeição, que poderá apontar para a abundância da outra refeição - a Eucaristia, como alimento espiritual até à vida eterna, saciando-nos com o Pão descido do Céu, que é o próprio Jesus.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

... a Paz esteja convosco!

        Os discípulos de Emaús contaram o que tinha acontecido no caminho e como tinham reconhecido Jesus ao partir do pão. Enquanto diziam isto, Jesus apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Espantados e cheios de medo, julgavam ver um espírito. Disse-lhes Jesus: «Porque estais perturbados e porque se levantam esses pensamentos nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo; tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. E como eles, na sua alegria e admiração, não queriam ainda acreditar, perguntou-lhes: «Tendes aí alguma coisa para comer?» Deram-Lhe uma posta de peixe assado, que Ele tomou e começou a comer diante deles. Depois disse-lhes: «Foram estas as palavras que vos dirigi, quando ainda estava convosco: ‘Tem de se cumprir tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos’» (Lc 24, 35-48).
        O Evangelho de hoje continua a narração de ontem. Jesus aparece aos discípulos de Emaús, e estes, depois de O reconhecerem no partir do pão, vão a correr relatar o que lhes sucedeu e como o Mestre os encontrou.
       Estão reunidos, com alegria, a contarem uns aos outros os momentos em que Jesus apareceu às mulheres, como os discípulos que foram ao sepulcro e o encontraram vazio, a aparição em Emaús, e eis que Jesus Se coloca no meio deles e lhes diz: "A paz esteja convosco".
       Entra aqui mais um elemento novo. Jesus não é um espírito a vaguear pelo mundo ou um fantasma. Por um lado, a realidade temporal foi ultrapassada pela ressurreição, por outro, a identidade corpórea é evidente. O Crucificado é o Ressuscitado. Jesus relembra a mensagem anterior à Paixão. Manifesta-Se num corpo glorioso mas a Sua aparição é mais do que um susto, um fantasma, uma ilusão, é o próprio Cristo com a Sua identidade humana e divina e daí que no poder de Deus que Se manifesta Ele poder comer e ser "tacteado", apesar da Sua presença gloriosa.
       No tempo em que vivemos, por vezes, queremos explicar e encerrar Deus nas nossas concepções racionais e empíricas. Mas Deus, enquanto Deus, não pode ser limitado nem prisioneiro dos nossos conceitos. A palavra de Deus convida-nos a abrir-nos à esperança e ao futuro, a deixarmo-nos surpreender por Deus, como aconteceu com os discípulos daquele tempo.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Paróquia de Pinheiros | Páscoa 2018

       A Páscoa faz os cristãos, faz a Igreja. Porque Jesus ressuscitou, tornamo-nos cristãos, inseridos no Seu Corpo que é a Igreja. A Páscoa existe por nossa causa, Cristo entrega-Se para nos salvar e com a Sua ressurreição agrega-nos à vida divina. É o que celebramos nos sacramentos, especialmente da Eucaristia, na qual a Páscoa acontece, Jesus está realmente presente.
       As comunidades solenizam com devoção e alegria estes dias de festa. Também a Paróquia de Santa Eufémia de Pinheiros.
       Neste videoporama, dois dias solenes: Domingo de Ramos na Paixão do Senhor, 25 de março de 2018, e Segunda-feira de Páscoa, com a Visita Pascal, 2 de abril de 2018.
       A música do fundo é da Banda Jota - "Porque o amor está no ar".

Não ardia cá dentro o nosso coração...

       ... «Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite». Jesus entrou e ficou com eles. E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O. Mas Ele desapareceu da sua presença. Disseram então um para o outro: «Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, que diziam: «Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão». E eles contaram o que tinha acontecido no caminho e como O tinham reconhecido ao partir o pão (Lc 24, 13-35).
       É-nos hoje apresentado o relato da aparição de Jesus aos discípulos de Emaús.
       Salientam-se diversos momentos e sentimentos. Os discípulos caminham em direcção a casa desiludidos e tristes com os acontecimentos desses dias. No meio deles surge Jesus que os interroga sobre a discussão que vinham a ter e sobre o motivo da sua tristeza. Eles revelam o que aconteceu com o Mestre, Jesus. Então, por sua vez, Jesus faz-lhe ver que não foi o fim do mundo mas o início de um tempo novo. Com efeito, a Sagrada Escritura já anunciara o que haveria de acontecer com o Messias, o que sucedeu confirmou as diversas profecias.
       Chegados perto de casa, convidam Jesus a ficar com eles, sem saberem que era Ele. Por aqui se vê, que há uma diferença entre o Jesus terreno e o Jesus glorificado. Embora seja o mesmo Cristo Jesus, a Sua aparência coloca-O na "vastidão" de Deus, de onde Se manifesta a todo o mundo.
       Mas se pela aparência não O reconhecem, reconhecem-n'O nas palavras e sobretudo nos gestos, no partir o pão como memorial da Sua presença, antecipado para os Apóstolos na Quinta-feira santa. Reconhecem-n'O nos seus corações, ainda que necessitados de serem iluminados.
       Reconhecido o Mestre, o medo desaparece e no seu lugar a alegria que se partilhada. Antes convidaram o "Desconhecido" a pernoitar com eles, por ser noite. Agora, mesmo de noite, voltam a Jerusalém para contarem como Jesus lhes apareceu pelo caminho e como se manifestou ao partir do pão.

Paróquia de Tabuaço | Semana Santa 2018

       Videoporama com fotos da Semana Santa, 25 de março a 1 de abril de 2018, na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Tabuaço.
       A comunidade cristã-católica parte (sempre) do mistério pascal, da paixão redentora de Jesus Cristo, que entrega a Sua vida, inteira, ao Pai, por nós e com Ele nos oferece, elevando-nos com Ele, pela Ressurreição, para a vida divina. É esse mistério que neste dias celebramos de forma ainda mais festiva, mais solene.
       A acompanhar o conjunto das fotos, a belíssima música de Claudine Pinheiro, com dois temas retirados do Álbum "Até quando?": Quero ser como Tu (letra e música do Pe. Leonel Claro) e Porque te ris? (letra e música de Claudine Pinheiro)

terça-feira, 3 de abril de 2018

Mulher, porque choras? A quem procuras?

       Liturgicamente celebramos a Páscoa durante 8 dias como se de UM só e grande DIA se trate. A Páscoa não é o fim de um ciclo, é início de vida nova. Também hoje, em terça feira da Páscoa, celebramos a vida nova da ressurreição que acontece em Cristo Jesus e em nós acontecerá... melhor, em nós deverá acontecer constantemente, num exercício de passarmos da quaresma das nossas vidas, da morte, para a Páscoa, para as páscoas que nos ligam aos outros e a Deus.
       No evangelho hoje proposto, de São João, vemos como Maria Madalena, junto ao sepulcro de Jesus, é por Ele surpreendido. A experiência de encontro com o Ressuscitado há de levar-nos ao anúncio da boa nova, à proclamação da ressurreição, ao testemunho. Maria Madalena vai jubilosa comunicar o viu e e ouviu.
Maria Madalena estava a chorar junto do sepulcro. Enquanto chorava, debruçou-se para dentro do sepulcro e viu dois Anjos vestidos de branco, sentados, um à cabeceira e outro aos pés, onde estivera deitado o corpo de Jesus. Os Anjos perguntaram a Maria: «Mulher, porque choras?» Ela respondeu- lhes: «Porque levaram o meu Senhor e não sei onde O puseram». Dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus de pé, sem saber que era Ele. Disse-lhe Jesus: «Mulher, porque choras? A quem procuras?» Pensando que era o jardineiro, ela respondeu-Lhe: «Senhor, se foste tu que O levaste, diz-me onde O puseste, para eu O ir buscar». Disse-lhe Jesus: «Maria!» Ela voltou-se e respondeu em hebraico: «Rabuni!», que quer dizer: «Mestre!» Jesus disse-lhe: «Não Me detenhas, porque ainda não subi para o Pai. Vai ter com os meus irmãos e diz-lhes que vou subir para o meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus». Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: «Vi o Senhor». E contou-lhes o que Ele lhe tinha dito (Jo 20, 11-18).
       O mesmo sucede com Pedro e os demais apóstolos. Fazem a experiência de encontro com o Ressuscitado, e tornam-se, agora sim, verdadeiros apóstolos, anunciadores da BOA NOTÍCIA, levando outros à conversão, ao batismo:
No dia de Pentecostes, disse Pedro aos judeus: «Saiba com absoluta certeza toda a casa de Israel que Deus fez Senhor e Messias esse Jesus que vós crucificastes». Ouvindo isto, sentiram todos o coração trespassado e perguntaram a Pedro e aos outros Apóstolos: «Que havemos de fazer, irmãos?» Pedro respondeu-lhes: «Convertei-vos e peça cada um de vós o Baptismo em nome de Jesus Cristo, para vos serem perdoados os pecados. Recebereis então o dom do Espírito Santo, porque a promessa desse dom é para vós, para os vossos filhos e para quantos, de longe, ouvirem o apelo do Senhor nosso Deus». E com muitas outras palavras os persuadia e exortava, dizendo: «Salvai-vos desta geração perversa». Os que aceitaram as palavras de Pedro receberam o Baptismo e naquele dia juntaram-se aos discípulos cerca de três mil pessoas (Actos 2, 36-41).

quinta-feira, 29 de março de 2018

Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura

       O espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu e me enviou a anunciar a boa nova aos infelizes, a curar os corações atribulados, a proclamar a redenção aos cativos e a liberdade aos prisioneiros, a proclamar o ano da graça do Senhor e o dia da acção justiceira do nosso Deus; a consolar todos os aflitos, a levar aos aflitos de Sião uma coroa em vez de cinza, o óleo da alegria em vez do trajo de luto, cânticos de louvor em vez de um espírito abatido. Vós sereis chamados «Sacerdotes do Senhor» e tereis o nome de «Ministros do nosso Deus» (Is 61, 1-3a.6a.8b-9).

       Entregaram-Lhe o livro do profeta Isaías e, ao abrir o livro, encontrou a passagem em que estava escrito: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos, a proclamar o ano da graça do Senhor». Depois enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-Se. Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga. Começou então a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir» ( Lc 4, 16-21).
       O profeta Isaías anuncia a unção para a missão. Com o Ungido, o anúncio da salvação, o ano da graça, a liberdade aos prisioneiros, a cura dos corações atribulados, a redenção dos cativos, a consolação dos filhos de Israel.
       Jesus vai a Nazaré, entra na Sinagoga, como habitualmente fazia ao Sábado, entregam-Lhe o livro de Isaías e proclama a passagem que hoje nos é também apresentada na primeira leitura. Terminada a leitura, chega o momento da reflexão, de meditar sobre a palavra proferida e Jesus sem mais delongas declara que o tempo anunciado pelo profeta chegou: Cumpriu-se hoje mesmo este passo da Escritura.
       Em Quinta-feira Santa, a Liturgia inicia-se com a Missa Crismal, com o presbitério reunido à volta do Seu Bispo, sucessor dos Apóstolos, em que são benzidos os Óleos santos, a usar nos diversos Sacramentos, do Baptismo, da Unção dos Enfermos, do Crisma, da Ordenação: Óleo dos Catecúmenos, Óleo dos Enfermos, Óleo do Crisma....

quarta-feira, 28 de março de 2018

Que estais dispostos a dar-me para vos entregar Jesus?

       A liturgia da Palavra para esta quarta-feira da SEMANA MAIOR apresenta-nos mais um texto do profeta Isaías, na primeira leitura, e do Evangelho de São Mateus. Um e outro nos falam da entrega do justo. Os cristãos, como o próprio Jesus, veem nesta passagem profética um relato antecipado do que irá acontecer com o Messias, que para nós é Jesus Cristo. No evangelho de São Mateus, a figura em discussão é Judas, que procura forma de entregar Jesus.
Vejamos o texto de Isaías:
O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido. O meu advogado está perto de mim. Pretende alguém instaurar-me um processo? Compareçamos juntos. Quem é o meu adversário? Que se apresente! O Senhor Deus vem em meu auxílio. Quem ousará condenar-me? (Is 50, 4-9a).
       Isaías não esconde as dificuldades que tem de atravessar para se manter fiel à verdade, mas na certeza e confiança que Deus permanece com ele. E se Deus está por ele, quem poderá estar contra?
       A confiança que anima Isaías, será a mesma que guia Jesus até às últimas horas de vida.
Um dos Doze, chamado Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes e disse-lhes: «Que estais dispostos a dar-me para vos entregar Jesus?» Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata. A partir de então, Judas procurava uma oportunidade para O entregar. No primeiro dia dos Ázimos, os discípulos foram ter com Jesus e perguntaram-Lhe: «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?» Ele respondeu: «Ide à cidade, a casa de tal pessoa, e dizei-lhe: ‘O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo. É em tua casa que Eu quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos’». Os discípulos fizeram como Jesus lhes tinha mandado e prepararam a Páscoa. Ao cair da tarde, sentou-Se à mesa com os Doze. Enquanto comiam, declarou: «Em verdade, em verdade vos digo: Um de vós Me entregará». Profundamente entristecidos, começou cada um a perguntar Lhe: «Serei eu, Senhor?» Jesus respondeu: «Aquele que meteu comigo a mão no prato é que vai entregar-Me. O Filho do homem vai partir, como está escrito acerca d’Ele. Mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser entregue! Melhor seria para esse homem não ter nascido». Judas, que O ia entregar, tomou a palavra e perguntou: «Serei eu, Mestre?» Respondeu Jesus: «Tu o disseste» (Mt 26, 14-25).
       Mateus mostra, como nos demais evangelhos, a tristeza profunda de Jesus, pela aproximação das horas finais, mas também por saber que não pode contar com os seus. A primeira igreja, dos apóstolos e algumas mulheres, ficarão a dormir enquanto o Mestre reza.

terça-feira, 27 de março de 2018

Em verdade vos digo: um de vós Me entregará

       O Evangelho desta terça-feira da SEMANA MAIOR da nossa fé, fixa-nos nas últimas horas de Jesus. À mesa com os seus discípulos, Jesus deixa transparecer o que Lhe vai na alma. Já não falta muito, a perturbação é evidente. A consciência de que os seus próprios discípulos, os seus amigos, não terão força para O acompanharem, mais o deixa intranquilo, nem Judas, nem Pedro, nem os seus mais íntimos...
Estando Jesus à mesa com os discípulos, sentiu-Se intimamente perturbado e declarou: «Em verdade, em verdade vos digo: Um de vós Me entregará». Os discípulos olhavam uns para os outros, sem saberem de quem falava. Um dos discípulos, o predilecto de Jesus, estava à mesa, mesmo a seu lado. Simão Pedro fez-lhe sinal e disse: «Pergunta-Lhe a quem Se refere». Ele inclinou-Se sobre o peito de Jesus e perguntou Lhe: «Quem é, Senhor?» Jesus respondeu: «É aquele a quem vou dar este bocado de pão molhado». E, molhando o pão, deu-o a Judas Iscariotes, filho de Simão. Naquele momento, depois de engolir o pão, Satanás entrou nele. Disse- lhe Jesus: «O que tens a fazer, fá-lo depressa». Mas nenhum dos que estavam à mesa compreendeu porque lhe disse tal coisa. Como Judas era quem tinha a bolsa comum, alguns pensavam que Jesus lhe tinha dito: «Vai comprar o que precisamos para a festa»; ou então, que desse alguma esmola aos pobres. Judas recebeu o bocado de pão e saiu imediatamente. Era noite. Depois de ele sair, Jesus disse: «Agora foi glorificado o Filho do homem e Deus foi glorificado n’Ele. Se Deus foi glorificado n’Ele, também Deus O glorificará em Si mesmo e glorificá l’O-á sem demora. Meus filhos, é por pouco tempo que ainda estou convosco. Haveis de procurar-Me e, assim como disse aos judeus, também agora vos digo: não podeis ir para onde Eu vou». Perguntou-Lhe Simão Pedro: «Para onde vais, Senhor?». Jesus respondeu: «Para onde Eu vou, não podes tu seguir-Me por agora; seguir-Me-ás depois». Disse-Lhe Pedro: «Senhor, por que motivo não posso seguir-Te agora? Eu darei a vida por Ti». Disse-Lhe Jesus: «Darás a vida por Mim? Em verdade, em verdade te digo: Não cantará o galo, sem que Me tenhas negado três vezes» (Jo 13, 21-33.36-38).
       Mesmo no evangelho de são João, que centra em Judas todas as reações negativas, vê-se que Judas é um homem respeitável. Diga-se que nos outros evangelhos há intervenções que são atribuídas a todos os discípulos, como por exemplo a contestação acerca do desperdício do perfume de alto preço com que Maria (uma mulher) da Betânia unge os pés de Jesus, atribuída aos discípulos e no quarto evangelho a Judas. Já que foi o traidor, não há como colocar nele todas as intervenções negativas, gestos, palavras e intenções. Mas vê-se que aquilo que parece claro, não o é tanto assim. Nenhum dos discípulos desconfia de Judas, é um homem de confiança. Todos confiam nele. Jesus confia nele. Os discípulos não estranham a proximidade a Jesus, pois ele deveria ser dos mais íntimos. Se os discípulos suspeitassem de algo, não o deixariam sair com aquela facilidade. Nem pensar. Pedro de imediato impediria que isso acontecesse, pese embora a sua titubeância, mas entre os companheiros o seu ânimo é maior.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Seis dias antes da Páscoa, Jesus em Betânia

       "Eis o meu servo, a quem Eu protejo, o meu eleito, enlevo da minha alma. Sobre ele fiz repousar o meu espírito, para que leve a justiça às nações. Não gritará, nem levantará a voz, nem se fará ouvir nas praças; não quebrará a cana fendida, nem apagará a torcida que ainda fumega: mas proclamará fielmente a justiça. Não desfalecerá nem desistirá, enquanto não estabelecer a justiça na terra, a doutrina que as ilhas longínquas esperam" (Is 42, 1-7).
       Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde vivia Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos. Ofereceram-Lhe lá um jantar: Marta andava a servir e Lázaro era um dos que estavam à mesa com Jesus. Então Maria tomou uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-Lhos com os cabelos; e a casa encheu-se com o perfume do bálsamo... (Jo 12, 1-11).

       Iniciámos a Semana Santa, com o Domingo de Ramos e com a Entrada Triunfal de Jesus em Jerusalém. Nesta segunda-feira as leituras ajudam-nos a reflectir o mistério pascal de Jesus, nosso Salvador. Isaías fala-nos do Servor sofredor, que identificamos com Jesus, o Messias esperado/prometido. É como o Cordeiro inocente, sem mancha, levado ao matadouro, não gritará, não levantará a voz. N'Ele está o espírito de Deus.
       No Evangelho, encontrámos Jesus em Betânia, em casa de Maria, Marta e Lázaro. Maria unge Jesus, como antecipação da unção pós-morte. Nas palavras do próprio Jesus, vemos que Maria tinha preparado aquele perfume para o dia da Sua sepultura... Encaminhamo-nos rapidamente para o desenlace final...

sábado, 24 de março de 2018

Domingo de Ramos na Paixão do Senhor - 2018

É melhor para nós morrer um só homem pelo povo

       Os sinais são por de mais evidentes. Jesus provoca uma onda crescente de adesão e uma onda crescente de contestação e oposição. Os milagres que realiza não abonam em Seu favor diante daqueles que se Lhe opõem, pelo contrário, os milagres e a adesão da multidão são vistos que ameaça à tradição, aos poderes instalados e à própria religião do Templo.
       A ressurreição de Lázaro, que não deixa dúvidas quanto ao poder de Jesus, parece ser a gota de água. É um sinal da ressurreição futura de Jesus, mas para os opositores é altura para o silenciar, não vá provocar mais estragos entre as fileiras do povo.
Muitos judeus que tinham vindo visitar Maria, para lhe apresentarem condolências pela morte de Lázaro, ao verem o que Jesus fizera, ressuscitando-o dos mortos, acreditaram n’Ele. Alguns deles, porém, foram ter com os fariseus e contaram-lhes o que Jesus tinha feito. Então os príncipes dos sacerdotes e os fariseus reuniram conselho e disseram: «Que havemos de fazer, uma vez que este homem realiza tantos milagres? Se O deixamos continuar assim, todos acreditarão n’Ele; e virão os romanos destruir-nos o nosso Lugar santo e toda a nação». Então Caifás, que era sumo sacerdote naquele ano, disse-lhes: «Vós não sabeis nada. Não compreendeis que é melhor para nós morrer um só homem pelo povo do que perecer a nação inteira?» Não disse isto por si próprio; mas, porque era sumo sacerdote nesse ano, profetizou que Jesus havia de morrer pela nação; e não só pela nação, mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus que andavam dispersos. A partir desse dia, decidiram matar Jesus. Por isso Jesus já não andava abertamente entre os judeus, mas retirou-Se para uma região próxima do deserto, para uma cidade chamada Efraim, e aí permaneceu com os discípulos. Entretanto, estava próxima a Páscoa dos judeus e muitos subiram da província a Jerusalém, para se purificarem, antes da Páscoa. Procuravam então Jesus e perguntavam uns aos outros no templo: «Que vos parece? Ele não virá à festa?» (Jo 11, 45-56).
        Caifás tem uma leitura soberba sobre o destino de Jesus: é melhor que morra por todo o povo! E de facto, para nós cristãos, Jesus morre não apenas pelo povo mas por toda a humanidade.  "Não disse isto por si próprio; mas, porque era sumo sacerdote nesse ano, profetizou que Jesus havia de morrer pela nação; e não só pela nação, mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus que andavam dispersos".
       A partir de então congeminaram matar Jesus, procurando uma ocasião propícia. Como se verá Jesus enfrentará com coragem as consequências das suas palavras e dos seus gestos, mas por ora retira-Se com os Seus discípulos para uma cidade próxima. A Sua hora está a chegar, mas ainda não chegou.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Se alguém guardar a minha palavra, não verá a morte

       A liturgia da palavra aproxima-nos do acontecimento fundante da comunidade cristã: a morte e ressurreição de Jesus. Primeiro, a Paixão redentora. O confronto dialogante de Jesus com os fariseus, em particular, e com os judeus, em geral, deixa antever um final pouco feliz. Agudizam-se os incidentes, extremam-se posições. Jesus diz abertamente o que pensa, ao que veio, de onde veio, qual o destino da Sua mensagem e daqueles que aderirem ao reino de Deus, mas também o destino daqueles que continuarem a colocar-se contra a luz da verdade e do bem.
 Disse Jesus aos judeus: «Em verdade, em verdade vos digo: Se alguém guardar a minha palavra, nunca verá a morte». Responderam-Lhe os judeus: «Agora sabemos que tens o demónio. Abraão morreu, os profetas também, mas Tu dizes: ‘Se alguém guardar a minha palavra, nunca sofrerá a morte’. Serás Tu maior do que o nosso pai Abraão, que morreu? E os profetas também morreram. Quem pretendes ser?» Disse-lhes Jesus: «Se Eu Me glorificar a Mim próprio, a minha glória não vale nada. Quem Me glorifica é meu Pai, Aquele de quem dizeis: ‘É o nosso Deus’. Vós não O conheceis, mas Eu conheço-O; e se dissesse que não O conhecia, seria mentiroso como vós. Mas Eu conheço-O e guardo a sua palavra. Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia; ele viu-o e exultou de alegria». Disseram-Lhe então os judeus: «Ainda não tens cinquenta anos e viste Abraão?!» Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: Antes de Abraão existir, ‘Eu sou’». Então agarraram em pedras para apedrejarem Jesus, mas Ele ocultou-Se e saiu do templo (Jo 8, 51-59).
       A garantia: aquele que guardar a palavra de Jesus permanecerá, sempre, ligado a Deus, não morrerá. Aqueles que procuram, antes de tudo, a verdade hão de encontrar Jesus, e em Jesus descobrir a verdade que vem de Deus, pois Ele é enviado de Deus e as obras que realiza são as de Deus.
       A conflitualidade é evidente. Jesus fala abertamente. Há judeus que se sentem desafiados, colocados em causa nas suas seguranças. E quando nos colocam em causa a nossa atitude é de defesa e/ou de contra ataque.

        Na primeira leitura:
       Deus disse ainda a Abraão: «Guardarás a minha aliança, tu e a tua descendência futura de geração em geração» (Gen 17, 3-9).

(Tetragrama divino: Eu Sou Aquele que Sou. YHWH - YAWEH - Javé)

       "Eu sou" - esta expressão, no contexto semita é muito mais abrangente e ao mesmo tempo mais específico. Vejamos. Quando um de nós diz "eu sou...", acrescenta uma característica, sou simpático, sou tímido, sou justo. No mundo da Bíblia, a afirmação, sem mais, refere-se especificamente a Deus, é a Sua identidade. Ele tem o SER em Si mesmo, tem a VIDA em Si mesmo.
       Quando Deus Se apresenta a Moisés, diante da sarça ardente, e este Lhe pergunta pela Sua identidade, Deus diz-lhe: Eu sou aquele que sou (YHWH - YAWEH - Javé). É uma expressão que identifica a divindade.
       Em muitas ocasiões ouviremos Jesus a dizer: "Eu Sou". Quando isso acontece, os judeus sabem que Ele se está a identificar com Deus e isso é motivo de admiração e de revolta por parte dos seus ouvintes, considerando que é blasfémia alguém colocar-se no lugar de Deus. É compreensível, até certo ponto, a atitude dos judeus que O ouvem dizer: "Eu Sou". Se em alguns momentos o "Eu sou" aparecia quase despercebido, aqui aparece claramente. Ao mesmo tempo, esta certeza deve levar a uma tomada de decisão clara: os judeus pegaram em pedras...

quarta-feira, 21 de março de 2018

Eu não vim de Mim próprio; foi Ele que Me enviou

       Dizia Jesus aos judeus que tinham acreditado n’Ele: «Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará». Eles responderam-Lhe: «Nós somos descendentes de Abraão e nunca fomos escravos de ninguém. Como é que Tu dizes: ‘Ficareis livres’?» Respondeu Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: Todo aquele que comete o pecado é escravo. Ora o escravo não fica para sempre em casa ; o filho é que fica para sempre. Mas se o Filho vos libertar, sereis realmente homens livres. Bem sei que sois descendentes de Abraão; mas procurais matar-Me, porque a minha palavra não entra em vós. Eu digo o que vi junto de meu Pai e vós fazeis o que ouvistes ao vosso pai». Eles disseram: «O nosso pai é Abraão». Respondeu-lhes Jesus: «Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão. Mas procurais matar-Me, a Mim que vos disse a verdade que ouvi de Deus. Abraão não procedeu assim. Vós fazeis as obras do vosso pai». Disseram-Lhe eles: «Nós não somos filhos ilegítimos; só temos um pai, que é Deus». Respondeu-lhes Jesus: «Se Deus fosse o vosso Pai, amar-Me-íeis, porque saí de Deus e d’Ele venho. Eu não vim de Mim próprio; foi Ele que Me enviou» (Jo 8, 31-42).
       Jesus diz claramente que a exigência para sermos Seus discípulos, naquele e neste tempo: cumprir a Sua palavra, procurando viver de acordo com o essencial, do perdão à caridade. A palavra de Jesus libertar-nos-á porque nos conduzirá à Verdade que vem de Deus, que está presente em Jesus Cristo.
       Quando os judeus contestam dizendo que só têm um Pai, isto é, Abraão, Jesus diz-lhes de novo que Abraão, os Patriarcas, os Profetas prepararam o tempo messiânico e alegram-se agora pela pela do Messias na terra. Quem é descendente de Abraão, pela fé, então escuta a Palavra de Jesus Cristo.
       A missão de Jesus sustenta-se na intimidade com Deus Pai. Ele vem não em Seu próprio nome, mas em NOME de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. Jesus não age isoladamente. Também os Seus seguidores deverão agir não em próprio nome e solitariamente, mas em intimidade com Deus, permanecendo na Palavra de Deus. Essa será a garantia da vida nova em Cristo Jesus.

terça-feira, 20 de março de 2018

VL – Desafio da normalidade

Vivemos a síndrome de fim-de-semana potenciado pelas facilidades de viagens, cruzeiros, festas, saídas… O trabalho, que nos realiza como pessoas, pelo qual transformamos o mundo, tornando-nos com-criadores, aparece mais como meio para obter o capital necessário para as ofertas lúdicas e não tanto como realização pessoal e comunitária. Daí o elevado número de pessoas ansiosas, desequilibradas emocionalmente. Entram à segunda-feira em modo de martírio porque o tempo não passa. Quinta-feira e o contentamento começa a voltar; e finalmente a sexta-feira: a meio da manhã arruma-se tudo, procurando não abrir dossiers, evitando atender pessoas, procurando que nada possa adiar o fim do dia. Esfregam-se as mãos: vêm aí as festas, o divertimento, os shot's com os amigos… Quando o Domingo vai a meio, quando já não é possível estender o fim-de-semana para segunda-feira, novamente a inquietação, a ansiedade, o mau humor… 

A felicidade não está no fim, mas ao longo da viagem. Se a nossa preocupação é chegar rapidamente ao destino, viajaremos sobre pressão, cansamo-nos, pois nunca mais chegamos, alguém nos atrasa ou nos incomoda ao querer conversar connosco. Mas a viagem pode ser agradável se tivermos os sentidos despertos, com a calma para olhar, para ver quem nos rodeia e para apreciar a paisagem à nossa volta, para ouvir, para cheirar… 

O Desafio da Normalidade é também o título de um livro que me veio parar às mãos acerca de 20 anos, da autoria de José Maria Cabral, um médico a trabalhar no Instituto de Oncologia do Porto e que tem, ele próprio, de enfrentar o cancro, numa época em a medicina tinha menos respostas para esta doença. A sua luta é pela cura, pela qualidade de vida, dentro dos condicionalismos da doença e dos tratamentos a que está sujeito, buscando uma certa normalidade para a sua vida, procurando retomar rotinas, preencher espaços e tempos, abraçar a esposa e os netos, beijá-los, ir sozinho à casa de banho, vestir-se sem ajuda! As visitas ao hospital ou os internamentos reviram qualquer rotina; a experiência de estar em quarentena, com o organismo sem quaisquer defesas e o contacto a fazer-se através de fatos protetores! A convalescença e as recaídas, uma viagem ao Vaticano e o desejo de voltar a casa, ao Porto e à família, a um ambiente acolhedor, numa normalidade que identifica a vida, onde se sabe e se quer pertencer! 

A festa vale como corolário do quotidiano e como dinamizadora da normalidade! Ainda que a vida não seja preto e branco! Jesus salva-nos na normalidade da nossa vida, ainda que com um acontecimento que ultrapassa qualquer normalidade!

VL – Desafio da normalidade - 2

A normalidade vale pela segurança que dá, como chão que nos impulsiona e nos faz caminhar. Quanto maior a raiz da árvore mais ela cresce para as alturas. As crianças e sobretudo os adolescentes e os jovens passam a vida a correr atrás das novidades. Os adultos seguem pelo mesmo caminho! Sempre insatisfeitos com o que têm, sempre a reclamar contra rotinas e normalidades, mas rapidamente se desencantam com as novidades que logo deixam de o ser! 

É compreensível e melhor se for sinal da ambição do ser humano em desejar ser mais, não cabendo em si mesmo. Neste sentido, a abertura para o futuro e para a eternidade. Na verdade o homem ultrapassa infinitamente o homem (Blaise Pascal). Não cabemos no tempo. Somos mais que a história que nos baliza entre o nascimento e a morte! Porém, os ramos que lançamos para o Céu, não nos dispensa de cuidar das raízes, para que nasçam e cresçam as flores e daí os frutos! A viagem não vale pela chegada mas sobretudo pelo percurso realizado! 

Se entrarmos na vida de Jesus, vamos ver como Ele Se entranha na vida quotidiana das pessoas e na normalidade da vida comunitária. Nasce e cresce numa família que passa despercebida, cumprindo com os deveres sociais e com as leis religiosas. Nalguns pedaços do Evangelho vem ao de cima a vida tranquila de Nazaré, tranquila mas não fácil. Jesus faz-Se compreender com facilidade, pois fala a mesma linguagem que nós, do campo e do trabalho, do suor e das lágrimas, da solidariedade e entreajuda, das dificuldades em pagar os impostos e sobreviver, e de não desistir perante as adversidades do tempo, da natureza ou dos preconceitos sociais! 

Os evangelistas referem que Jesus chega a determinada povoação e logo avança para o sábado seguinte. A semana não traz nada de extraordinário, percebendo-se que Jesus vive inserido nas famílias e nas comunidades! É um judeu integrado! É na normalidade que Jesus continua a entrar na nossa vida, na minha e na tua vida! É na normalidade do tempo e da história que Jesus nos salva, nos interpela, nos desafia e nos envia. Por vezes quase não se dá pela Sua presença. Mas, pouco a pouco, percebe-se a Sua delicadeza, a Sua bondade. N'Ele vê-se o poder e sobretudo o amor de Deus. 

Na normalidade da vida, a extraordinária entrega a favor da humanidade! Assim Cristo! Assim os seus seguidores! E da normalidade do tempo litúrgico, entramos no tempo especial que nos conduz ao mistério que ultrapassa todas as normalidades, a Páscoa de Jesus!