terça-feira, 31 de maio de 2016

Deixar que a Alegria de Maria nos visite

       Chegamos ao fim do mês de maio especialmente dedicado a Maria. Um pouco por todo o lado, romarias, procissões, peregrinações, recitação do terço em família, em comunidade, por ruas ou por bairros, a caminhar, de casa em casa. Em todo o mundo (católico)! Os portugueses espalhados pelo mundo não esquecem a Padroeira de Portugal e, em diferentes ocasiões, mas sobretudo em maio, fazem sobressair a sua devoção. O altar do mundo, Fátima, é um centro centrípeto e centrifugo da devoção mariana. Mas há muitos santuários marianos espalhados pelo território nacional. Na nossa Diocese destacam-se os Santuários dos Remédios e da Lapa. Mas existem muitos outros e as zonas pastorais têm em maio as suas peregrinações conjuntas.

       O último dia do mês faz-nos revisitar a Visitação de Nossa Senhora à sua prima Isabel (Lc 1, 39-56), o segundo dos mistérios gozosos ou da alegria. Logo que acolhe a missão de ser a Mãe do Salvador do mundo, tendo sabido que Isabel se encontra grávida, Maria parte para a montanha, para levar a grande alegria de ser Mãe no encontro com outra grande alegria, a de sua prima Isabel que também vai ser Mãe numa altura que já parecia ter ultrapassado o prazo de validade para o ser. São Lucas vinca a pressa com que Maria parte, num claro convite aos discípulos de Jesus e à Igreja, a saírem com pressa para O anunciarem a todo o mundo.

       A fé de Abraão inicia a Antiga Aliança, como sublinha Joseph Ratzinger/Bento XVI, a fé de Maria inicia a nova Aliança. “Maria põe o seu corpo, todo o seu ser à disposição de Deus para abrigar a Sua presença". Com efeito, "na saudação do anjo torna-se claro que a bênção é mais forte que a maldição”.

       Na Visitação, Maria leva a pressa de ajudar, mas sobretudo a Alegria a comunicar. Quando duas mães se encontram não precisam de muitas palavras para se tornarem cúmplices, as suas entranhas falam mais alto e o que nelas está a acontecer faz-se notar a todo o mundo, multiplica a alegria. «Logo que chegou aos meus ouvidos a tua saudação, o menino saltou de alegria no meu seio».

       A resposta de Maria é oração de louvor e de reconhecimento: «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da sua serva».

       Deixemo-nos surpreender por Maria e pela Alegria que traz à nossa vida, que traz à nossa casa.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4365 , de 31 de maio de 2016

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Leituras - Carlos Ros: Teresa de Jesus

CARLOS ROS (2015). Teresa de Jesus. Atualidade da santa de Ávila. Lisboa: Paulus Editora. 192 páginas.
       Completaram-se 500 anos do nascimento de Santa Teresa de Ávila e o autor achou por bem concentrar-se em escrever uma biografia da Santa carmelita, recuperando datas e dados, reabilitando algumas das personagens que a acompanharam na fundação dos carmelitas descalços, ramo feminino e ramo masculino.
       Depois de ter escrito livros sobre companheiros de Santa Teresa que foram relegados para segundo plano, ignorados nas biografias oficiais, Carlos Ros presta agora o reconhecido mérito à Santa de Ávila, também ela muitas vezes injuriada, perseguida, enclausurada, afastada de madre. Contudo, os seus escritos, a fama de santidade, e a reforma que iniciou, ultrapassou fronteiras que os seus delatores não conseguiram apagar, ainda que tivessem atribuído, por exemplo a fundação dos carmelitas descalços (ramo masculino) a um dos seus amigos frades.
        Nasceu dentro da cidadela de Ávila, a 28 de março de 1515, sendo baptizada como Teresa de Ahumada... Lê a vida dos santos, depois livros de cavalaria, torna-se centro de atenções. Aos 17 anos entra nas Agostinhas de Grácia, como interna, onde brotará a vocação, entrando, alguns meses depois na Encarnação de Ávila. A 3 de novembro de 1536, faz a sua profissão religiosa.
       Será atacada de doenças várias: desequilíbrio nervoso, dores atrozes, doença do coração. Nessa altura terá os primeiros momentos de oração e de recolhimento.
       No convento da Encarnação leva uma vida folgada e tranquila, com pouca oração e se exercícios em comum com as outras irmãs. O seu lucatório é espaço onde se encontrava a alta sociedade de Ávila. Vive assim durante 20 anos.
        Um dia fixou-se, no seu lucatório, onde recebia as pessoas, numa imagem de Cristo atado à coluna. Caiu em si, vendo o que Jesus tinha feito pela humanidade e por ela também. Aos 40 anos faz a entrega definitiva a Deus. Aos 45 anos teve as primeiras visões e, um ano depois, funda o primeiro convento reformado, São José de Ávila. A ânsia de reforma espiritual, leva-a a percorrer a Espanha, fundando diversos conventos.
       Dá-se o encontro com o grande místico São João da Cruz e inicia, em novembro de 1568, a reforma entre os homens, com o convento de Duruelo.
       Faleceu no dia 4 de outubro de 1582 e enterrada ao outro dia.
       É considerada um dos maiores génios que a humanidade já produziu, possuía uma viva e arguta inteligência, num estilo vivo e atraente e com um profundo bom senso.
        Foi canonizada em 1622, com o Papa Gregório XV e em 1970, foi proclamada pelo Papa Paulo VI, com Santa Catarina de Sena, Doutora da Igreja, pelo Papa Paulo VI. As duas primeiras mulheres a receberem este título.
       O livro acompanha a santa nas diversas peripécias da vida infantil, juvenil, adulta, na vida familiar e na vida religiosa, e como enveredou por um caminho de reforma do Carmelo. O autor revisita as fundações dos conventos, as dificuldades encontradas, os obstáculos a enfrentar, a fé e confiança em Deus e a alegria com que procurava em tudo viver a vontade de Deus.
"Foi uma mulher apaixonante, que redefiniu os padrões da sua época para se converter no arquétipo de mulher, de mística, de escritora, de tudo. Subiu à sétima morada enquanto se distraía na cozinha, porque também «entre os tachos anda o Senhor". Mulher alegre, que pedia que o Senhor a livrasse de santos encapotados, cheia de ternura, discrição, mãe e santa num corpo enfermiço de vida, exclamou antes de morrer: «Enfim,Senhor, sou filha da Igreja»".

Papa Francisco, a revolução da misericórdia e do amor

WALTER KASPER (2015). Papa Francisco. A revolução da Misericórdia e do Amor. Prior Velho: Paulinas Editora. 136 páginas.
       O Cardeal Walter Kasper já é conhecido como o teólogo do Papa Francisco. Na primeira oração do Angelus, à janela do palácio apostólico, o Papa revelou aos fiéis reunidos na praça de são Pedro que estava a ler um livro, do Cardeal Kasper, sobre a misericórdia e que lhe estava a fazer muito bem. A misericórdia é o tempero das intervenções e gestos do Papa Francisco. E o livro do Cardeal teve um boom de vendas. O Cardeal, bem conhecido nos meios académicos e mais eclesiais passou a ser conhecido e requisitado para entrevistas, comentários, conferências. Na preparação dos Sínodos sobre a família, o Papa solicitou-lhe uma reflexão, com questionamentos, sobre a famílias, os principais problemas e desafios. Abriu o debate, sustentado pelo "relatório" do Cardeal Kasper. Curiosa é a ponte que faz para Bento XVI e sobretudo para o "teólogo" Joseph Ratzinger", aludindo às suas reflexões sobre as problemáticas da famílias.
       Curiosamente, sabendo-se que são dois teólogos de renome, alemães, com algumas "disputas", mormente na relação "Igreja Universal - Igrejas particulares", o Cardeal Kasper, que acentua a revolução extraordinária com o pontificado de Francisco, a meu ver e pelo que li, faz uma rasgado, reconhecido e merecido elogio a Bento XVI. Kasper fala da continuidade do papado, preparado e antecipado por Bento XVI e, como expectável, da rutura, quanto à linguagem, ao método, e ao ambiente que os moldou. Pode ver-se a proximidade e afinidade com Francisco mas vê-se que não há qualquer necessidade de contrapor negativamente o pontificado de Bento XVI ou de João Paulo II. Simplesmente a acentuação é diferente e as realidades originárias também. A preocupação é a mesma: servir a Palavra de Deus, comprometida com a humanidade.
"Uma surpresa, sim, como um raio no céu sereno fora já o anúncio do papa Bento XVI a 11 de fevereiro de 2013... esta renúncia foi um ato de coragem, de grande generosidade e de humildade, que merecia a máxima estima e pareço"
"O Papa Bento XVI, em muitas questões, preparou teologicamente o presente pontificado muito mais que à primeira vista possa parecer".
"O Papa Bento representa, de modo bem delineado, a melhor tradição europeia. Parte da fé, procura torná-la acessível, intelectual e espiritualmente, à compreensão, para depois, de harmonia com a tradicional relação entre teoria e práxis, traduzir e transpor a doutrina da fé para a prática... o Papa Francisco, pelo contrário, é guiado pela teologia querigmática. Aqui ele não é, porventura, um franciscano mascarado; é de cima a baixo um jesuíta... não parte da doutrina, mas da situação concreta; não quer, decerto, ajudar-se simplesmente a ela, mas tenta antes, como previsto no livro dos Exercícios de Inácio, julgar segundo as regras do discernimento dos espíritos..."
"Apesar de todas as diferenças de origem e de personalidade, para Francisco, Paulo VI é o Papa do qual, entre os seus predecessores, ele se sente mais próximo. O seu estilo dialógico comunicativo manifesta-se na Encíclica Ecclesiam Suam (1964). Nas suas posições ético-socais, ele alude, várias vezes, à importante encíclica social do Papa Paulo VI, Populorum Progressio, de 1967, e à sua Carta Apostólica Octasegima adveniens, de 1971".
"O Papa Francisco move-se no seio da grande tradição. Na história da Igreja, o Evangelho esteve na origem de muitos movimentos de renovação, desde o monaquismo antigo aos movimentos de reforma da Idade Média. O mais conhecido é o movimento evangélico de São Francisco de Assis e São Domingo de Gusmão. Francisco, juntamente com os seus irmãos, quis apenas viver o Eavngelho sine glosa, sem nada lhe roubar ou acrescentar"
"O papa Francisco insere-se numa tradição que remonta aos inícios, em especial dos seus predecessores imediatos... O retorno à origem não é, todavia, um desdobrar-se sobre o ontem e o anteontem, mas força para um início para amanhã... lançar pontes para as origens é construtor de pontes (pontífice) rumo ao futuro".
"Para o Papa Francisco, no centro do Evangelho está a mensagem da misericórdia...a misericórdia de Deus é infinita; Deus nunca se cansa de ser infinitamente misericordioso com cada um para que também nós não nos cansemos de implorar a sua misericórdia. Deus não exclui e não abandona ninguém. Um pequeno gesto de misericórdia entre os homens pode mudar o mundo".
"A misericórdia é a justiça própria de Deus, não condena o pecador desejoso de conversão, mas justifica-o. No entanto, entendamo-nos, a misericórdia justifica o pecador, não o pecado. O mandamento da misericórdia quer também que a Igreja não torne a vida difícil aos seus fiéis, e não transforme a religião numa espécie de escravidão. Ela quer - assim o afirma São Tomás de Aquino, na linha de Agostinho - que sejamos livres dos fardos que nos tornam escravos. É o fundamento da alegria que o Evangelho nos oferta".
"O arquiteto do documento de Aparecida foi o cardeal Jorge Bergoglio como presidente da comissão de redação. Não causa, pois, supresa que Aparecida seja citada em muitas passagens da Evangelium Gaudium. A opção preferencial pelos pobres não permaneceu uma especialidade latino-americana. João Paulo II e Bento XVI acolheram-na no seu próprio magistério. Bento XVI dotou-a de uma fundamentação cristológica. Na alocução final da sua visita à Alemanha, a 25 de setembro de 2011, em Friburgo, com a palavra-chave «desmundanização», já quis dizer o que afirma hoje o papa Francisco. Na altura não foi bem compreendido ou, então, nem sequer existiu a vontade de o compreender. Francisco diz agora, com total clareza e de modo programático, de que é que se trata, e di-lo não só com a sua palavra, mas também com o seu simples e sóbrio estilo de vida".
"O Papa pronuncia um quádruplo não: não a uma economia de exclusão em que os seres humanos são apenas remetidos para as margens e se tornam escória e rebotalho; não a um aidolatria do dinheiro e à ideologia da absoluta autonomia dos mercados; não ao dinheiro que, em vez de servir, domina; não à desigualdade social que gera violência".
"... o Papa fala de uma tempestade do amor, o único que é capaz de transformar o mundo desde dentro. A revolução da ternura e do amor acontece, sim, com paixão, mas sem violência, sem fanatismo e ressentimento".
Outros títulos aqui recomendados:

A pedra rejeitada tornou-se pedra angular...

       "Jesus começou a falar em parábolas aos príncipes dos sacerdotes, aos escribas e aos anciãos: «Um homem plantou uma vinha. Cercou-a com uma sebe, construiu um lagar e ergueu uma torre. Depois arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe. Quando chegou o tempo, enviou um servo aos vinhateiros para receber deles uma parte dos frutos da vinha. Os vinhateiros apoderaram-se do servo, espancaram-no e mandaram-no sem nada. Enviou-lhes de novo outro servo. Também lhe bateram na cabeça e insultaram-no. Enviou-lhes ainda outro, que eles mataram. Enviou-lhes muitos mais e eles espancaram uns e mataram outros. O homem tinha ainda alguém para enviar: o seu querido filho; e enviou-o por último, dizendo consigo: «Respeitarão o meu filho». Mas aqueles vinhateiros disseram entre si: «Este é o herdeiro. Vamos matá-lo e a herança será nossa». Apoderaram-se dele, mataram-no e lançaram-no fora da vinha. Que fará então o dono da vinha? Virá ele próprio para exterminar os vinhateiros e entregará a outros a sua vinha. Não lestes esta passagem da Escritura: ‘A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se pedra angular. Isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’?». Procuraram então prender Jesus, pois compreenderam que tinha dito para eles a parábola. Mas tiveram receio da multidão e por isso deixaram-n’O e foram-se embora" (Mc 12, 1-12).
       As parábolas de Jesus, além de sugestivas, enunciam aspetos fundamentais do mistério de salvação que Ele vem revelar. Hoje, esta parábola do vinhateiro, que planta, que cuida, e que confia a sua vinha. Com Deus nos confia o mundo para que cuidemos e possamos enriquecê-lo com os nossos dons, devolvendo-o aos outros (que virão depois de nós) e a Deus com muitos frutos.
       A parábola narra também a história da salvação do povo eleito, a vinha do Senhor. Deus envia mensageiros, mas a escusa em escutá-los leva Deus a enviar o Seu Filho Unigénito. A história da Aliança está marcada pela fidelidade de Deus e pelos desvios do povo, pela misericórdia divina e pela surdez humana. Deus insiste. Insiste. Não desiste. Nunca. .Acredita na obra criada pelo Seu amor. Dá-nos o Seu filho, que vem para nos reconciliar como irmãos, como filhos de Seu e nosso Pai.

domingo, 29 de maio de 2016

Consagração a Santa Maria do Sabroso

       O último fim de semana de maio é de Peregrinação ao Santuário de Santa Maria do Sabroso. Consagremo-nos a Ela, Mãe de Deus e Mãe nossa:

       Santa Maria, Mãe de Deus e Mãe nossa, Reunidos, aqui neste lugar, no Sabroso, no Santuário que os nossos antepassados Vos erigiram, queremos consagrar-nos a Vós, tudo o que somos e tudo o que temos, o que fazemos dos nossos dons e o que queremos ser com a Vossa ajuda e intercessão.
       Consagramos-Vos os nossos sonhos, os sonhos desfeitos e os realizados, os nossos medos e anseios, as nossas lutas e canseiras, as nossas alegrias e esperanças, a vida.
       Consagramos-Vos as terras deste concelho de Tabuaço e as suas gentes.
       Que as nossas comunidades, com diversas marcas cristãs, com a visibilidade da fé, da religiosidade e devoção nas igrejas e nas capelas, nos nichos e imagens e nas diversas invocações, sejam antes de mais espaço de oração e de diálogo, de encontro, de partilha e de comunhão entre todos.
       Consagramos-Vos os nossos campos e tudo o que produzem, ainda que seja com o suor do nosso esforço, as uvas e o vinho, as cerejas, as azeitonas e o azeite, as batatas e todos os legumes. Que produzam generosamente o pão da nossa caridade e que a ninguém falte alimento, nem o alimento biológico nem o alimento de afectos, da amizade e da ternura.
       Como S. José, Vosso esposo, saibamos trabalhar com dedicação e honestidade para enchermos as nossas casas com a abundância da alegria, da paz e do bem.
       Consagramos-Vos as nossas casas e as ruas por onde passamos. Santa Maria, nossa Mãe, que as nossas casas sejam acolhedoras e que não falte nelas o brilho do Vosso amor e da Vossa ternura. Quem mora e visita as nossas casas sinta o perfume da concórdia e do amor.
       Consagramos-Vos as nossas famílias. Num mundo de discórdias, de conflitos e de rupturas, que as nossas famílias saibam descobrir o amor que irradia da Vossa família de Nazaré, promovendo a dignidade de todos os seus membros, respeitando cada um, acolhendo as diferenças, celebrando a vida.
       Consagramos-Vos as nossas crianças. São o futuro do mundo. Mas somos nós os responsáveis por elas cresceram em sabedoria e amor, aptas para enfrentar as dificuldades e fortes para viver o amor e a solidariedade. Que não lhes falte o nosso afecto, o nosso amparo e a nossa caridade.
       Consagramos-Vos os nossos adolescentes e os nossos jovens. Que nas suas inquietações eles encontrem quem os escute, como Tu, Maria, soubestes escutar, compreender e amar Jesus, mesmo quando tinhas alguns receios.
       Consagramos-Vos os nossos cristãos, aqueles que se empenham no trabalho paroquial, com zelo, com amor, com humildade, procurando em tudo agradar-Vos e contribuir para que todos os membros se sintam como família Vossa.
       Consagramos-Vos também aqueles que já não vão, para que lhes saibamos dar razões de esperança e de fé.
       Consagramos-Vos os nossos doentes e os nossos idosos. Por vezes esquecemo-nos deles, talvez para não vermos o nosso futuro. Ajuda-nos a respeitá-los, a amá-los e a ajudá-los a enfrentar as suas dúvidas, os seus medos, as suas solidões.
       Fortalece em nós do dom da fé, da caridade e da esperança, para vivermos a vida com alegria, testemunhando aos outros a Amor que nos vem de Vosso Filho Jesus.
       Consagramo-nos a Vós. Que ao apelo que nos fizeste em Cana da Galileia: "fazei tudo o que Ele vos disser", saibamos responder com humilde, procurando em tudo, como Vós, nossa Mãe santíssima, fazer a vontade de Deus.
       Santa Maria do Sabroso, Mãe da Igreja e nossa Mãe, protegei todos os vossos filhos, em Tabuaço, na nossa Diocese de Lamego e em todo o mundo. Amém.

(consagração preparada em 2009 para este dia)

sábado, 28 de maio de 2016

IX Domingo do tempo Comum - ano C - 29 de maio

       1 – A humildade encaminha-nos para a felicidade genuína. Coloca-nos na rota da salvação. Abre-nos aos outros e a Deus. Facilita, melhor, possibilita a comunicação, o crescimento, o amadurecimento. Cimenta os laços de amizade e de ternura. Faz sobressair o melhor de nós, acolhendo e promovendo o melhor que os outros têm para nos dar.
       A prepotência e o egoísmo encerram-nos num casulo empobrecedor. A humildade não se opõe à autoestima, benfazeja para uma vida saudável. A humildade opõe-se à soberba, à avareza e ao egoísmo, à autossuficiência e à ambição desmedida. A humildade faz-nos realistas e humanos. A nossa grandeza assenta na dignidade humana, somos seres únicos e irrepetíveis. Para os crentes, esta dignidade é fortalecida pela filiação divina, somos filhos amados de Deus e, portanto, irmãos. A humildade faz-nos reconhecer a nossa ligação aos outros, dando-nos a certeza que a felicidade se constrói com eles. Os outros não são, como pensava Sarte, o nosso inferno. Não. Os outros são a visita que Deus nos faz e que nos humaiza. Na partilha, na amizade, no cuidado, no amor descobrimos a beleza e a grandeza e o sentido da nossa vida.
       2 – Um centurião (oficial romano que tinha sob o seu comando cem soldados) recorre a Jesus a favor de um dos seus servos. Enviou anciãos judeus para intercederem junto de Jesus. Veja-se a dinâmica de intercessão: «Ele é digno de que lho concedas, pois estima a nossa gente e foi ele que nos construiu a sinagoga». Jesus não se faz rogado, não se desculpa, não olha para agenda, não se faz muito ocupado, simplesmente os acompanha.
       A postura deste homem é admirável. Intercede por um servo! Por um filho, entende-se, agora por um servo, quando tem os que quer?! Por outro lado, apela a um judeu, professando outra religião, e nem ousa usar da sua posição social para chegar a Jesus ou para negociar com Ele. Pede aos anciãos. Num segundo momento, quando Jesus já está perto, envia-Lhe alguns amigos, com o seu pedido: «Não Te incomodes, Senhor, pois não mereço que entres em minha casa, nem me julguei digno de ir ter contigo. Mas diz uma palavra e o meu servo será curado. Porque também eu, que sou um subalterno, tenho soldados sob as minhas ordens. Digo a um: ‘Vai’ e ele vai, e a outro: ‘Vem’ e ele vem, e ao meu servo: ‘Faz isto’ e ele faz».
       O posto que ocupava dava-lhe estatuto, prestígio, colocando-o "acima" e "à parte" dos simples mortais. Porém, o que vemos é diferente. O cargo não o ensoberbece, nem o isola. É um homem bom. É "inimigo" dos judeus, mas ajuda-os, colabora com eles, que o consideram amigo. Diante de Jesus sente-se, como Pedro, pecador, nem é digno de ir ao Seu encontro. Confia essa missão aos seus amigos. Também por aqui se vê a humildade deste homem. Só pessoas humildes têm amigos, os mais têm pessoas subservientes, para as ocasiões.
       Ao ouvir as palavras que Lhe trazem do centurião, Jesus sente admiração por ele: «Digo-vos que nem mesmo em Israel encontrei tão grande fé». Mais que de humildade, trata-se de fé. A fé faz sobressair o melhor de nós e faz-nos potenciar o melhor dos outros. A fé converte-nos, torna-nos humildes, faz-nos cuidar dos outros como irmãos. A verdadeira e genuína humildade nasce, cresce e alimenta-se da fé.
       "Ao regressarem a casa, os enviados encontraram o servo de perfeita saúde".
       3 – Na verdade, a fé genuína, a fé que radica em Cristo morto e ressuscitado, faz-nos humildes, solidários, leva-nos a ultrapassar qualquer barreira social, política, religiosa. O Centurião é estrangeiro, mas a sua fé aproxima-o de Jesus. Jesus aproxima-nos do centurião: vede, eis um homem amadurecido na fé, amigo dos judeus e dos seus servos, preocupado com os mais pequenos...
       Na primeira leitura, escutámos a oração de Salomão, que é simultaneamente um desafio: «Quando um estrangeiro, embora não pertença ao vosso povo, Israel, vier aqui dum país distante por causa do vosso nome – pois ouvirão falar do vosso grande nome, da vossa mão poderosa e do vosso braço estendido –, quando vier orar neste templo, escutai-o do alto do Céu, onde habitais, e atendei os seus pedidos, a fim de que todos os povos da terra conheçam o vosso nome e Vos temam como o vosso povo, Israel, e saibam que o vosso nome é invocado neste templo que eu edifiquei».
       A intercessão de Salomão a Deus pelos estrangeiros é, antes de mais, o desafio que Deus nos coloca. Para Deus não há fronteiras. Todo-poderoso, o Seu maior poder é fazer-Se do nosso tamanho, só assim O poderemos ver, encontrar, compreender. Só assim O podemos seguir. Tão pequeno que Se deixa ver, Se deixa amar, Se deixa prender, perseguir e Se deixa matar às nossas mãos. Tão concreto que nos permite negá-l'O ou recusá-l'O. Salomão prepara o seu povo, aliás, o povo de Deus, para ser instrumento de salvação e lugar de acolhimento para todos, luz para todas as nações. Com Abraão já tínhamos visto que nele seriam abençoados todos os povos da terra. A eleição é inclusiva. O sol quando nasce é para todos. Deus faz chover sobre bons e maus. Jesus não faz aceção de pessoas, apesar do preconceito dos seus discípulos. Envia-nos a todo o mundo: ide e fazei discípulos de todas as nações.
       O tempo atual tem sido uma provocação à dimensão e maturação da nossa fé. Há milhares de pessoas que fugiram da sua terra, por medo, por perseguição, para fugir à fome e à guerra. Os países desta velha e envelhecida Europa, a nossa casa, têm tido uma grande dificuldade em lidar com os refugiados, umas vezes por medo outras por preconceito. Perguntamos aos cristãos e repetem os medos: se há entre nós necessitados, por que acolher outros, então tratemos dos que estão cá... Só nos apercebemos que havia necessitados entre nós agora que chegam outros? E se entre eles vêm criminosos? E se… se… Dar pousada aos peregrinos é uma das obras de misericórdia, o testamento de Jesus, o compromisso dos seus seguidores. O caminho a percorrer entre os princípios, os ideais, os propósitos, e a prática, confronta-se com as nossas limitações e com o nosso pecado.

       4 – O decisivo na nossa vida é a fé, a fé em Jesus Cristo, morto e ressuscitado. Uma vez resgatados às trevas, ao pecado e à morte, vivemos como ressuscitados, procurando que as nossas obras comprovem e amadureçam a nossa fé e façam transparecer a luz que nos vem do Espírito Santo.
       O apóstolo Paulo dá a vida, tudo o que tem, pelo Evangelho de Jesus, que anuncia a propósito e despropósito. Após o encontro com Jesus, nada o demoverá para seguir Jesus, anunciar Jesus, mostrar Jesus, apontar para Jesus. Como sublinha, nesta carta aos Gálatas, o mandato que recebeu vem de Jesus Cristo e de Deus Pai. E é em nome de Jesus Cristo, para agradar a Cristo e não aos homens, que se dirige às igrejas da Galácia, que tão breve abandonaram Jesus e o Seu evangelho, deixando-se convencer por falsos profetas que semearam a discórdia e a confusão.
       "Mas se alguém – ainda que fosse eu próprio ou um Anjo do Céu – vos anunciar um evangelho diferente daquele que nós vos anunciamos, seja anátema. Como já vo-lo dissemos, volto a dizê-lo: Se alguém vos anunciar um evangelho diferente daquele que recebestes, seja anátema. Estarei eu agora a captar o favor dos homens ou o de Deus? Acaso procuro agradar aos homens? Se eu ainda pretendesse agradar aos homens, não seria servo de Cristo".
       Há em nós a tentação de adequarmos, adaptarmos, modificarmos o Evangelho de tal forma que se conforme às nossas opções e à forma como vivemos e nos relacionamos com os outros, em família, em Igreja, em sociedade. Curioso, como muitos se justificam com a postura do papa Francisco. Já assim era antes, basta evocar a última visita do papa João Paulo II aos EUA. Milhares de jovens, fãs do Papa, quando confrontados com os valores que defendia, logo diziam que isso era pouco importante. Pouco importante: questões da vida, da dignidade, da manipulação genética, do casamento entre pessoas do mesmo sexo... Ou seja, importante o embrulho, não o conteúdo. O pontificado de Francisco é uma lufada de ar fresco, mas como o próprio tem sublinhado, acolher, sempre, todos, mesmo quando abertamente se encontram em colisão com a verdade e com o Evangelho, mas não mitigar o Evangelho. O exemplo mais elucidativo é o de Jesus. À mulher apanhada em flagrante adultério: vai, Eu não te condeno, vai e não voltes a pecar. Alguns pegam neste caso para "aprovarem" o pecado! O perdão é levar a sério o pecador, não é fazer de conta que não aconteceu.
       Paulo escreve às igrejas da Galácia, não para as condenar, mas para as converter ao Evangelho. A seriedade passa por reconhecer os erros, as fragilidades, os pecados, para encetar o caminho de conversão e de mudança de vida.
       A fé não nos verga. A fé faz-nos humildes, erguendo-nos à estatura de Cristo, para que Ele viva em nós e através de nós. É preciso fibra para renunciarmos aos nossos interesses para que prevaleça a vontade de Deus.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (C): 1 Reis 8, 41-43; Sl 116 (117); Gal 1, 1-2. 6-10; Lc 7, 1-10.

Arrancai os outros do fogo

       Recordai o que vos foi predito pelos Apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Construí o vosso edifício espiritual sobre o fundamento da vossa fé santíssima. Orai em união com o Espírito Santo e conservai-vos no amor de Deus, esperando na misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna. Procurai convencer os que hesitam e salvai-os, arrancando-os do fogo; dos outros, compadecei-vos, mas com prudência, detestando até a túnica contaminada pela sua carne. Àquele que vos pode preservar da queda e apresentar-vos diante da sua glória, na alegria duma consciência sem mancha, ao único Deus, nosso Salvador, por Nosso Senhor Jesus Cristo, a glória e a majestade, a força e o poder, antes de todos os séculos, agora e para sempre. Ámen. (Judas 17.20b-25).
Jesus e os discípulos foram de novo a Jerusalém. Quando Ele andava no templo, aproximaram-se os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos, que Lhe perguntaram: «Com que autoridade fazes isto? Quem Te deu autoridade para o fazeres?». Jesus respondeu: «Vou fazer-vos só uma pergunta. Respondei-Me e Eu vos direi com que autoridade faço isto. O baptismo de João era do Céu ou dos homens? Respondei-Me». Eles começaram a discorrer, dizendo entre si: «Se dissermos: ‘É do Céu’, Ele dirá: ‘Então porque não acreditastes nele?’ Vamos dizer-Lhe que é dos homens?». Mas eles temiam a multidão, pois todos pensavam que João era realmente um profeta. Então responderam: «Não sabemos». Disse-lhes Jesus: «Também Eu não vos digo com que autoridade faço isto» (Mc 11, 27-33).
        Na Epístola de São Judas surge na mesma lógica da de São Pedro que durante esta semana escutámos como Primeira Leitura. São Judas convida a construirmos o nosso edifício espiritual fundamentado em Jesus Cristo, filho do Deus Altíssimo. Deveremos conservarmo-nos no amor de Deus, procurando que também os outros experimentem a salvação em Jesus Cristo. Confimemo-nos à misericórdia de Deus.
       No evangelho, o confronto entre Jesus e alguns doutores da lei, escribas, anciãos. A fama de Jesus tinha-se espalhado, sendo muitos os seguidores, de todos os estratos sociais mas prevalentemente as pessoas mais simples, pessoas do campo, doentes, publicanos, pecadores, galileus. A atração por Jesus provoca inveja junto das autoridades do templo, com medo de perder "clientela". Por outro lado, veem-se ameaçados por um estilo de vida mais aberto, simples, mais inclusivo, colocando em causa aqueles que se servem da religião e do seu posto para explorar as pessoas mais humildes. Como em outros embates, a resposta de Jesus é provocadora, desafiando a refletir. Não dá uma resposta como receita, mas incentiva a interrogação, para encontrar uma resposta.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

A minha casa é casa de oração!

       Jesus, depois de ser aclamado pela multidão, entrou em Jerusalém e foi ao templo. Observou tudo à sua volta e, como já era tarde, saiu para Betânia com os Doze. No dia seguinte, quando saíam de Betânia, Jesus sentiu fome. Viu então de longe uma figueira com folhas e foi ver se encontraria nela algum fruto. Mas, ao chegar junto dela, nada encontrou senão folhas, pois não era tempo de figos. Então, dirigindo-Se à figueira, disse: «Nunca mais alguém coma do teu fruto». E os discípulos escutavam. Chegaram a Jerusalém. Quando Jesus entrou no templo, começou a expulsar os que ali vendiam e compravam: derrubou as mesas dos cambistas e os bancos dos vendedores de pombas e não deixava ninguém levar nada através do templo. E ensinava-os, dizendo: «Não está escrito: ‘A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos’? E vós fizestes dela um covil de ladrões». Os príncipes dos sacerdotes e os escribas souberam disto e procuravam maneira de o fazer morrer. Mas temiam Jesus, porque toda a multidão andava entusiasmada com a sua doutrina. Ao cair da noite, Jesus e os discípulos saíram da cidade. Na manhã seguinte, ao passarem perto da figueira, os discípulos viram-na seca até às raízes. Pedro recordou-se do que tinha acontecido na véspera e disse a Jesus: «Olha, Mestre. A figueira que amaldiçoaste secou». Jesus respondeu: «Tende fé em Deus. Em verdade vos digo: Se alguém disser a este monte: ‘Tira-te daí e lança-te no mar’, e não hesitar em seu coração, mas acreditar que se vai cumprir o que diz, assim acontecerá. Por isso vos digo: Tudo o que pedirdes na oração, acreditai que já o recebestes e assim sucederá. E quando estiverdes a orar, se tiverdes alguma coisa contra alguém, perdoai, para que o vosso Pai que está nos Céus vos perdoe também as vossas faltas». (Mc 11, 11-26).


       Jesus já avisara os seus discípulos que a subida a Jerusalém não será um passeio, mas aproxima-se a hora de o Filho do Homem ser entregue às autoridades, ser morto e três dias depois ressuscitar. Os apóstolos não reagem muito bem, ou melhor, procuram acautelar os seus interesses, ver qual deles ficará no primeiro lugar. ouvem então a resposta de Jesus: O Filho do Homem não veio para ser servido mas para servir e dar a visa pela redenção de todos.
       O Evangelho que escutamos hoje faz-nos entrar com Jesus em Jerusalém e concretamente no templo. O Cego Bartimeu começou a ver com a Luz que recebeu de Jesus, mas parece que a Luz ainda não chegou a todos.
       Um pouco antes, na viagem para Jerusalém, Jesus e os discípulos sentem fome. Aproximam-se de uma figueira, mas ela não tem alimento. Então Jesus faz com que a figueira fique seca.Cegam a Jerusalém, entram no templo e eis o confronto com os cambistas em que Jesus os expulsa. Dois momentos que deixam transparecer alguma irritação por parte de Jesus. A primeira não é perceptível. Se não era tempo de figos... No Templo, Jesus acentua a sacralidade do Templo, por aí se invocar o Nome de Deus. Em todo o caso, Jesus acentuará a prevalência do Templo espiritual que deve ser cada pessoa.
       Ao passarem de novo pela figueira, já seca, Jesus aproveita a ocasião para um ensinamento extraordinário sobre a força da fé e da oração. Percebe-se melhor o gesto para fortalecer a fé dos discípulos, do que a "irritação" pelo facto da figueira não dar fruto fora de tempo, a não ser que Jesus queira que os seus discípulos, hoje somos nós, deem fruto em todo o tempo e que nem o tempo seja desculpa para não produzir abundante fruto.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Solenidade do Corpo de Deus - ano C - 26.maio.2016

       1 – O maior órgão do corpo humano é a pele. É a última fronteira. O limite que nos identifica e que, simultaneamente, nos permite comunicar com os outros. Podemos imaginar, somente imaginar, uma comunicação meramente espiritual, sem corpo. Na oração, nas intuições, nos pressentimentos. Mas mesmo aqui, por maior que seja a abstração, partimos de figuras, objetos, imagens, reais ou imaginadas. O tempo e o espaço, a história e o mundo, pressupõem o corpo, a matéria, a ocupação, a comunicação, que se faz de olhares, de gestos, de palavras, da postura, do vestuário, na forma de caminhar, na postura corporal... sempre tendo por base um corpo. O dualismo "alma-corpo" não pode ser excludente, quanto muito dialógico e inclusivo. O que nos identifica passa pela corporeidade preenchida pela inteligência, pela vontade, pela capacidade de amar, pelos sentimentos e emoções. Bem sabemos como somos psicossomáticos – o corpo influencia o nosso mundo interior e o nosso espírito influi com a saúde do nosso corpo.
       Houve, no passado, como ainda atualmente, a tentação de espiritualizar a religião, desencarnando a fé, desvalorizando a corporeidade. Por conseguinte, em causa ficaria o compromisso e a luta por um mundo mais justo e fraterno. Se recuarmos aos primeiros tempos da Igreja verificámos como Tiago deixa claro que tal não é cristão. Não há fé que não seja comprovável pelas obras, pela solidariedade. Não se pode desejar a paz a alguém, despedindo-o da assembleia, sabendo que não terá que comer, que vestir ou um leito para descansar. Seria um contrassenso. A fé leva-nos ao corpo e às chagas uns dos outros. A oração é o ponto de partida, o alimento, o chão, o fundamento na certeza que a proximidade e intimidade com Deus nos devolvem àqueles que rezam, vivem ou sofrem ao nosso lado. Ou então não seria Pai, Pai de todos, Pai de misericórdia. Não meu Pai, mas nosso Pai. A cumplicidade (espiritual) com Deus, força-me ao compromisso (corporal) com os outros.
       Uma religião pura, sem corpo, sem o Corpo de Cristo, seria puro pensamento e, como tal, ficar-se-ia na imaginação, ao critério de cada um. Ora a religião cristã tem um Corpo, um Rosto, uma Pessoa, Jesus Cristo. E tudo tem a ver com Jesus.
       2 – A solenidade do Corpo de Deus vem do século XIII, reafirmando a presença real de Jesus na Eucaristia, na hóstia e no vinho consagrados. Um pouco antes, a elevação da hóstia para que todos contemplassem, em adoração, o Corpo de Jesus. A solenidade do Corpo de Deus começou a celebrar-se em 1246, na cidade belga de Liège, tendo sido alargada à Igreja universal, em 1264, com o Papa Urbano IV, através da bula "Transiturus", dotando-a de missa e ofício próprios. A adoração da Hóstia consagrada ultrapassou o tempo da celebração da Eucaristia e o espaço físico das Igrejas, para se fazer através das Procissões do Santíssimo.
       No século XVI, a solenidade do Corpo de Deus ganhou novo ímpeto, sublinhando a fé católica, que professa a presença real de Jesus na hóstia consagrada, durante a celebração, mas perdurando na hóstia, seja no Sacrário, seja na Adoração Sacramental, em celebrações específicas, na referida procissão, ou quando se leva a comunhão aos doentes. Não é uma presença provisória ou momentânea. Também no pão e no vinho consagrados Deus “encarna” por inteiro e não apenas por um curto espaço de tempo. Estaria na hóstia apenas durante a celebração!
       Muitas vezes os cristãos são acusados de adorar as imagens. O que revela, pelo menos, ignorância, ainda que possa haver exageros. A imagem e/ou estátua é algo que é visível, palpável. Como precisamos das fotografias na carteira e no telemóvel, ainda que estejamos todos os dias com as pessoas que amamos ou falemos com elas ao telefone ou por meio das plataformas digitais. A fotografia aproxima-nos e facilita a abstração. Rezar num armazém descaracterizado não é o mesmo que se recolher num espaço preparado, arrumado, com um ambiente facilitador da oração e do encontro com os outros. Não é exatamente o mesmo viver num quarto desarrumado, com roupa e calçado espalhados pelo chão, móveis em qualquer lado, em que tenhamos que fazer esforço para não derrubarmos e não nos aleijarmos ou um quarto arranjado, limpo, arejado, em que cabemos sem andar aos tropeções! Para nos encontrarmos como comunidade, como família, precisamos de tempos e de espaços. Adorar a Deus "em espírito e verdade" é focar-se no essencial e não endeusar os espaços ou os tempos nem os templos. Mas estes facilitam o encontro e a celebração conjunta da fé.
       Com tem vindo a acentuar o Papa Francisco, o tempo é mais importante que o espaço, mas este também nos desafia e compromete!
       3 – Eis que venho, ó Deus para fazer a Vossa vontade. Não quiseste sacrifícios, mas fizeste-me um corpo. As palavras que a Epístola aos Hebreus atribui a Jesus falam da centralidade da encarnação, como possibilidade para a história, para a partilha da vida de Deus com a vida humana. Só na carne humana é possível Deus tocar o nosso sofrimento e a própria morte. E, por conseguinte, só nessa comunhão é possível Deus salvar-nos por inteiro.
       Jesus vem para nos dar a vida e vida em abundância. Assume um Corpo, uma Vida humana, limitada e finita, num tempo e num espaço concretos. Falou-nos de diferentes maneiras, mas na plenitude do tempo, Deus veio em Pessoa ver-nos, viver connosco e como nós, para que aprendamos a viver com Ele e como Ele. Daí a necessidade de constantemente nos confrontarmos com Jesus e com o Seu Evangelho de misericórdia.
       Se somos Corpo de Cristo – a Igreja é o Corpo de Cristo, Ele a cabeça, nós os membros – o compromisso é o mesmo e assim também a vontade se há de conciliar. Não é possível que um membro puxe para um lado e outro para o outro. O corpo deixa-se comandar pela Cabeça, pela inteligência e pela vontade. Daí a oração e o colocar-nos à escuta para que a inteligência de Cristo, a inteligência do coração, nos possa guiar, sintonizando-nos, fazendo-nos entrar em comunhão, para nos tornarmos verdadeiramente Corpo de Cristo.
       No evangelho Jesus insinua-Se como o alimento para todos. Alimento abundante, que sobeja para que possa ser partilhado por outros, pelos que estão ausentes. Os apóstolos veem (sobretudo) o número: muitas pessoas, poucos alimentos, dinheiro insuficiente para tanta gente. Como é verdade ainda hoje: tanta gente que não tem como alimentar-se! A riqueza nas mãos de uns poucos. A nossa responsabilidade compromete-nos. Jesus compromete-nos: «Dai-lhes vós de comer».
       Tanta gente. Cinco pães e dois peixes. Ontem como hoje. A questão dos números é relativa. Também hoje podemos operar verdadeiros milagres, pela partilha. Quando partilhamos do pouco que temos, dá para mais, dá para muitos, dá para todos. Deus conta connosco, com os nossos cinco pães e dois peixes e conta que sejamos nós a distribuir.
       4 – "Todos comeram e ficaram saciados; e ainda recolheram doze cestos dos pedaços que sobraram". Milagre da multiplicação, milagre da partilha. Jesus é alimento que sacia todas as pessoas, alimento que sobeja para outras que venham. Neste gesto, Jesus antecipa a Sua entrega. Agora faz com que o pão se multiplique pela multidão, para Ele ser o Corpo, o Pão, partilhável por todos. E se comungamos o mesmo Corpo teremos que prosseguir ao jeito d’Aquele que nos dá a Sua vida, nosso alimento, nossa força e nosso guia, o Bom Pastor!
       "O Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o pão e, dando graças, partiu-o e disse: «Isto é o meu Corpo, entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim». Do mesmo modo, no fim da ceia, tomou o cálice e disse: «Este cálice é a nova aliança no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim. Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha».
       Celebramos Eucaristia, comungamos o Corpo e Sangue de Jesus, para O anunciar, para que Ele nos transforme a partir de dentro. Comungamo-l’O para O partilharmos. O Alimento dá-nos o ânimo (a alma) para prosseguimos a missão d'Aquele que vem habitar-nos e viver em nós. Refira-se novamente: a cumplicidade e a progressiva identificação/comunhão com Jesus leva-nos a fazer o que Ele fazia. O cenário pode ser diferente, o compromisso é o mesmo: amar servindo, servir amando. Dar a vida, optando por cuidar dos mais frágeis.
       Rezemos de corpo, alma e espírito: "Senhor Jesus Cristo, que neste admirável sacramento nos deixastes o memorial da vossa paixão, concedei-nos a graça de venerar de tal modo os mistérios do vosso Corpo e Sangue que sintamos continuamente os frutos da vossa redenção".
       A adoração de Deus – só Deus é digno de ser adorado – para que a nossa vida resplandeça cada vez mais a alegria e a paz do Evangelho, a misericórdia e a ternura em que Jesus nos enxerta, para que, dóceis ao Espírito Santo, nos acolhamos ao Coração do mesmo Pai e usemos da mesma complacência uns para os outros, constituindo uma só família, um só Corpo.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (C): Gen 14, 18-20; Sl 109 (110);1 Cor 11, 23-26; Lc 9, 11b-17.

Santa MARIA MADALENA DE PAZZI, virgem

Nota biográfica:
       Nasceu em Florença no ano 1566: teve uma piedosa educação e entrou na Ordem das Carmelitas; levou uma vida oculta de oração e abnegação, rezando assiduamente pela reforma da Igreja e dirigindo as suas irmãs religiosas no caminho da perfeição. Recebeu de Deus muitos dons extraordinários. Morreu no ano 1607. 


Oração de coleta:

       Senhor, que amais a virgindade e cumulastes de dons celestes Santa Maria Madalena de Pazzi abrasada no vosso amor, concedei-nos que, celebrando hoje a sua memória, imitemos o exemplo da sua pureza e caridade. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo. 

Dos Escritos sobre a Revelação e a Provação, de Santa Maria Madalena de Pazzi, virgem

Vinde, Espírito Santo

Verdadeiramente admirável sois Vós, ó Verbo de Deus, no Espírito Santo, ao fazer que Ele se infunda de tal modo na alma, que ela chegue a unir-se a Deus, conheça a Deus, saboreie Deus, e em nada se alegre fora de Deus.
O Espírito Santo desce à alma, marcado com o precioso selo do Sangue do Verbo, do Cordeiro imolado; mais ainda, é esse mesmo Sangue que o incita a descer, embora o Espírito já por Si tenha esse desejo.
O Espírito que assim deseja, é a substância do Pai e a substância do Verbo; procede da essência do Pai e do beneplácito do Verbo, vem como fonte que se difunde na alma, e a alma submerge-se n’Ele. Assim como dois rios, confluindo, de tal modo se misturam que o menor perde o seu nome e recebe o do maior, assim actua este Espírito divino, quando desce à alma para com ela Se unir. Mas é necessário que a alma, que é menor, perca o seu nome e o ceda ao Espírito Santo; e deve fazer isto transformando-se de tal modo no Espírito que se torne com Ele uma só coisa.
Porém, este Espírito, distribuidor dos tesouros que estão no coração do Pai e guarda dos segredos entre o Pai e o Filho, introduz-Se tão suavemente na alma que não se sente a sua vinda e, pela sua grandeza, poucos O apreciam.
Com a sua densidade e a sua leveza entra em todos os lugares que estão aptos e predispostos para O receber. Na sua palavra frequente, como também no seu profundo silêncio, é ouvido por todos; com impetuosidade e prudência, imóvel e mobilíssimo, penetra em todos os corações.
Não Vos ficais, Espírito Santo, no Pai imóvel e também não Vos ficais no Verbo; estais sempre no Pai e no Verbo, e em Vós mesmo, e em todos os espíritos bem-aventurados e nas criaturas. Sois necessário à criatura, por causa do Sangue derramado pelo Verbo Unigénito, o qual, pela veemência do amor, se tornou necessário à sua criatura. Repousais nas criaturas que se predispõem com pureza a receber em si, pela comunicação dos vossos dons, a vossa própria semelhança. Repousais nas almas que recebem em si os efeitos do Sangue do Verbo e se tornam habitação digna de Vós.
Vinde, Espírito Santo. Venha a união do Pai e o beneplácito do Verbo. Vós, Espírito da verdade, sois o prémio dos santos, o refrigério das almas, a luz das trevas, a riqueza dos pobres, o tesouro dos que amam, a abundância dos famintos, a consolação dos peregrinos; enfim, Vós sois Aquele que contém em Si todos os tesouros.
Vinde, Vós que, descendo a Maria, realizastes a Encarnação do Verbo, e realizai em nós, pela graça, o que n’Ela realizastes pela graça e pela natureza.
Vinde, Vós que sois o alimento de todo o pensamento casto, a fonte de toda a clemência, a plenitude de toda a pureza.
Vinde e transformai tudo o que em nós é obstáculo para sermos plenamente transformados em Vós.

O maior no Reino de Deus: quem mais serve!

       Jesus e os discípulos subiam a caminho de Jerusalém. Jesus ia à sua frente. Os discípulos estavam preocupados e aqueles que os acompanhavam iam com medo. Jesus tomou então novamente os Doze consigo e começou a dizer-lhes o que Lhe ia acontecer: «Vede que subimos para Jerusalém e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas. Vão condená-l’O à morte e entregá-l’O aos gentios; hão-de escarnecê-l’O, cuspir-Lhe, açoitá-l’O e dar-Lhe a morte. Mas ao terceiro dia ressuscitará». Tiago e João, filhos de Zebedeu, aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe: «Mestre, nós queremos que nos faças o que Te vamos pedir». Jesus respondeu-lhes: «Que quereis que vos faça?». Eles responderam: «Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda». Disse-lhes Jesus: «Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu vou beber e receber o baptismo com que Eu vou ser baptizado?». Eles responderam-Lhe: «Podemos». Então Jesus disse-lhes: «Bebereis o cálice que Eu vou beber e sereis baptizados com o baptismo com que Eu vou ser baptizado. Mas sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não Me pertence a Mim concedê-lo; é para aqueles a quem está reservado». Os outros dez, ouvindo isto, começaram a indi¬gnar-se contra Tiago e João. Jesus chamou-os e disse-lhes: «Sabeis que os que são considerados como chefes das nações exercem domínio sobre elas e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. Não deve ser assim entre vós: quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo, e quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos; porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos». (Mc 10, 32-45).
       Depois do anúncio explícito da paixão, dos sofrimentos que estão para vir, Jesus escuta Tiago e João a pedirem-lhe para os colocar um à direita e outra à esquerda. Depois de auscultar a disponibilidade para seguirem o mesmo caminho, Jesus diz-lhes claramente que não Lhe cabe colocá-los à Sua direita ou à Sua esquerda. Logo ouvimos a contestação que fazem os demais Apóstolos. Percebe, deste modo, que nesta fase da vida de Jesus e da Sua missão, os Seus discípulos ainda esperam um messianismo terreno, baseado no poder, nos lugares, nos títulos.
       Porém, Jesus diz-lhes inequivocamente que o poder dos discípulos há-de estar no serviço: quem mais amar, quem mais servir, será quem mais reinará. A lógica do Evangelho, da Palavra de Deus orienta-se pelo serviço, pela caridade sem limites.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Grupo de Jovens na Jornada da Juventude

       A Jornada Diocesana da Juventude é um ponto alto das atividades pastorais propostas para os jovens, no caso concreto, da Diocese de Lamego. Alterna de Arciprestado para Arciprestado, e atualmente por zonas pastorais, potenciando o trabalhos de jovens, grupos, paróquias que se envolvem e comprometem com a preparação da Jornada.
       Este ano coube à Zona Pastoral de Tarouca acolher o repto do Secretariado Diocesano da Juventude (SDPJ de Lamego) para realizar a Jornada. O lugar escolhido foi Santa Helena da Cruz, em Tarouca, no dia 20 de maio de 2016. Uma manhã preenchida por diferentes propostas, caminhada, confissões, workshops, relacionando a oração e a misericórdia, seguindo a temática do Jubileu da Misericórdia e do Plano Pastoral da Diocese de Lamego.
       O Grupo de Jovens de Tabuaço marcou presença, integrando jovens da Paróquia de Carrazedo.
Outras fotos na página da Paróquia de Tabuaço no Facebook

sábado, 21 de maio de 2016

Solenidade da Santíssima Trindade - C - 22.maio.2016

       1 – Em muitas situações da vida temos dificuldade em compreender, aceitar e acolher uma opinião diferente da nossa, uma forma de viver que nos é alheia, uma postura que temos como petulante e prepotente. Umas vezes com razão. Muitas vezes porque não demos tempo para que o outro explicasse. Não escutámos. Com pressa, adiantamo-nos a silenciamos outras opções, para não termos nem que refletir nem que escolher.
       Ao fim e ao cabo, todos somos tolerantes e compreensivos quando concordam connosco e/ou quando estimamos aqueles que se nos contrapõem. É conhecido o episódio em que os discípulos voltam para junto de Jesus, dizendo-Lhe, satisfeitos da vida, que proibiram um homem de expulsar espíritos impuros em Seu nome por não fazer parte do grupo (Mc 9, 38-40 ). Pouco depois Jesus dir-lhes-á que entre eles o serviço aos outros deve ser uma prioridade e um compromisso constante. As disputas para o primeiro lugar ficam reservadas para os chefes das nações, não para os Seus seguidores (cf. Mc 9, 30-37). E, por outro lado, o bem é sempre bem, venha de onde vier!
       Se olharmos para a política, para o desporto e até para a Igreja vemos com facilidade a tentação de excluir quem não concorda com as nossas ideias e com as nossas opções. Só o que vem da minha bancada, da minha janela, do meu grupo, do meu clube é que é positivo e defensável. Somos pouco trinitários, temos dificuldades ancestrais em aceitar e acolher o que não é familiar, por defesa, por medo, por insegurança e/ou por sobrevivência. Quando duas tribos se encontravam, lutavam pelo mesmo lugar, mediam forças e tentavam aniquilar-se mutuamente garantindo que não estariam sujeitas a novas ameaças. Cortava-se o mal pela raiz! Ou, estabelecem uma aliança de cooperação, garantida por casamentos mistos, envolvendo as famílias das duas tribos.
        Segundo o livro do Génesis, Deus criou-nos para vivermos como família, um só povo porque um só Deus e Pai de todos. O pecado – quando cada um encara o outro como adversário e como inimigo, o outro como impossibilidade para "eu" ser deus – gera conflitos, disputas, guerras, ruturas. Afastam-se os mais frágeis. Impõem-se os mais fortes. Pelo menos até certo ponto, pois os mais fracos podem preparar-se e fortalecer-se para se tornarem mais fortes e poderem voltar à luta.
       2 – A solenidade da Santíssima Trindade cria mais uma oportunidade para louvarmos o Deus que nos é revelado por Jesus Cristo, que O encarna, personificando-O no tempo e na história, mostrando-O (quem Me vê, vê o Pai), dando-lhe um rosto, um corpo, tornando-O visível. Em Jesus Cristo, vemos Deus. Nos seus gestos e palavras. Na Sua postura e nas Suas escolhas. Na Sua delicadeza e na Sua compaixão. Cumprido o tempo, Ele enviar-nos-á o Espírito Santo, para que continue a revelar-nos a misericórdia infinita do Pai e a suscitar em nós a docilidade para O acolhermos, vivendo-O e testemunhando-O em todo o mundo e em todo o tempo.
       Acompanhando Jesus, os discípulos veem e compreendem que para Deus não há excluídos. Na expressão do Papa Francisco, não há santos sem passado e sem pecado, e não há pecadores sem futuro, sem possibilidade de se arrependerem e mudarem de vida. Para Jesus, os pecadores, os excluídos do poder, da sociedade, da cultura, da religião, as pessoas doentes, os publicanos, os pequeninos, as prostitutas, as pessoas cujas profissões "menores" as afastam dos reinos deste mundo, têm preferência no Reino de Jesus, não por serem melhores mas precisamente porque são os primeiras a precisarem de ser socorridos. Os pais darão uma atenção privilegiada ao filho que está doente ou está mais frágil, não por desamor em relação aos outros, mas para que aquele volte à mesa e ao convívio. E isso é ser família, cuidar uns dos outros, a começar pelos mais frágeis. Sabemos bem como atravessamos a cultura do descarte (expressão do Papa Francisco)! Desafio: construir a cultura da proximidade, da inclusão, instaurando a civilização do amor e da vida, já preconizada por Paulo VI, acentuada por João Paulo II, clarificada por Bento XVI e globalizada por Francisco.
       3 – O Evangelho hoje proclamado coloca-nos nos últimos momentos da vida histórico-temporal de Jesus. A caminhada percorrida com os Seus discípulos já tem algum tempo. Amadureceram. Puderam ver Jesus, a Sua postura delicada, a atenção aos mais frágeis, a confiança que lhes comunicou a falar do Pai, o reino aberto a todos.
       Ao aproximar-se o final, Jesus sabe que ainda precisam de mais tempo, mas sobretudo precisam de se manter ligados ao Pai, pelo Espírito Santo. Se nos apoiarmos em nós, as nossas limitações e fraquezas virão ao de cima e facilmente podemos ensoberbecer-nos. Se nos deixarmos guiar pelo Espírito, Ele nos revelará a verdade, além das nossas debilidades e pecados. Somos vasos de barro, mas ainda assim Deus manifesta-Se em nós e através de nós. O Espírito de Deus faz-nos perceber da nossa grandeza, porque filhos de Deus, e da nossa dependência aos outros, porque irmãos; faz-nos acolher os outros como família e não como adversários e inimigos, mostrando-nos o caminho a percorrer e a distância que nos separa – e nos atrai – da misericórdia de Deus.
       Diz Jesus: «Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis compreender agora. Quando vier o Espírito da verdade, Ele vos guiará para a verdade plena; porque não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que está para vir. Ele Me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. Tudo o que o Pai tem é meu. Por isso vos disse que Ele receberá do que é meu e vo-lo anunciará».
       O Espírito Santo nos revelará toda a verdade, recordar-nos-á as palavras de Jesus, palavras que nos geram para a vida eterna e nos comprometem com o reino de Deus, aqui e agora, neste mundo.
       4 – A economia da salvação traz-nos Deus. Como alguém dizia, não é preciso a chegada de Cristo ou do Papa Francisco, para chegar à humanidade a misericórdia de Deus. A Sagrada Escritura vai dando nota da presença benevolente de Deus na História. Pelos mensageiros, Patriarcas, Juízes, Profetas e Reis. Pelos acontecimentos que colocam à prova a fé e a firmeza do povo eleito.
       O livro dos Provérbios fala-nos da Sabedoria de Deus, que poderemos, seguindo a reflexão dos Padres da Igreja e com algumas cautelas, identificar com o próprio Jesus.
       A sabedoria de Deus apresenta-se: «O Senhor me criou... antes das suas obras mais antigas. Desde a eternidade fui formada, desde o princípio, antes das origens da terra. Antes de existirem os abismos e de brotarem as fontes das águas... antes de se implantarem as montanhas e as colinas... ainda o Senhor não tinha feito a terra e os campos, nem os primeiros elementos do mundo. Quando Ele consolidava os céus, eu estava presente; quando traçava sobre o abismo a linha do horizonte, quando condensava as nuvens nas alturas, quando fortalecia as fontes dos abismos, quando impunha ao mar os seus limites para que as águas não ultrapassassem o seu termo, quando lançava os fundamentos da terra, eu estava a seu lado como arquiteto, cheia de júbilo, dia após dia, deleitando-me continuamente na sua presença».
       Há páginas nos profetas que anunciam a vinda do Messias. Com efeito, ler o Antigo Testamento com a luz da Páscoa, que inclui o mistério da Encarnação, ajuda a perceber o encadeamento da história da Aliança de Deus com o Seu povo. Uma Aliança que não fica em banho-maria, mas tem um desfecho. Ao mesmo, lendo o Novo Testamento com os seus antecedentes, ajuda a perceber e acolher melhor todo o mistério de Deus que Se revela ao longo do tempo e em plenitude com a vinda de Jesus Cristo. Não é um momento, um rompante. Deus, desde sempre, cria-nos por amor, querendo-nos bem, vem salvar-nos. Toda a história da humanidade está imbuída da misericórdia complacente de Deus. 

       5 – Na segunda leitura, o Apóstolo São Paulo desafia-nos a confiarmos a nossa vida a Deus que é Pai e Filho e Espírito Santo, na certeza que não nos desiludiremos. Com efeito, fomos "justificados pela fé, estamos em paz com Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual temos acesso, na fé, a esta graça em que permanecemos e nos gloriamos, apoiados na esperança da glória de Deus. Mais ainda, gloriamo-nos nas nossas tribulações, porque sabemos que a tribulação produz a constância, a constância a virtude sólida, a virtude sólida a esperança. Ora a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado".
       A esperança em Deus anima-nos nas tribulações e fortalece-nos no compromisso para construirmos um mundo mais fraterno, iniciando o reino de Deus que Jesus nos trouxe da eternidade, para a qual nos conduzirá. Há que converter as dificuldades em provações e oportunidades!
       Confiemo-nos nas mãos e no coração de Deus: "Deus Pai, que revelastes aos homens o vosso admirável mistério, enviando ao mundo a Palavra da verdade e o Espírito da santidade, concedei-nos que, na profissão da verdadeira fé, reconheçamos a glória da eterna Trindade e adoremos a Unidade na sua omnipotência" (oração de coleta).

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (C): Prov 8, 22-31; Sl 8; Rom 5, 1-5; Jo 16, 12-15.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A Páscoa de Jesus e o nosso compromisso batismal

       Liturgicamente, tendo celebrado a Ascensão do Senhor, vamos centrar-nos no Pentecostes, a dádiva do Espírito Santo. Com a plenitude da Páscoa, nasce a Igreja e os cristãos que a constituem. Doravante, Jesus tem outros olhos, outra voz, outras mãos, outros pés. Ele está vivo em nós e através de nós.
       As Suas últimas palavras são de despedida, de promessa, de esperança e de envio. Sintetizam o mistério pascal, comprometendo os discípulos. Doravante não poderão calar o que viram e ouviram: «Vós sois testemunhas destas coisas» (Lc 24, 48).
       Ao longo de três anos – a vida pública de Jesus –, os apóstolos foram testemunhas de um sonho, um projeto de vida, um desafio envolvente. O reino de Deus a emergir na pessoa de Jesus Cristo, nas Suas palavras e nos Seus gestos de compaixão e de proximidade, de delicadeza e de acolhimento. Uma mesa posta para todos. Um banquete para incluir, a começar pelos excluídos. Um reino de portas abertas, integrador, em que ninguém está a mais. Acompanham-n'O camponeses, pedintes, doentes, maltrapilhos. Não admira que Ele tenha o cheiro das ovelhas. Mais que um estilo (exterior) é um jeito de ser, um compromisso. A santidade de Jesus mistura-se com o (nosso) pecado, a divindade abaixa-Se para caminhar connosco e nos elevar.
       A Ascensão de Jesus e o dom do Espírito Santo leva-nos a sério. Não somos mais crianças de levar pela mão. O tempo de aprendizagem perdura a vida toda mas há um momento em que as aprendizagens e os instrumentos nos responsabilizam e nos é passada a bola. Cabe-nos prosseguir o caminho aberto por Jesus.
       Depois da Sua paixão, diz-nos São Lucas, Jesus apareceu vivo aos Seus discípulos, durante 40 dias (tempo necessário para iniciar e cimentar uma nova forma de se relacionarem com o Mestre), falando-lhes ainda e sempre do reino de Deus. Agora é tempo de descobrirem Jesus no mundo das pessoas e não ficar simplesmente à espera que do Céu venha a resolução de todas as dificuldades (cf. Atos 1, 1-11).
       Não apenas eles. Também nós. Quantas vezes ficamos à espera? De sinais! De respostas! De soluções! Por vezes deixamos o tempo passar a ver se tudo se resolve! Ou deixamos para ver se outros resolvem! Então do Céu a mesma voz: Por que esperais? Ele está convosco e através de vós continua a agir no mundo.
       Ele não nos faltará com a Sua presença e o Seu amor. Até ao fim!

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4362 , de 10 de maio de 2016

Não sejais motivo de escândalo

       Disse Jesus aos seus discípulos: «Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa. Se alguém escandalizar algum destes pequeninos que crêem em Mim, melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós movidas por um jumento e o lançassem ao mar. Se a tua mão é para ti ocasião de pecado, corta-a; porque é melhor entrar mutilado na vida do que ter as duas mãos e ir para a Geena, para esse fogo que não se apaga. E se o teu pé é para ti ocasião de pecado, corta-o; porque é melhor entrar coxo na vida do que ter os dois pés e ser lançado na Geena. E se um dos teus olhos é para ti ocasião de pecado, deita-o fora; porque é melhor entrar no reino de Deus só com um dos olhos do que ter os dois olhos e ser lançado na Geena, onde o verme não morre e o fogo não se apaga». Na verdade, todos serão salgados com fogo. O sal é coisa boa; mas se ele perder o sabor, com que haveis de temperá-lo? Tende sal em vós mesmos e vivei em paz uns com os outros» (Mc 9, 41-50).
       Em primeiro lugar, a certeza: ninguém ficará sem recompensa por fazer o bem, mesmo que seja um copo de água dado em nome de Jesus.
       Por outro lado, nada de escandalizar, com palavras e obras, os que nos rodeiam, especialmente as pessoas mais simples. Quanto maior for o nosso esclarecimento e a nossa responsabilidade, maior há-de ser o nosso compromisso com os outros, com a verdade, com o bem, com Jesus Cristo.
       No mundo a nossa postura deverá ser a de Jesus Cristo, no mundo mas sem sermos do mundo. Deveremos ser como o sal na comida, temperar, dar sabor e sentido ao mundo actual e contribuir positivamente para a sua transformação.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Quem não é contra nós é por nós

       João disse a Jesus: «Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impe-dir-lho, porque ele não anda connosco». Jesus respondeu: «Não o proibais; porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós» (Mc 9, 38-40).
       O ciúme e a inveja, a partir de uma certa dose destroem, matam, são um empecilho para o bem, para a caridade. Os discípulos encontram alguém que em nome de Jesus faz o que eles fazem, anuncia Jesus e realiza prodígios. Logo, os discípulos, sentindo-se invadidos, procuram impedi-lo por ele não estar, não e não fazer parte do GRUPO. O argumento não é que esse homem estivesse a fazer mal, mas simplesmente porque não faz parte do grupo.
       À primeira vista sentem-se ameaçados no seu posto, como se o bem que outros fazem pudesse diminuir ou desfocar o bem que eles podem fazer. Por outro lado, bem visível, ciosidade grupal, quem está fora racha lenha, não deve ter acesso à mesma glória. Também as fronteiras de Jesus são mais largas, ou melhor, as fronteiras são também ponto de encontro e não de divisão. Se ele não está contra, então já começou a estar a favor, já está a caminho. Por outras palavras, é possível que outros, outros grupos, possam fazer o bem e manifestarem o poder de Deus.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Paróquia de Tabuaço | Festa do Credo | 2016

       No dia 15 de maio de 2016, solenidade de Pentecostes, a Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Tabuaço viveu mais uma festa da Catequese, a Festa do Credo. Nos últimos anos, esta solenidade tem sido valorizada com a festa da Profissão de Fé. Porém, este ano e infelizmente, não existe o 6.º Ano de Catequese, pelo que também não há lugar à Profissão de Fé. Credo e Profissão de Fé assemelham-se. Daí a opção por colocar a festa na Solenidade do Pentecostes, na certeza que só o Espírito Santo nos faz professar a fé em Deus que é Pai, criador do universo, que é Filho, que encarna para viver connosco, é morto e ressuscita, que Espírito Santo, que gera a vida e nos santifica, e na Igreja na qual Jesus vive e Se manifesta ao mundo.
       Os meninos do 5.º Ano, com as suas catequistas, apresentaram-se felizes e com vontade de festejar o Credo. Alguns momentos sublinhados: a oração de fiéis, evocando os dons do Espírito Santo, e a Profissão de Fé - Credo, envolvendo catequistas, sacerdote, pais, padrinhos/madrinhas de batismo e, claro, os catequizandos.
       Fotos desta festa, simples mas muito significativa, para os intervenientes diretos e suas famílias e para a comunidade paroquial:

Para outras fotos disponíveis, visitar a Paróquia de Tabuaço no Facebook