terça-feira, 30 de agosto de 2016

...porque falava com autoridade!

        Jesus desceu a Cafarnaum, cidade da Galileia, e ali ensinava aos sábados. Todos se maravilhavam com a sua doutrina, porque falava com autoridade. Encontrava-se então na sinagoga um homem que tinha um espírito de demónio impuro, que bradou com voz forte: «Ah! Que tens que ver connosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir? Eu sei quem Tu és: o Santo de Deus». Disse-lhe Jesus em tom severo: «Cala-te e sai desse homem». O demónio, depois de o ter arremessado para o meio dos presentes, saiu dele sem lhe fazer mal nenhum. Todos se encheram de assombro e diziam entre si: «Que palavra esta! Ordena com autoridade e poder aos espíritos impuros e eles saem!». E a fama de Jesus espalhava-se por todos os lugares da região (Lc 4, 31-37).
       Dois aspectos importantes se destacam no Evangelho proposto para hoje: a autoridade do ensino de Jesus e o poder de expulsar espíritos impuros, isto é, o poder curativo.
       A autoridade de Jesus vem não apenas pela origem da Sua missão (divina), mas sobretudo da coerência de vida, entre o que ensina, professa, e o que vive, os gestos que assume na relação com as pessoas que encontram, não se encontrando n'Ele acepção de pessoas, quando muito valorizando as que se encontram marginalizadas pela sociedade, pela política e/ou pela religião.
       Por outro lado, o poder curativo é expressão que este  HOMEM vem da parte de Deus, por isso realiza prodígios. Mais, expulsa os demónios. A palavra tem uma consequência prática, efetiva e concreta na vida das pessoas. As suas palavras não são acessórias, mas essenciais, convertem. curam, expulsam os espíritos impuros, salvam, envolvem...

sábado, 27 de agosto de 2016

Domingo XXII do Tempo Comum - ano C - 28 de agosto

       1 – Para o banquete nupcial, o Senhor Jesus escancara as portas, para que todos possam entrar, pois todos são convidados. O reino de Deus não é um privilégio, nem para pobres nem para ricos, é para todos. No Evangelho de hoje, a opção preferencial pelos pobres é visível nas palavras de Jesus. Nós selecionamos. Deus não seleciona. É Pai. Todos são filhos. Porém, a primazia neste reino novo são os que não tem lugar à mesa dos reinos deste mundo, excluídos, pobres, doentes, pecadores, publicanos, mulheres, crianças, estrangeiros.
       “Quando ofereceres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos nem os teus irmãos, nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos, não seja que eles por sua vez te convidem e assim serás retribuído. Mas quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos”.
       Optar não é excluir. Nem discriminar. Deus não faz aceção de pessoas. Jesus mostra-o bem com a postura que assume. Foi convidado por um fariseu reconhecido e aceitou o convite. Naquele tempo, só alguns, poucos, podiam oferecer um banquete. Sendo convidado, Jesus não Se faz rogado, nem pergunta pelo bilhete de identidade. Se é Sua a iniciativa aproxima-se dos mais frágeis.
       Falando de convidar e de convidados. Convidamos as pessoas de quem gostamos, familiares, amigos, sabendo à partida que nos retribuirão, ou convidamos já a retribuir outro convite anterior. É claro que também convidaremos pessoas de quem gostamos e que não nos poderão retribuir.
       Jesus não retribui. Os convites que Lhe são feitos tem diversas motivações: amizade, agradecimento, mas também pela fama de que desfruta. Jesus não tem meios económicos para retribuir. Nem Ele nem os discípulos. Vivem da boa vontade alheia, do apoio de algumas mulheres bem colocadas, dos amigos e das famílias dos discípulos.
       Jesus retribui. Não do mesmo jeito, mas de um jeito maior. O banquete de Jesus é para sempre. Abre-nos as portas da eternidade. Não para compensar os banquetes para os quais foi convidado, mas por infinito Amor, porque sim, porque assim é o Ser e o Agir do Pai. Assim é o Ser e o Agir de Jesus. O convite é para todos, a começar pelos pequeninos. Condições: amar e servir!
       2 – Numa festa mais formal, hoje em dia, há lugares marcados. Previamente, os noivos, os pais da criança batizada, o protocolo, distribuem os convidados por diferentes mesas e espaços. Para não haver situações de embaraço na hora de sentar, os lugares são previamente marcados, pelo que basta consultar a respetiva lista de distribuição. Facilmente imaginaremos, uma pessoa a ter que sair do lugar para aquela família ficar junta, ou para se sentar aquele amigo, pois nas outras mesas não é conhecido de ninguém. Se o ambiente for familiar, será fácil resolver estas minudências.
       A presença de Jesus faz-se notar. É um personagem "excêntrico", diferente. Um profeta ou um mendigo? Veste como galileu. Roupas simples. E simples é o Seu olhar e a Sua postura. Observam-n'O. Deixa-Se ver, deixa-Se tocar, está no meio do povo! Não está à margem, não tem um grupo de guardas a protegê-l'O. A Sua proteção é o Pai e a ligação de amor que com Ele mantém em permanência. Espera pela Sua vez. Vê que os convidados procuram o melhor lugar.
       Aproveita a situação e conta-lhes uma parábola: «Quando fores convidado para um banquete nupcial, não tomes o primeiro lugar. Pode acontecer que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu; então, aquele que vos convidou a ambos, terá que te dizer: ‘Dá o lugar a este’; e ficarás depois envergonhado, se tiveres de ocupar o último lugar. Por isso, quando fores convidado, vai sentar-te no último lugar; e quando vier aquele que te convidou, dirá: ‘Amigo, sobe mais para cima’; ficarás então honrado aos olhos dos outros convidados. Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado».
       De novo a opção pela humildade. No reino de Deus, preconizado por Jesus, não há disputas de lugares, mas de serviço. Entre vós, quem quiser ser o maior, seja o servidor de todos. Quem quiser ser o primeiro, seja o último, seja aquele que serve. A disputa é ao nível do serviço e do amor.
       3 – A recomendação de Ben Sirá, o sábio de Israel, vem no mesmo sentido: «Filho, em todas as tuas obras procede com humildade e serás mais estimado do que o homem generoso. Quanto mais importante fores, mais deves humilhar-te e encontrarás graça diante do Senhor. Porque é grande o poder do Senhor e os humildes cantam a sua glória. A desgraça do soberbo não tem cura, porque a árvore da maldade criou nele raízes. O coração do sábio compreende as máximas do sábio e o ouvido atento alegra-se com a sabedoria».
       A humildade e a sabedoria são irmãs. A ignorância e a arrogância são irmãs. A humildade abre-nos aos outros e leva-nos a procurar melhorar, aprender, corrigir. A prepotência e a soberba encerram-nos no nosso egoísmo e orgulho, levando-nos a pensar que somos melhores do que todos e, se não precisamos de ninguém, acabaremos por ser engolidos pelo cinismo e pela burrice!
       Refira-se que a humildade não visa o reconhecimento, pois se me faço humilde para que os outros me aplaudam, chamem-lhe outra coisa, mas certamente não é humildade. A humildade assume-se numa atitude de natural generosidade, benevolência, ao serviço dos outros. Ben Sirá incentiva aqueles que têm mais poder (humano) a serem ainda mais humildes. O lugar que ocupam não os deve ensoberbecer, pelo contrário, deve levá-los a usar o poder e a sabedoria para melhor servirem os demais. Isto agrada ao Senhor. É mandamento divino que nos torna mais humanos.
       4 – A grandeza e o poder Jesus Cristo, Rei do universo, Filho de Deus, manifestam-se na Encarnação, no abaixamento, esvaziando-Se de Si, para nos dar Deus, para nos dar o Céu, a eternidade do Pai. No Seu imenso amor, assume-Se frágil, pequeno, pobre, faz-Se pecado por nós, para nos engrandecer, para nos redimir, para nos elevar à estatura de filhos amados de Deus.
       Ele é tão grande, que Se faz tão pequenino. Deixa-Se pegar ao colo e deixa-Se matar!
       Na Epístola aos Hebreus o autor sagrado lembra-nos como nos aproximamos do mistério de Deus, já não em imagem, mas na realidade da salvação presente em Jesus Cristo e que Ele nos concedeu em abundância, pela Sua morte e ressurreição, agrafando-nos à glória do Pai.
       «Vós aproximastes-vos do monte Sião, da cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste, de muitos milhares de Anjos em reunião festiva, de uma assembleia de primogénitos inscritos no Céu, de Deus, juiz do universo, dos espíritos dos justos que atingiram a perfeição e de Jesus, mediador da nova aliança»
       Próximos de Deus, na mediação plena e amorosa de Jesus, não cessemos de implorar a bênção e a misericórdia do Pai. «Deus do universo, de quem procede todo o dom perfeito, infundi em nossos corações o amor do vosso nome e, estreitando a nossa união convosco, dai vida ao que em nós é bom e protegei com solicitude esta vida nova» (Coleta).
       Que a obra de Deus em nós começada, pelo batismo, pela água e pelo Espírito, seja por Ele em nós fortalecida. Que a nossa vida e as nossas escolhas não impeçam a graça de Deus, não sejamos opacos, mas transpareçamos o Evangelho da Alegria e da Caridade.

       5 – Em Santo Agostinho – cuja memória se celebra hoje, Padroeiro secundário da Diocese de Lamego – podemos encontrar um testemunho de vida, cuja conversão clarifica a abertura a Deus e a humildade, reconhecendo as suas imperfeições, a sua pequenez diante da misericórdia de Deus. Na juventude distanciou-se da fé e vivência cristã da sua Mãe, Santa Mónica, para, depois, se deixar converter a Jesus e ao Seu Evangelho, fazendo-Se pequeno.
       Para Santo Agostinho, a salvação é dom que necessita do nosso aval. Deus criou-nos sem nós mas não nos salva sem nós, sem o nosso assentimento, a nossa adesão à Sua misericórdia. O único bloqueio à misericórdia de Deus não é o nosso pecado ou a nossa fragilidade humana, é o nosso fechamento e recusa em acolher Deus. Basta que abramos uma brecha e Deus atua, salvando-nos.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (C): Sir 3, 19-21. 30-31; Sl 67 (68); Hebr 12, 18-19. 22-24a; Lc 14, 1. 7-14.

Santa Mónica, Mãe de Santo Agostinho

       Santa Mónica, natural de Tagaste, em África, é conhecida como Mãe de Santo Agostinho.
        Terá nascido pelo ano 331. Foi criada/educada com uma escrava, o que significa que deveria ser filha de nobres, recebendo uma educação rígida, também ao nível religioso.

        Não se sabe muito da sua infância ou juventude. Casou-se com Patrício, aos 17 ou 18 anos. Tinha um certo estatuto social mas parece que Santa Mónica não se sentia feliz, tendo que suportar as infidelidades do marido e um temperamento violento. Conseguiu que o marido se convertesse ao cristianismo. Morrendo o marido, ela dedicou-se por inteiro aos filhos.

        Para Santo Agostinho, e segundo ele próprio, ela foi o alicerce que o conduziu à fé verdadeira, convertendo-o ao cristianismo. Mónica rezava constantemente, com lágrimas, pela conversão do filho.

        Deu sempre uma grande testemunho de boa esposa e boa mãe, procurando educar os seus três filhos, Agostinho, Navigius e Perpétua, na grandeza do cristianismo.

        Santo Agostinho olha para a mãe como santificadora, mas salientando o fardo feminino que carrega. A dimensão positiva do sexo feminino era representada por Maria
, Mãe de Deus, e a parte negativa, que se entrega à tentação, por Eva. Assim foi vista santa Mónica por seu filho e pela  Igreja Católica.

        Morreu com 56 anos, pelo ano de 387,
em Ostia, o ano da conversão do seu filho. O seu corpo foi descoberto no ano de 1430 e trasladado para Roma. Foi reconhecida pela Igreja como Santa, não por ter realizado milagres, mas por ter conseguido a conversão de Santo Agostinho, ensinando-lhe os ideais cristãos.

        É padroeira das mães.
Oração (de coleta);
       Senhor nosso Deus, consolação dos que choram, Vós que atendestes misericordiosamente as lágrimas de Santa Mónica pela conversão do seu filho Agostinho, concedei-nos, pela intercessão da mãe e do filho, que saibamos chorar os nossos pecados para alcançar a graça do vosso perdão. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Santo Agostinho, bispo

Procuremos alcançar a sabedoria eterna

Ao aproximar se o dia em que ela ia partir desta vida – dia que Vós conhecíeis, mas nós ignorávamos – sucedeu, segundo creio, por disposição de vossos secretos desígnios, que nos encontrámos sozinhos, eu e ela, encostados a uma janela, cuja vista dava para o jardim interior da casa que nos hospedava, em Óstia, onde, afastados das multidões, depois da fadiga de uma longa viagem, retemperávamos as forças, antes de embarcarmos. Conversávamos a sós muito suavemente e, esquecendo o passado e voltando nos para o futuro, interrogávamo-nos mutuamente, à luz da Verdade presente, que sois Vós, qual seria a vida eterna dos Santos, que nem os olhos viram nem os ouvidos escutaram nem jamais passou pelo pensamento do homem. Mas os nossos corações suspiravam pela corrente celeste, que brota da vossa fonte, a fonte de vida, que está em Vós.
Assim falava eu, embora não por este modo e por estas palavras; contudo bem sabeis, Senhor, quanto o mundo e os seus prazeres nos pareciam vis naquele dia em que assim conversávamos. Minha mãe acrescentou ainda: «Filho, quanto a mim, já nada me dá gosto nesta vida. Não sei o que faço ainda aqui, porque já nada espero deste mundo. Havia só uma razão pela qual eu desejava prolongar um pouco mais esta vida: ver-te cristão católico, antes de eu morrer. Deus concedeu me esta graça de modo superabundante, pois vejo que já desprezas a felicidade terrena para servires o Senhor. Que faço eu ainda aqui?».
Não me lembro bem do que lhe respondi a respeito destas palavras. Entretanto, passados cinco dias ou pouco mais, ela caiu de cama com febre. Num daqueles dias da sua doença, perdeu os sentidos e durante um curto espaço de tempo não dava acordo dos presentes. Acorremos logo e depressa recuperou os sentidos. Vendo nos de pé, junto de si, a mim e ao meu irmão, disse-nos como quem procura alguma coisa: «Onde estava eu?».
Depois, vendo nos atónitos de tristeza, disse: «Sepultareis aqui a vossa mãe». Eu estava calado e tentava conter as lágrimas. Meu irmão, porém, proferiu algumas palavras, mostrando a preferência de que ela não morresse em país estranho, mas na sua pátria. Ouvindo isto, fixou nele um olhar cheio de angústia, censurando o por pensar assim e, olhando depois para mim, disse: «Repara no que ele diz». E em seguida disse para ambos: «Sepultai este corpo em qualquer parte e não vos preocupeis com ele. Só vos peço que vos lembreis de mim diante do altar do Senhor, onde quer que estejais». Tendo feito esta recomendação com as palavras que pôde, calou se. Entretanto agravava-se a enfermidade e o sofrimento prolongava-se.
Finalmente, no nono dia da sua doença, aos cinquenta e seis anos de idade e no trigésimo terceiro da minha vida, aquela alma piedosa e santa libertou se do corpo.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Limpai primeiro o interior do copo

       Disse Jesus: «Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque pagais o dízimo da hortelã, do funcho e do cominho, mas omitis as coisas mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Devíeis praticar estas coisas, sem omitir as outras. Guias cegos! Coais o mosquito e engolis o camelo. Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, que por dentro estão cheios de rapina e intemperança. Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo» (Mt 23, 23-26).
       A incidência de Jesus na crítica a alguns costumes dos fariseus e escribas faz-nos lembrar as palavras dos profetas de Israel em que, progressivamente, alertam para o facto das tradições e rituais, exteriores, só por si, nada valerem. O que conta, diante de Deus, é a conversão interior, a adesão firme à vontade de Deus, a prática do bem, da justiça, da caridade.
       Jesus insiste na prioridade de limpar o interior do copo, isto é, purificar o coração, a mente, os desejos, os pensamentos, a vontade. Podemos ser cumpridores dos mínimos garantidos, mas sem caridade, sem alma, sem a atenção e o cuidado ao nosso semelhante, de nada nos adianta. Seremos cristãos por fora, exteriormente, como vestuário que trocamos conforme a ocasião. Mas a nossa veste interior é Cristo, o amor e o perdão, o serviço ao outro, o dar a vida pelo irmão.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Paróquia de Pinheiros: Festa do Emigrante 2016

        Ainda na idade infantil, a Festa do Emigrante começa a ser tradição, congregando a comunidade paroquial com os residentes, com os familiares que se encontram espalhados pelo país e pelo mundo. Esta é uma altura propícia para passarem um tempo de descanso e de carregar energias na terra natal. Com efeito, os meses de julho e de agosto são os que trazem mais emigrantes.
       O dia de festa começou, como habitualmente, com a celebração da Santa Missa, seguindo-se procissão sob o patrocínio de Santa Eufémia, com passagem obrigatória no cemitério, onde se rezou por todos os familiares e amigos aí sepultados e, neste dia, em especial pelos emigrantes que já partiram para a Casa do Pai.
       A Procissão regressou à Igreja Matriz, seguindo-se um tempo de confraternização, no Cabeço dos Pombos, com o almoço oferecido pela Junta de Freguesia e com o Bar a promover receitas para a Festa de Santa Eufémia. Durante a tarde, espaço para a animação musical.
       Algumas fotos da Festa do Emigrante 2016.

Para outras fotos disponíveis, visitar a Paróquia de Pinheiros no Facebook.

domingo, 21 de agosto de 2016

Leituras: FÁTIMA LOPES - UM PEQUENO GRANDE AMOR

FÁTIMA LOPES (2009). Um pequeno grande amor. Lisboa: A Esfera dos Livros. 280 páginas.
       A conhecida apresentadora, tal como os programas que, ao longo dos anos, apresenta, também na escrita vem ao de cima a sensibilidade de mãe, de mulher, com uma preocupação muito humanista de escutar a vida, a história, as pessoas, respeitando, acolhendo, procurando dar pistas de discernimento, de decisão e de de luta.
       Este não é um livro fácil. Por certo. O tema retratado, em forma de romance, já na sua 17.ª edição, é por demais complexo, mas um tema muito relevante e que afeta muitas famílias. A vida atual colocou a descoberto a delicadeza dos filhos com pais separados. Porque há mais separações. Porque há uma maior exposição de casos específicos na comunicação social. Porque haverá uma maior preocupação por escutar as crianças e adolescentes. Porque há quem se preocupe.
       Antigamente não havia tantas separações, pelo que a questão dos filhos também não se colocava. Por outro lado, quando os filhos se tornaram "pedra de arremesso" entre marido e mulher, com os casos a chegarem à barra dos tribunais, tudo se tornou mais evidente e mais preocupante. Há casos dramáticos. As separações muitas delas são dramática, porque um dos dois não aceita, não compreende, tem outros interesses, não admite ser "deixado/a". Vêm as questões a um tempo, os bens materiais, a chantagem emocional. Os filhos entram nas disputas, ora por eles mesmo, pois o amor e ligação é forte e não se querem separar, ora para culpabilizar o outro pelo sofrimento infligido à criança ou ao adolescente, a exigência de contrapartidas, o dificultar da relação, afastando o/a filho/a de um dos pais, culpabilizando, dizendo mal do/o pai/mãe, porque foi embora, porque traiu, porque não quer saber.
       Os filhos são ainda os que mais sofrem. Mas não tem necessariamente que ser assim. O que separa os pais não tem que ser motivo para separá-los dos filhos, nem podem ser pedra de arremesso, nas disputas da custódia ou de outros interesses económicos ou sociais.
       A preocupação de Fátima Lopes, depreende-se deste livro, é ajudar a encontrar soluções de respeito, tolerância, apontando para o superior interesse da criança, do adolescente, do jovem.
       Gonçalo e Estela são os dois protagonistas desta história. Hão conhecer-se na escola quando falam de fins de semanas com o pai ou com a mãe. Gonçalo é uma prioridade para a mãe, que depois do seu nascimento, decidiu ser feliz, mas o marido não aceita de todo a separação e vai tentar virar o filho contra a mãe, insultando-a constantemente. Estela fica confiada a mãe, que não lhe liga nenhuma, o que quer é que o ex-marido lhe mantenha um padrão de vida elevado; para não criar disputas, o pai de Estela deixa que o tempo passe, para que Estela não seja a "pedra de arremesso".
       Fátima Lopes faz-nos um retrato luminoso sobre a separação dos pais, como refere desde o início, com a ajuda de pessoas ligadas a casos de situações semelhantes. Não fala muito de juízes, tribunais ou polícias, com o desejo que os pais reflitam e procurem juntos o bem dos filhos.
       A propósito, sobre separações, com a questão dos filhos também presentes, e com gravidezes para "obrigar" o outro a permanecer, valerá a pena ler: Vai valer a Pena, de Joaquim Quintino Aires.

Recomendamos também: A Viagem de Luz e Quim.

sábado, 20 de agosto de 2016

XXI Domingo do Tempo Comum - C - 21.agosto.2016

       1 – Jesus coloca-nos em movimento, por aldeias e cidades, para chegar o mais longe possível e ao maior número de pessoas. Os encontros e as palavras, os gestos e os prodígios, a postura, transparecem a Misericórdia do Pai, a sintonia de Jesus com a vontade paterna, o propósito de escancarar as portas do Reino de Deus, convidando todos para o banquete divino. Jesus revela-nos, concretizando, a filiação divina e assume-nos como irmãos. Se irmãos também filhos do mesmo Pai.
       Alguém O questiona: «Senhor, são poucos os que se salvam?».
       Há duas semanas, depois de Jesus ter contado a parábola sobre a vigilância dos servos na ausência do seu senhor, Pedro pergunta-Lhe se as recomendações também lhes diziam respeito. A resposta de Jesus é concludente: «A quem muito foi dado, muito será exigido; a quem muito foi confiado, mais se lhe pedirá» (Lc 12, 32-48).
       Quando Jesus fala é para nós que fala. Para mim e para ti. Nunca para os outros. Ele chama-nos, desafia-nos, envolve-nos. Cabe-nos, a mim e a ti, responder. Seguimo-l'O? Aceitamos as Suas propostas? Procuraremos realizar o Seu mandato de amor, de perdão e de vida nova?
       Também hoje a resposta é clarificadora: «Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir. Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta, vós ficareis fora e batereis à porta, dizendo: ‘Abre-nos, senhor’; mas ele responder-vos-á: ‘Não sei donde sois’. Então começareis a dizer: ‘Comemos e bebemos contigo e tu ensinaste nas nossas praças’. Mas ele responderá: ‘Repito que não sei donde sois. Afastai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade’. Aí haverá choro e ranger de dentes, quando virdes no reino de Deus Abraão, Isaac e Jacob e todos os Profetas, e vós a serdes postos fora. Hão-de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus. Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos».
       2 – «Nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino do Céu, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está no Céu» (Mt 7, 21). Os propósitos são importantes. As promessas, a palavra dada, as intenções. Se ficarmos apenas nas intenções… De intenções está cheio o inferno! 
       São Tiago, numa belíssima página do Novo Testamento, é contundente: «Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me então a tua fé sem obras, que eu, pelas minhas obras, te mostrarei a minha fé... Porque quem não pratica a misericórdia será julgado sem misericórdia... Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta» (Tg 2, 13.17.18).
       Numa outra página, esta do Evangelho, Jesus, em mais uma luminosa parábola, mostra que as palavras só por si não nos justificam. Um homem tinha dois filhos. A ambos chama para o ajudarem na vinha. O primeiro, de pronto, diz que não. Mas o rebate na consciência levam-no a apresentar-se junto do pai para ajudar. O outro filho disse sim, prontamente, amável, simpático, mas não mexeu os pés para ir para a vinha. Qual cumpriu a vontade do pai? – Pergunta Jesus. Cumpriu aquele que foi para a vinha, mesmo que inicialmente se mostrasse indisponível (cf. Mt 21, 28-32).
       Podemos conhecer Jesus. O demónio também O conhece e nem por isso é Seu discípulo. Não basta termos o nome de cristãos. É necessário que a nossa vida se faça segundo os critérios do Evangelho. Docilidade, delicadeza, caridade, serviço, pobreza, perdão, partilha, comunhão.
       O convite é para todos. Mas podemos ser excluídos. Por que Deus nos exclui? Nem pensar! Deus inclui-nos a todos. Porém, podemos recusar a Sua vida e a Sua vontade para nós.
        3 – Neste Jubileu da Misericórdia somos convidados a entrar pela Porta da Misericórdia, que é Jesus. Ele é a Porta que nos conduz ao Pai. É o Rosto e a Presença e o Agir de Deus. Próximo. Atento a todos, especialmente aos mais frágeis, aos pobres, pecadores, mulheres, aos doentes, às crianças, aos publicanos, aos estrangeiros, atento a todos os que precisam de ser amados, reconhecidos, acolhidos, incluídos na sociedade e sobretudo na vida.
       Jesus age com ternura, compadecendo-Se e levantando, como Bom Samaritano, todo o homem que se encontra caído, abatido, ferido. Abaixa-Se para nos poder ver de perto, nos poder amar e abraçar, para nos poder erguer e elevar, para poder cuidar de nós e sarar o que nos afasta dos outros.
       Cabe-nos abrir os braços, o coração e a vida para O acolhermos. Acolhemo-l'O sempre e quando acolhemos, amamos e servimos os outros. Ele deixa-Se ver, amar, deixa-Se seguir, prender, agredir, deixa-Se matar. Mas não deixa que o Seu amor por nós se esbata, se perca ou desapareça. Hoje, como ontem, Ele deixa-Se encontrar porque primeiro veio ao nosso encontro. Confunde-Se connosco. Mistura-se no meio de nós. É um de nós. É Um connosco.
       A tia Maria rezava muito a Jesus. Conhecemos a estória. Certa vez, através de um Anjo, Jesus disse-lhe que viria visitá-la no dia seguinte. Atarefou-se, limpou toda a casa. Deixou cada divisão um brinquinho. Pôs os melhores tapetes, colocou as novas cortinas. Preparou uma refeição requintada: aperitivos, o melhor prato que sabia fazer, variadas sobremesas, e o melhor conjunto de pratos, talheres e copos. Vestiu a melhor roupa. Uma flor no cabelo. O perfume para os dias de festa. Bateram à porta. Com o coração a saltar do corpo, foi abrir. Era um pobre pedinte, que passava de vez em quando. Entre. Como tem passado? Já não o via há algum tempo… Sente-se, tenho a mesa posta, estou à espera de Jesus. Coma do que quiser, chega para todos… Veio, depois, a vizinha. Que quererá desta vez? Pobre mulher, tão nova e com tantas dificuldades. Vem desabafar as mágoas. Sente-se aqui, a mesa está posta, comemos qualquer coisa em quanto falamos. Hoje fiz um banquete, Jesus vem visitar-me! O dia vai avançando e mais alguém bate à porta, não bate, entra esbaforido. É o Chico. Quer brincar, mas os meus filhos ainda não chegaram da escola. Entra, antes de brincarmos, vamos lanchar. Tenho várias sobremesas que vais gostar! Provou de tudo. E finalmente, as brincadeiras, até que os pais o vieram buscar. A Tia Maria tinha agora algum tempo para descansar. Adormeceu no sofá. Quando acordou viu um bilhete perfumado, escrito em letras douradas: “Obrigado, Maria, por Me acolheres, Me dares de comida, por Me escutares e por brincares comigo. Gostei muito deste dia contigo. Obrigado. Bons sonhos. O teu amigo, Jesus”.
        4 – Esforcemo-nos por entrar na porta estreita. Nas palavras de Santo Agostinho, a porta é estreita não porque Deus é estreito mas porque são muitas as pessoas que passam por ela. Cabe-nos percorrer a Porta estreita e torná-la ainda mais estreita porque atraímos outros para entrarem.
       Não nos cabe ajuizar os caminhos percorridos ou os atalhos a percorrer. Cabe-nos fazer o que está ao nosso alcance, procurando viver as Palavra de Cristo, adequando a nossa vida aos ideais do Evangelho, deixando um rasto de bem. O mais será com Deus, que também se serve de nós.
       O profeta Isaías estava ciente da benevolência e da grandeza do coração de Deus: «Eu virei reunir todas as nações e todas as línguas, para que venham contemplar a minha glória... De todas as nações, como oferenda ao Senhor, eles hão de reconduzir todos os vossos irmãos, em cavalos, em carros, em liteiras, em mulas e em dromedários, até ao meu santo monte, em Jerusalém».
       O propósito dos cristãos é o louvor e a glória de Deus, na certeza, como sublinhou Santo Ireneu, que a glória de Deus é o homem vivo. Glorificamos Deus com a nossa vida, procurando viver com alegria e responsabilidade, estreitando os laços que nos unem mutuamente. De todos os povos e nações, vamos ao monte do Senhor, vamos ao Seu encontro para formarmos um só Povo.
       "Senhor Deus, que unis os corações dos fiéis num único desejo, fazei que o vosso povo ame o que mandais e espere o que prometeis, para que, no meio da instabilidade deste mundo, fixemos os nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias".

       5 – Na segunda leitura, da Epístola aos Hebreus, a certeza que Deus nos ama como Pai e nos quer como filhos bem-amados. O autor invetiva-nos: «Deus trata-vos como filhos. Qual é o filho a quem o pai não corrige? Nenhuma correção, quando se recebe, é considerada como motivo de alegria, mas de tristeza. Mais tarde, porém, dá àqueles que assim foram exercitados um fruto de paz e de justiça. Por isso, levantai as vossas mãos fatigadas e os vossos joelhos vacilantes e dirigi os vossos passos por caminhos direitos, para que o coxo não se extravie, mas antes seja curado».
       Por certo também já fizemos esta experiência. Quem te avisa teu amigo é. Por vezes dececionamo-nos perante os avisos e os fracassos. Há aqueles que nos repreendem pelo gozo que lhes dá verificarem a nossa fragilidade, contentam-se com as desgraças alheias porque ainda não conseguem encontrar nas suas vidas razões para serem felizes. Mas há outros que nos querem bem e se nos alertam é para nos protegerem e nos ajudarem a seguir por um caminho mais favorável. Neste número estão os nossos pais e os nossos amigos verdadeiros.
       A Palavra de Deus guia-nos para o bem, comprometendo-nos na construção de um mundo fraterno, em que todos nos reconheçamos como irmãos e cuidemos uns dos outros.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (C): Is 66, 18-21; Sl 116 (117); Hebr 12, 5-7. 11-13; Lc 13, 22-30.

Leituras: ELIE WIESEL - NOITE

ELIE WIESEL (2016). Noite. Lisboa: Texto Editores. 136 páginas.

       Elie Wiesel sobreviveu para contar os horrores vividos nos Guetos de Sighet e depois nos campos de extermínio. Até ao fim, a ameaça permanente à vida. Para lá de todo o sofrimento infligido, a humilhação, os trabalhos forçados, a tortura, a fome, a sede, o tratamento desumano a que estavam sujeitos, a desinformação, a pressão psicológica, retirando toda a esperança. Momentos em que as forças faltas, o ânimo está de restos e só resta confiar-se à morte. Há momentos que chegam (quase) à loucura e outros enlouquecem de verdade, ao ponto de não saberem quem são, pelos horrores presenciados, pela impossibilidade de descansar em segurança, pela morte à frente, ao lado, atrás, vizinhos, amigos, família.
       É um texto comovente, pois se percebe com clareza os horrores perpetrados pelos nazis, o controlo do corpo e da mente, semeando a divisão entre membros do mesmo povo, para que uns possam guardar, vigiar, controlar os outros.
       Na contracapa, breve retrato do autor: "Nascido no seio de uma família judia na Roménia, Elie Wiesel era adolescente quando, justamente com a família, foi empurrado para um vagão de carga  e transportado, primeiro para o campo de extermínio, Auschwitz, e, depois, para Buchenwald. Este é o aterrador e íntimo relato do autor sobre os horrores que passou, a morte dos pais e da irmã de apenas 8 anos, e da perda da inocência a mãos bárbaras. Descrevendo com grande eloquência o assassínio de um povo, do ponto de vista de um sobrevivente, Noite faz parte dos mais pessoais e comovedores relatos sobre o Holocausto, e oferece uma perspetiva rara ao lado mais negro da natureza humana".
A fé em Deus é posta em questão. Não tanto a existência em Deus, mas a discussão com Ele, que não ouve, e Se mantém em silêncio perante tanta violência. Alguns judeus ficam chateados com Deus, como se revoltam por que não conseguem perdoar-Lhe a distância e/ou a indiferença. Também neste aspeto, é um testemunho de fé provada pela vida, pelos horrores da fome, da humilhação, a dignidade que lhes foi roubada.


Algumas expressões do autor:
"Nunca esquecerei aquela noite, a primeira noite no campo, que fez da minha vida uma noite longa e sete vezes aferrolhada.
Nunca esquecerei aquele fumo.
Nunca esquecerei os pequeninos rostos das crianças cujos corpos eu vi transformarem-se em espirais sob um céu mudo.
Nunca esquecerei aquelas chamas que consumiram para sempre a minha Fé.
Nunca esquecerei aquele silêncio noturno que me provou para a eternidade, do desejo de viver.
Nunca esquecerei aqueles momentos qua assassinaram o meu Deus e a minha alma, e que transformaram os meus sonhos em cinza.
Nunca esquecerei, mesmo que tenha sido condenado a viver tanto tempo quanto o próprio Deus.
Nunca".
Em Auschwitz, depois de uma correria louca, o responsável pelo bloco em que ficaram, um jovem polaco diz-lhes:
“Camaradas, encontram-se no campo de concentração de Auschwitz. Um longo caminho repleto de sofrimento espera-vos. Mas não percam a coragem. Já escaparam ao perigo mais grave: a seleção. Reúnam as vossas forças e não percam a esperança. Todos veremos chegar o dia da libertação. Tenham confiança na vida, mil vezes confiança. Afastem o desespero e assim afastarão de vós a morte. O inferno não dura para sempre… E, agora, uma prece que é mais um conselho: qua a camaradagem reine entre vós. Somos todos irmãos e sofremos o mesmo destino. O mesmo fumo flutua sobre as nossas cabeças. Ajudem-se uns aos outros. É a única maneira de sobreviverem”.
“Alguns falavam de Deus, dos Seus caminhos misteriosos, dos pecados do povo judeu e da libertação futura. Quanto a mim, tinha deixado de rezar. Como estava parecido com Job! Não tinha negado a Sua existência, mas duvidava da Sua justiça absoluta.
Akiba Drumer dizia: Deus põe-nos à prova. Quer ver se somos capazes de dominar os maus instintos, de matar o Satanás que existe em nós. Não temos o direito de desesperar. E se Ele nos castiga impiedosamente é sinal de que nos ama ainda mais”.
Três condenados ao enforcamento. Os dois adultos gritaram – viva a liberdade. O pequeno manteve-se calado.
“Onde está o Bom Deus, onde está Ele? – Perguntou alguém atrás de mim…
Ainda estava vivo quando passei diante dele. A sua língua ainda estava vermelha, os seus olhos tinham ainda uma centelha de vida.
Atrás de mim, ouvi o mesmo homem perguntar:
– Onde está Deus, então?
E eu senti dentro de mim uma voz que lhe respondia:
– Onde é que Ele está? Ei-lo… está aqui pendurado nesta forca…
Naquela noite, a sopa sabia a cadáver”.
“Pobre Akiba Drumer! Se tivesse podido continuar a acreditar em Deus, a ver neste calvário um aprova de Deus, não teria sido levado pela seleção. Mas a partir do momento em que tinha sentido as primeiras brechas na sua fé, tinha perdido as suas razões para lutar e tinha começado a agonizar”

Audiência de Bento XVI sobre São Bernardo de Claraval


Queridos irmãos e irmãs!

Hoje gostaria de falar de São Bernardo de Claraval, chamado "o último dos Padres" da Igreja, porque no século XII, mais uma vez, renovou e tornou presente a grande teologia dos Padres. Não conhecemos os pormenores os anos da sua infância; sabemos contudo que ele nasceu em 1090 em Fontaines na França, numa família numerosa e discretamente abastada. Ainda jovem, prodigalizou-se no estudo das chamadas artes liberais – especialmente da gramática, da retórica e da dialéctica – na escola dos Cónegos da igreja de Saint-Vorles, em Châtillon-sur-Seine e amadureceu lentamente a decisão de entrar na vida religiosa. Por volta dos vinte anos entrou em Cîteaux, uma fundação monástica nova, mais ativa em relação aos antigos e veneráveis mosteiros de então e, ao mesmo tempo, mais rigorosa na prática dos conselhos evangélicos. Alguns anos mais tarde, em 1115, Bernardo foi enviado por Santo Estêvão Harding, terceiro Abade de Cîteaux, para fundar o mosteiro de Claraval (Clairvaux). Aqui o jovem Abade, tinha apenas vinte e cinco anos, pôde apurar a própria concepção da vida monástica, e empenhar-se em pô-la em prática. Olhando para a disciplina de outros mosteiros, Bernardo recordou com decisão a necessidade de uma vida sóbria e comedida, tanto à mesa como no vestuário e nos edifícios monásticos, recomendando o sustento e a atenção aos pobres. Entretanto a comunidade de Claraval tornava-se cada vez mais numerosa, e multiplicava as suas fundações.

Nestes mesmos anos, antes de 1130, Bernardo iniciou uma ampla correspondência com muitas pessoas, quer importantes quer de modestas condições sociais. Às muitas Cartas deste período é preciso acrescentar numerosos Sermões, assim como Sentenças eTratados. Remonta sempre a este tempo a grande amizade de Bernardo com Guilherme, Abade de Saint-Thierry, e com Guilherme de Champeaux, figuras entre as mais importantes do século XII. A partir de 1130, começou a ocupar-se de muitas e graves questões da Santa Sé e da Igreja. Por este motivo teve que sair cada vez mais do seu mosteiro, e por vezes da França. Fundou também alguns mosteiros femininos, e foi protagonista de um vivaz epistolário com Pedro o Venerável, Abade de Cluny, sobre o qual falei na quarta-feira passada. Dirigiu sobretudo os seus escritos polémicos contra Abelardo, um grande pensador que iniciou um novo modo de fazer teologia, introduzindo sobretudo o método dialéctico-filosófico na construção do pensamento teológico. Outra frente contra a qual Bernardo lutou foi a heresia dos Cátaros, que menosprezavam a matéria e o corpo humano, desprezando, por conseguinte, o Criador. Ele, ao contrário, sentiu-se no dever de assumir a defesa dos judeus, condenando as manifestações de anti-semitismo cada vez mais difundidas. Devido a este aspeto da sua ação apostólica, algumas dezenas de anos mais tarde, Ephraim, rabino de Bonn, dirigiu a Bernardo uma vivaz homenagem. Naquele mesmo período o santo Abade escreveu as suas obras mais famosas, como os celebérrimos Sermões sobre o Cântico dos Cânticos. Nos últimos anos da sua vida – a sua morte verificou-se em 1153 – Bernardo teve que limitar as viagens, sem contudo as interromper totalmente. Aproveitou para rever definitivamente o conjunto das Cartas, dos Sermões e dos Tratados. Merece ser mencionado um livro bastante particular, que ele terminou precisamente neste período, em 1145, quando um seu aluno, Bernardo Pignatelli, foi eleito Papa com o nome de Eugénio III. Nesta circunstância, Bernardo, como Padre espiritual, escreveu a este seu filho espiritual o texto De Consideratione, que contém ensinamentos para poder ser um bom Papa. Neste livro, que permanece uma leitura conveniente para os Papas de todos os tempos, Bernardo não indica apenas como desempenhar bem o papel de Papa, mas expressa também uma visão profunda do mistério da Igreja e do mistério de Cristo, que no final se resolve na contemplação do mistério de Deus trino e uno: "Deveria ainda prosseguir a busca deste Deus, que ainda não é bastante procurado", escreve o santo Abade "mas talvez se possa procurar melhor e encontrar mais facilmente com a oração do que com o debate. Ponhamos então aqui um ponto final no livro, mas não na pesquisa" (XIV, 32: PL 182, 808), no estar a caminho rumo a Deus.
Gostaria de me deter agora só sobre dois aspectos centrais da rica doutrina de Bernardo: eles referem-se a Jesus Cristo e a Maria santíssima, sua Mãe. A sua solicitude pela participação íntima e vital do cristão no amor de Deus em Jesus Cristo não contribui com novas orientações para o estatuto científico da teologia. Mas, de modo mais do que decidido, o Abade de Clairvauxconfigura o teólogo com o contemplativo e com o místico. Só Jesus – insiste Bernardo diante dos complexos raciocínios dialécticos do seu tempo – só Jesus é "mel para os lábios, cântico para os ouvidos, júbilo para o coração" (mel in ore, in aure melos, in corde iubilum)". Vem precisamente daqui o título, a ele atribuído pela tradição, de Doctor mellifluus: de facto, o seu louvor de Jesus Cristo "escorre como o mel". Nas extenuantes batalhas entre nominalistas e realistas – duas correntes filosóficas da época – o Abade de Claraval não se cansa de repetir que um só nome conta, o de Jesus de Nazaré. "Todo o alimento da alma é árido", confessa, "se não for aspergido com este óleo; insípido, se não for temperado com este sal. Aquilo que escreves para mim não tem sabor, se nisso eu não ler Jesus". E conclui: "Quando discutes ou falas, para mim nada tem sabor, se eu não ouvir ressoar nisso o nome de Jesus" (Sermones in Cantica Canticorum XV, 6: PL 183, 847). De facto, para Bernardo o verdadeiro conhecimento de Deus consiste na experiência pessoal, profunda de Jesus Cristo e do seu amor. E isto, queridos irmãos e irmãs, é válido para cada cristão: a fé é antes de tudo encontro pessoal, íntimo com Jesus, é fazer a experiência da sua proximidade, da sua amizade, do seu amor, e só assim se aprende a conhecê-lo cada vez mais, a amá-lo e a segui-lo sempre mais. Que isto se verifique com cada um de nós!

Noutro célebre Sermão no domingo entre a oitava da Assunção, o santo Abade descreve em termos apaixonados a íntima participação de Maria no sacrifício redentor do Filho. "Ó santa Mãe – exclama ele – deveras uma espada trespassou a tua alma!... A violência da dor trespassou de tal modo a tua alma, que justamente podemos chamar-te mais do que mártir, porque em ti a participação na paixão do Filho superou muito em intensidade os sofrimentos físicos do martírio" (14: PL 183, 437-438). Bernardo não tem dúvidas: "per Mariam ad Iesum", através de Maria somos conduzidos até Jesus. Ele testemunha com clareza a subordinação de Maria a Jesus, segundo os fundamentos da mariologia tradicional. Mas o corpo do Sermone documenta também o lugar privilegiado da Virgem na economia da salvação, após a particularíssima participação da Mãe (compassio) no sacrifício do Filho. Não por acaso, um século e meio depois da morte de Bernardo, Dante Alighieri, no último canto da Divina Comédia, colocará nos lábios do "Doutor melífluo" a sublime oração a Maria: "Virgem Mãe, filha do teu Filho, / humilde e nobre mais do que qualquer criatura, / termo fixo do eterno conselho,..." (Paraíso 33, vv. 1 ss.).

Estas reflexões, características de um apaixonado por Jesus e Maria como São Bernardo, provocam ainda hoje de modo saudável não só os teólogos, mas todos os crentes. Por vezes pretende-se resolver as questões fundamentais sobre Deus, sobre o homem e sobre o mundo unicamente com as forças da razão. São Bernardo, ao contrário, solidamente fundado na Bíblia e nos Padres da Igreja, recorda-nos que sem uma fé profunda em Deus, alimentada pela oração e pela contemplação, por uma relação íntima com o Senhor, as nossas reflexões sobre os mistérios divinos correm o risco de se tornarem uma vã prática intelectual, e perdem a sua credibilidade. A teologia remete para a "ciência dos santos", para a sua intuição dos mistérios do Deus vivo, para a sua sabedoria, dom do Espírito Santo, que se tornam ponto de referência do pensamento teológico. Juntamente com Bernardo de Claraval, também nós devemos reconhecer que o homem procura melhor e encontra mais facilmente Deus "com a oração do que com o debate". No final, a figura mais verdadeira do teólogo e de cada evangelizador permanece a do Apóstolo João, que apoiou a sua cabeça no coração do Mestre.

Gostaria de concluir estas reflexões sobre São Bernardo com as invocações a Maria, que lemos numa sua bonita homilia. "Nos perigos, nas angústias, nas incertezas – diz ele – pensa em Maria, invoca Maria. Que ela nunca abandone os teus lábios, nem o teu coração; e para obteres a ajuda da sua oração, nunca esqueças o exemplo da sua vida. Se a segues, não te podes desviar; se lhe rezas, não te podes desesperar; se pensas nela não podes errar. Se ela te ampara, não cais; se ela te protege, nada temes; se ela te guia, não te cansas; se ela te é propícia, alcançarás a meta..." (Hom. II super "Missus est", 17: PL 183, 70-71).

São Bernardo, abade e doutor da Igreja

       Nasceu numa família nobre da Borgonha, no castelo de Fontaine-lès-Dijon, Dijon, em França, sendo o terceiro de sete filhos, em 1090. Em 1112, entra para a Abadia de Cister, onde se torna monge. Convence parentes e amigos, e entra no mosteiro juntamente com mais 30 candidatos a monges.
       Poucos anos depois, em 1115, o Abade, Santo Estevão Harding, incumbe-o da missão de achar um lugar adequado para fundar um novo mosteiro, em Clairvaux, isto é, Claraval. São Bernardo assume o cargo de Abade de Claraval.
       Os primeiros tempos são difíceis. São Bernardo é muito exigente. Apoia-se na Sagrada Escritura e em Santo Agostinho. Muitas pessoas afluem à Abadia, e a própria família acaba convertida, o seu pai e os seus cinco irmãos tornam-se monges de Claraval. A sua irmã toma hábito no priorado de Jully-les-Nonnains.
       Em 1118 são formadas novas casas cistercienses, para responder à superlotação de Claraval.
       Começa então a escrever diversas cartas e homilias. Defende os beneditinos, cistercienses de hábito branco, contra os beneditinos de hábito negro, de Cluny. O Abade de Cluny responde-lhe amigavelmente e apesar das diferenças tornam-se amigos.
       Em 1128, participa no concílio de Troyes, sendo nomeado secretário do Concílio e consegue que seja aprovada a Ordem do Templo (Templários). Ganha grande notoriedade na Igreja. Conselheiro de Papas, Bispos e Reis.
       Em 1145, a abadia de Claraval dá um papa à Igreja, Eugénio III.
       Mostra uma grande devoção a Nossa Senhora. Deve-se-lhe a invocação final da Salvé Rainha, "Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria".
       São Bernardo fundou ao todo 72 mosteiros, em Espanha, Inglaterra, Irlanda, Flandres, Itália, Dinamarca, Suécia e Hungria. Morreu no dia 20 de Agosto de 1153, tinha 63 anos de idade.

Oração (de coleta):
       Senhor, que fizestes de São Bernardo, abade, inflamado no zelo da vossa casa, uma luz que na vossa Igreja arde e ilumina, concedei-nos, por sua intercessão, o mesmo fervor de espírito para vivermos sempre como filhos da luz. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
São Bernardo, sobre o Cântico dos Cânticos

Amo porque amo, amo para amar

O amor subsiste por si mesmo, agrada por si mesmo e por causa de si mesmo. Ele próprio é para si mesmo o mérito e o prémio. O amor não busca outro motivo nem outro fruto fora de si; o seu fruto consiste na sua prática. Amo porque amo; amo para amar. Grande coisa é o amor, desde que remonte ao seu princípio, que volte à sua origem, que torne para a sua fonte, que se alimente sempre da nascente donde possa brotar incessantemente. Entre todas as moções, sentimentos e afectos da alma, o amor é o único em que a criatura pode corresponder ao Criador, se não em igual medida, ao menos de modo semelhante. Com efeito, Deus, quando ama, não quer outra coisa senão ser amado: isto é, não ama por outro motivo senão para ser amado, sabendo que o próprio amor torna felizes os que se amam entre si.
O amor do Esposo, ou antes o Amor Esposo, não pede senão correspondência e fidelidade. A amada deve, portanto, retribuir com amor. Como pode a esposa não amar, sobretudo se é a esposa do Amor? Como pode o Amor não ser amado?
Com razão renuncia a qualquer outro afecto e se entrega total e exclusivamente ao Amor a alma consciente de que o modo de corresponder ao amor é retribuir com amor. Na verdade, mesmo quando toda ela se transforma em amor, que é isso em comparação com a torrente perene que brota daquela fonte? Evidentemente, não corre com igual abundância o caudal do amante e do Amor, da alma e do Verbo, da esposa e do Esposo, da criatura e do Criador; há entre eles a mesma diferença que entre a fonte e quem dela bebe.
Sendo assim, ficará sem qualquer valor e eficácia o desejo da noiva, o anseio de quem suspira, a paixão de quem ama, a esperança de quem confia, porque não pode acompanhar a corrida do gigante, igualar a doçura do mel, a mansidão do cordeiro, a beleza do lírio, o esplendor do sol, a caridade d’Aquele que é a caridade? Não. Porque embora a criatura ame menos, porque é menor, se todavia ela ama com todo o seu ser, nada fica por acrescentar. Nada falta onde está tudo. Por isso, este amor total equivale ao desposório, porque é impossível amar assim sem ser amado, e neste mútuo consentimento de amor consiste o autêntico e perfeito matrimónio. Quem pode duvidar de que a alma é amada pelo Verbo, antes dela e mais intensamente?
Fonte: Secretariado Nacional da Liturgia.
Pode ver a oração atribuída a São Bernardo e outros elementos sobre a sua vida, no nosso blogue.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

D. ANTÓNIO COUTO - A Misericórdia. Lugar e Modo

D. ANTÓNIO COUTO (2016). A Misericórdia. Lugar e Modo. Lavra: Autores e Letras e Coisas. 84 páginas.
       Vivemos o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, iniciado a 8 de dezembro de 2015, solenidade da Imaculada Virgem Maria, e a encerrar no dia 20 de novembro de 2016, solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. O propósito do Papa Francisco foi que se vincasse em definitivo e com clarividência a misericórdia de Deus. Num tempo e mundo complexos, a misericórdia de Deus há de resplandecer como proposta de salvação, como desafio, como esperança, como compromisso. Jesus é o Rosto da Misericórdia. Os cristãos devem alimentar-se da misericórdia de Deus e irradia misericórdia para com os outros, para com toda a criação.
       Com a convocação deste Ano Santo da Misericórdia, a reflexão à volta deste atributo de Deus e a sua fundamentação na bíblia, na história do povo judeu, na vida da Igreja.
       D. António Couto anteriormente publicou o Livro dos Salmos, já dentro deste Jubileu e com a referência que os salmos estudados têm com a Misericórdia de Deus. Porém, este novo estudo é especificamente sobre a Misericórdia.
       Em conferências, jornadas bíblicas, formação do clero e de leigos, D. António Couto tem intervindo sobre esta temática, com o enquadramento do jubileu, com as obras de misericórdia, com a contextualização litúrgica. Aqui coloca nas nossas mãos um estudo mais detalhado sobre a misericórdia, a linguagem da bíblia, a origem das palavras utilizadas, a misericórdia no Antigo Testamento, a misericórdia revelada em plenitude da Pessoa e na Mensagem de Jesus Cristo, com o Seu proceder, compassivo, com as parábolas da misericórdia que mostram o modo de ser de Deus.
       Este pequeno livro subdivide-se em três capítulos: 1 - Deus também reza em clave de misericórdia; 2 - A magna charta do amor de Deus (Ex 34, 6-7), e 3 - Jesus misericordioso, transparência da misericórdia do Pai.
"Deus fiel, fiável, Sim irrevogável, matriz fidedigna, maternal amor preveniente, condescendente, permanente, paciente, palavra primeira e confidente, providente, eficiente, a dizer-se sempre e para sempre dita, rochedo firme, abrigo seguro, alcofa para o nascituro, luz no escuro, amor forte sem medo da morte e do futuro. Deus fiel e confidente, fala, que o teu servo escuta atentamente. Nada do que dizes cairá por terra. A tua palavra à minha mesa, minha habitação, minha alegria, minha exultação, energia do meu coração, luz que me guia e que me alumia. A minha luz é reflexa, a minha palavra é lalação, de ti decorre, para ti corre a minha vida, dita, dada, recebida e oferecida. O teu rosto, Senhor, eu procuro, não escondas de mim o teu rosto, o teu gosto, a tua música. Dispõe de mim sempre, Senhor"

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Leitura: TOMÁŠ HALÍK - QUERO QUE TU SEJAS

TOMÁŠ HALÍK (2016). Quero que Tu sejas! Podemos acreditar no Deus do Amor. Prior Velho: Paulinas Editora. 272 páginas.
       "Tomáš Halík nasceu emm Praga atual República Checa, no ano de 1948. Licenciou-se em Sociologia, Filosofia e Psicologia na Universidade de Charles, Praga, nos inícios dos anos 70. Estudou Teologia, clandestinamente, na mesma cidade, estudo que continuou na Universidade Lateranense, em Roma, e na Faculdade Pontifícia de Teologia, em Wroclaw (Polónia). Durante a ocupação comunista, sendo perseguido como «inimigo do regime», trabalhou como psicoterapeuta de toxicodependentes. Foi clandestinamente ordenado sacerdote em Erfurt (Alemanha do Leste, em 1978, e trabalhou na «Igreja subterrânea», onde foi um dos assessores mais próximos do cardeal Tomášek".
       Na lombada interior da capa, breve apresentação, de Tomáš Halík, de quem já sugerimos outro belíssimo título - O MEU DEUS É UM DEUS FERIDO. Depois de ter escrito sobre fé e esperança, alguém lhe perguntou porque não escrevia sobre o amor. 
       O autor começa por fazer uma pergunta que habitualmente vamos fazendo, mas para a qual nem sempre encontramos uma resposta satisfatória: deonde vem o mal?. "É possível que hoje em dia nos tenhamos acostumado tanto ao mal, à violência e ao cisnismo, que façamos a nós próprios, com surpresa, outra pergunta: donde provém a ternura e a bondade?
       Ao longo do livro, enraizado na Sagrada Escritura, mas também na história, na experiência, na cultura, o autor vai mostrando que o amor é fonte de todo o bem e em todo o bem é possível encontra Deus de amor. Um dos fios condutores é apresentar o duplo mandamento, a interligação entre o amor a Deus e ao próximo como a si mesmo. Amar a Deus, amando o próximo. Deus está em nós. O amor habita-nos na identidade mais profunda, onde podemos encontrar Deus.
       Mais que uma resposta, Deus é pergunta. Não é um dado adquirido, mas sempre me transcende. Vai além de toda a compreensão humana, ainda que Se deixe ver em Jesus Cristo. "Os meus livros não são destinados àqueles que têm certeza absoluta de que compreendem perfeitamente o que significa o mandamento do amor a Deus. Esses certamente já têm a sua recompensa. Eu dirigo-me àqueles que buscam o significado dessas palavras, quer se considerem crentes... quase-crentes ou «antigos crentes»... incrédulos e agnósticos ou não crentes".

Algumas expressões:
"Associar os mandamentos do amor a Deus e o mandamento do amor uns aos outros - o núcleo do Evangelho - é a forma de redescobrir o Deus que «desapareceu», especificamente, na nossa relação com o próximo. Deus acontece onde quer que nós amemos as pessoas, o nosso próximo".
"Deus não pode ser obejeto de amor porque Deus não é um obejeto; a perceção objetiva de Deus conduz à idolatria. Eu não posso amar a Deus da mesma maneira que amo outro ser humano, a minha cidade, a minha paróquia ou o meu trabalho. Deus não está diante de mim, tal como a luz também não está diante de mim: eu não consigo ver a luz, só posso ver as coisas iluminadas pela luz".
"Deus acontece ali onde nós amamos".
"É necessário despir a própria alma, porque só quando já nada restar entre nós e a vontade de Deus, se poderá dar aquela união com Deus a que se chama Amor. Nesse momento somos «transformados em Deus por amor»".
"Há vários anos que me sinto fascinado com um definição do amor que é atribuída a Santo Agostinho: amo: volo ut sis (Amo-te, quero que Tu seja!)... «Eu quero que tu sejas». Esta frase exprime a ausência de dúvidas acerca da existência do amado; a sua existência é óbvia para mim, e o meus sentidos podem prová-la. esta frase exprime a minha confirmação fundamental da existência do meu amado, a minha alegria por ele existir. Eu não me limito a notar a sua existência, experimento-a como gratidão, como qualquer coisa que enriquece fundamentalmente a minha própria vida, sem o meu amado, o meu eu profundo perderia a sua integridade, sem ele o meu mundo ficaria desolado e terrivelmente cinzento.
No amor eu abro um lugar de segurança dentro de mim para a pessoa que amo, no qual ela pode ser plena e livremente quem é. Não precisa de representar nem de fingir para mim, nem de tentar merecer continuamente o meu amor através das suas ações. Além disso, só messe lugar seguro de amor é que uma pessoa se pode tornar aquilo que até então só era em potência. Só agora se pode aperceber do seu pleno potencial, que, sem amor, ficaria atrofiado, murcho e sufocado nas suas próprias raízes.
Estou contente por te ter conhecido; alegro-me pelo milagre do amor; quero que a pessoa a quem amo continue a estar comigo. Sim, gostaria que vivêssemos juntos para sempre. A frase «Eu amo-te, quero que Tu sejas» de Agostinho conduz a outra frase, ou seja, à definição magnífica de Gabriel Marcel: «Amar alguém é dizer-lhe: "Tu não morrerás"»... Dentro do verdadeiro amor há sempre uma fonte de eternidade".
"Deus não é «uma terceira pessoa» na relação entre duas pessoas; Deus é a base e a fonte dessa relação".
"Amar a Deus significa sentirmo-nos profundamente gratos pelo milagre da vida e exprimir essa gratidão ao longo da própria vida, aceitando a minha sorte mesmo quando esta não condiz com os meus planos e expectativas. Amar a Deus significa aceitar com paciência e atenção os encontros humanos como mensagens de Deus cheias de sentido - mesmo quando sou incapaz de as compreender devidamente. Amar a deus significa confiar que até os momentos difíceis e obscuros me revelarão um doa o seu significado".
"Deus não pode forçar os seres humanos a aceitar a salvação, o perdão e a misericórdia. Teoricamente é possível que alguém, pelo seu profundo desejo de que «Deus não seja», manifeste esse perverso desejo de forma tão consistente que acabe por se esquivar fatalmente a Deus e por se condenar a si próprio ao eterno afastamento de Deus e separação em relação a Ele".
"Aquilo que Deus traz para a história, onde nós o devemos procurar, é o amor. Eu sou cristão porque aprendi a acreditar nesse amor".
"A fé requer a coragem de escolher e de confiar".
Citando Teilhard de Chardin, "O amor é a única força capaz de unificar as coisas sem as destruir"

O reino dos Ceús pode comparar-se a um banquete

Disse-lhes Jesus:
       «O reino dos Céus pode comparar-se a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho. Mandou os servos chamar os convidados para as bodas, mas eles não quiseram vir. Mandou ainda outros servos, ordenando-lhes: ‘Dizei aos convidados: Preparei o meu banquete, os bois e cevados foram abatidos, tudo está pronto. Vinde às bodas’. Mas eles, sem fazerem caso, foram um para o seu campo e outro para o seu negócio; os outros apoderaram-se dos servos, trataram-nos mal e mataram-nos. O rei ficou muito indignado e enviou os seus exércitos, que acabaram com aqueles assassinos e incendiaram a cidade. Disse então aos servos: ‘O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos. Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para as bodas todos os que encontrardes’. Então os servos, saindo pelos caminhos, reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala do banquete encheu-se de convidados. O rei, quando entrou para ver os convidados, viu um homem que não estava vestido com o traje nupcial e disse-lhe: ‘Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?’. Mas ele ficou calado. O rei disse então aos servos: ‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o às trevas exteriores; aí haverá choro e ranger de dentes’. Na verdade, muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos»." (Mt 22, 1-14)

       A parábola de Jesus sobre o reino de Deus mostra-nos a chamamento universal à salvação.
       Na verdade, o rei manda reunir todos, bons e maus. Todos são chamados. Mas eis que um deles é expulso porque não traz o manto nupcial! Surpresa?! Não, o sim inicial leva à mudança de vida. Se dizemos sim ao chamamento, "vestimos" o traje nupcial, acolhemos a misericórdia de Deus, vestimo-nos de humildade e disponibilidade para traduzirmos a vontade de Deus através das nossas escolhas.
       Ele chama-nos para com Ele identificarmos a nossa vida e para nos reconhecermos uns aos outros como irmãos. Se nos sentamos à mesma mesa, o compromisso de partilharmos também projectos, neste caso o projecto de Jesus Cristo, o bom Pastor, procurando em tudo ser semelhantes a Ele. Se procuramos a identificação com Cristo, naturalmente que isso nos leva à comunhão uns com os outros.
       O banquete preparado por Deus para nós é a Eucaristia, na qual Jesus Cristo coloca toda a Sua vida, o Seu Corpo e o Seu sangue, que do pão consagrado Se convertem em memorial até à vida eterna. A Eucaristia antecipa o banquete pleno da eternidade. É-nos dado a saborear o pão do Céu. Antecipámos a comunhão plena com Deus, como Jesus tinha antecipado a Sua morte e ressurreição, na noite em que nos deu a Eucaristia, para que a Sua presença fosse até ao fim dos tempos.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Leituras: PABLO d'ORS - Sendino está a morrer

PABLO d'ORS (2014). Sendino está a morrer. A elegância do adeus. Prior Velho: Paulinas Editora. 80 páginas.
       Pablo d'Ors nasceu em Madrid em 1963. É sacerdote católico e escritor. É consultor do Pontifico Conselho da Cultura (Vaticano), por designação do Papa Francisco. Fundou a Associação Amigos do Deserto, para viver e aprofundar a prática da meditação. Publicou, entre outros títulos, a triologia do silêncio: O amigo do deserto (2009), O esquecimento de si (2013) e A biografia do Silêncio, que já aqui recomendámos.
       No pequeno livro que agora sugerimos, o autor parte da sua condição de capelão hospitalar, onde encontra a Dra. África Sendino, que lhe pedirá para ajudar a escrever um testemunho sobre a vida, a doença, o sofrimento, a morte e, sobretudo, a fé, a confiança em Deus, a entrega confiante nas mãos do Pai.
       Médica descobre que tem cancro da mama. Começa então um diálogo profundo com Deus. «Fui à capela de Traumatologia e ajoelhei-me - escreve: - "Senhor (rezei), só me ocorre dizer-te que quero que sirva para tua maior glória o que me tocar viver a partir de agora. Tu saberás o caminho que inicias. Tu saberás aonde me conduzes»".
       Pablo d'Ors conhece-a nas últimas semanas de vida e acabará com a missão de escrever o seu testemunho, pegando nas notas que ela vai escrevendo, cada vez com mais dificuldade, menos texto, pouco perceptível. Para o autor, conhecendo e convivendo com Sendino vai tendo a perceção que ela é santa, com as suas imperfeições e limitações, mas também com a sua serenidade e confiança em Deus. "O que a meus olhos faz com que Sendino seja grande não é a morte, mas o morrer, o ir morrendo, o modo de morrer".
       Um dos primeiros aspetos que Pablo d'Ors sublinha é a elegância com que Sendino está deitada na cama do hospital. "Sim, Sendino era bela: tinha um olhar franco e limpo, um sorriso tímido e amável - nunca coquete -, uma pele branca e lisa. umas mãos gráceis - embora grandes - e uma feminilidade totalmente natural, nada importada ou estudada e, por isso, talvez, tão encantadora como desconcertante".
       Outro os aspetos que o autor sublinha é a clareza no falar, exprimindo as ideias de forma consistente, talvez demasiado analítica. Dedicado ao ensino de medicina, facilidade da comunicação oral. Curiosamente, maior dificuldade na escrita.
       Outro dos aspetos relevantes: o seu altíssimo nível espiritual, embora Sendino vivesse a sua fé com descrição. "Viveu a sua doença na perspetiva da Anunciação. Como a Virgem Maria, também ela deu à luz uma criatura: por virtude da graça, Sendino alumiou-se a si mesma para a eternidade. Eu sou testemunha".
        Como confidencia a  Pablo d'Ors, pediram-lhe para escrever sobre a sua enfermidade e, por isso, pede ajuda ao autor. "Nunca vi um processo de declínio e morte tão eloquentemente refletido nas folhinhas que Sendino me entregava sempre que a ia visitar... A progressão do seu cancro não se percebia somente na brevidade dos seus escritos, mas também na sua forma estilística, progressivamente mais frouxa, e até na caligrafia que, no final, era ilegível".
       Dos escritos confiados ao autor: "Chamo-me África Sendino e sou médica internista. Desde que me foi diagnosticado um cancro da mama, fui submetida a um tratamento cirúrgico de quimioterapia e radioterapia. Num sábado apalpo um nódulo e na segunda, às nove, fui recebida pelo patologista. Às nove e um quarto, saio do seu laboratório com um novo panorama vital: tenho cancro. De repente, eu era uma nova personagem: o médico adoece; e, depois, compreendi o que me tocava com a doença (uma conhecida com a qual até então eu tinha lutado diariamente) era dançar com ela. Também me veio à cabeça a imagem das duas margens de um rio. Inesperadamente, sem me consultar, tinham-me passado para a outra margem. Podia chorar, queixar-me, espernear... mas na verdade, o barco já se tinha ido embora. Teria de esperar que chegasse e, entretanto..., era apenas o que poderia fazer! Podia passear naquela margem, por exemplo, contemplar a outra minha nova perpetiva, deter-me tranquilamente diante desse rio, molhar os pés... O doente não deve ser apenas paciente; deve ser o protagonista da sua enfermidade" (Uma das primeiras entradas do diário de Sendino, dia em que lhe detetaram o cancro, 19 de outubro de 1999).
       As notícias que vão chegando não são animadoras. "Quero deixar claro - continua Sendino, quando relata a segunda fase do seu temor - que o facto de a doença pressupor um período de perdas não sentencia irremediavelmente que seja, realmente, um período de perda para mim mesma. Não, de modo nenhum! Mesmo sendo dolorosa a comprovação do fracasso do tratamento para erradicar o tumor, experimentei que a minha recaída tinha algumas vantagens: por exemplo, já não me esperariam tantas novidades, excetuando, naturalmente, a perpetiva de um desenlace final. Então, a morte apresentou-se como uma convidada para a festa".
       Mais adiante: "A doença vai ter connosco onde estamos. Quando me sobreveio a mim, soube que poderia vivê-la como uma circunstância adversa e até certo ponto irritante ou, ao contrário, como uma imensa e imerecida ocasião de aprendizagem. Decidi que a minha perpetiva seria a segunda. O meu primeiro desejo foi percorrer dignamente este caminho em benefício da Igreja. Aceitei ingressar num curso prático de patologia: a doença vivida na minha própria carne. Se superasse o cancro - disse a mim própria -, voltaria enriquecida à prática assistencial. Se saísse com vida, eu seria uma interlocutora vália para os doentes".
       Sendino apoia-se, para a oração, numa expressão de São Pedro: "Confiai a Deus todas as vossas preocupações, porque Ele tem cuidado de vós" (1 Ped 5, 7). "Desde o princípio da minha enfermidade - escreve neste mesmo sentido - compreendi que a minha forma de encará-la não era o resultado de uma grande fortaleza psicológica, mas um dom estritamente sobrenatural. Desde esse primeiro momento - continua - soube que só tinha um desejo: fazer esta minha peregrinação do melhor modo possível... Os enfermos são um tesouro para a Igreja".
       "O meu maior medo? Que a intensidade do meu sofrimento me tente a não louvar a Deus e a não dar graças ao seu nome. Só peço uma coisa: que a minha enfermidade não em afaste d'Ele; pois, se o fizesse, para quê e a quem serviria?... Aceito ser um despojo. Quero gastar-me e desgastar-me a cumprir a sua vontade".

Outro apontamento:
       "Um dos mistérios mais insondáveis da enfermidade é o do tempo: os sãos não têm tempo; em contrapartida, os doentes o que mais têm é precisamente tempo. Um dia pode ser infinito numa cama do hospital. Espera-se durante horas a visita de um médico que dura um minuto. Eu esperei esse médico e, agora, sou essa paciente que espera. Deus quis que eu dedicasse a minha vida a ajudar os outros, mas não quis que me fosse embora deste mundo sem deixar-me ajudar pelos outros. Deixar-se ajudar pressupõe um nível espiritual muito superior ao de simples ajudar. Porque, se ajudar os outros é bom, melhor é ser ocasião para que os outros nos ajudem. Quem se deixa ajudar parece-se mais com Cristo do que quem ajuda. Mas ninguém que não tenha ajudado os seus semelhantes saberá deixar-se ajudar quando chegar o seu momento. Sim, o mais difícil deste mundo é aprender a ser necessitado".