segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Nenhum profeta é bem recebido na sua terra...

       Jesus veio a Nazaré e falou ao povo na sinagoga, dizendo: «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra. Digo-vos a verdade: Havia em Israel muitas viúvas no tempo do profeta Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra; contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas a uma viúva de Sarepta, na região da Sidónia. Havia em Israel muitos leprosos no tempo do profeta Eliseu; contudo, nenhum deles foi curado, mas apenas o sírio Naamã». Ao ouvirem estas palavras, todos ficaram furiosos na sinagoga. Levantaram-se, expulsaram Jesus da cidade e levaram-n’O até ao cimo da colina sobre a qual a cidade estava edificada, a fim de O precipitarem dali abaixo. Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho (Lc 4, 24-30).
       Embora situado no início do Evangelho de São Lucas, este incidente na sua terra natal, ou na terra que o viu crescer, mostra como Jesus se confronta com as dificuldades criadas, e como se distancia das facilidades, procurando em todos os momentos a fidelidade a Deus, Seu e nosso Pai. O regresso a casa bem poderia ser positivo e até aglutinador, desencadeando um movimento à sua volta. Mas Jesus não renuncia ao anúncio do Evangelho, só para agradar aos da sua terra, age como sempre. Isso custar-lhe-á caro, mais à frente há de custar-lhe a própria vida, que Ele dá a favor da humanidade.
       Jesus segue o Seu caminho, confiante e corajosamente, na consciência firme de estar a cumprir a vontade de Deus, mas antevendo os reveses da vida futuro. Foi um incidente, mas não será o último.
       Sublinhe-se, para nós, que por vezes temos de seguir o nosso caminho, se isso nos levar mais longe, se isso nos conduzir à verdade e à liberdade.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Domingo III da Quaresma - ano C - 28 de fevereiro

       1 – A vida é um mistério que não se dissolve no conhecimento, na ciência, na sabedoria popular ou em qualquer outro apartado da nossa existência. A sua complexidade, por um lado, e a sua simplicidade, por outro, fazem da vida (vegetal, animal, humana) um desafio permanente de procura, de descoberta, de admiração. Para crentes e não crentes é um mistério inabarcável. Os desenvolvimentos da ciência e da tecnologia desvendaram muitos segredos, mostraram a beleza da nossa fragilidade humana. Quanto mais simples é a vida tanto mais difícil decifrá-la.
       Com os avanços da ciência foi possível resolver muitos enigmas e melhorar a qualidade da vida, a saúde do corpo e da mente, mas nem assim foi possível eliminar as doenças crónicas, as depressões, o vazio existencial. Há algo mais para lá das sinapses, das ligações neurológicas, na constituição biológica. Somos muito mais que a soma de cromossomas, ADN, sangue, ossos, músculos, carne. Somos um mistério que quanto mais se desvenda mais complexo se torna.
       Ao longo do tempo, o ser humano procurou compreender e justificar o sofrimento, a doença e a morte. Se a vida é tão bela, como é possível que nos faça sofrer e porque é que temos de morrer? Porque é que a vida não é igual para todos? Porque que é que uns sofrem tanto e outros têm uma vida durável e saudável? Terá a ver (somente) com as escolhas de cada um?
       Uns procuram respostas na fé e na religião, outros no acaso ou na ciência. Muitos aceitaram a doença e as desgraças como vontade dos deuses e controlo oculto das divindades. Outros aceitaram que as doenças e a morte eram consequência do pecado.
       2 – Jesus questiona o sofrimento e o mal, compadecendo-Se. Como em outras ocasiões, Jesus não procura justificações, argumentos ou culpados. É preciso ajudar? Então ajuda-se. Faz-se o que está ao nosso alcance ou recorre-se a quem pode ajudar.
       Na lógica dos antigos, se alguém sofre é porque algum mal praticou. Job questiona tal ligação, pois nada praticou que merecesse tantos sofrimentos. No final, na história de Job, vêm ao de cima a soberania de Deus, o mistério insondável da vida e a grande confiança na bondade de Deus.
       Os mestres de Israel e a gente simples do povo assimilaram que a injustiça, o mal, a doença, a deficiência, o próprio domínio estrangeiro, eram consequência do pecado. Mas de quem? Dos pais, dos próprios, do povo? Jesus desmistifica esta crença ancestral. O pecado é destruidor do tecido social – quando cada um cuida apenas dos seus interesses pessoais ou tribais – e da própria vida – quando nos fazemos mal, acumulando toxidade pela inveja, pelo ódio, pelo desejo desenfreado de vingança. O que nos acontece de mal não é, sem mais, consequência do pecado, a não ser que resulte do mal consciente que outros nos fizeram!
       Pilatos mandou derramar sangue de alguns galileus. A questão era saber que mal tinham feito para merecerem tal castigo. Jesus combate esta lógica: «Julgais que, por terem sofrido tal castigo, esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo. E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante».
       Atente-se à interpelação de Jesus, desligando o mal infligido/sofrido de qualquer culpa. Mas, atenção, diz-nos Jesus, é necessário que nos preocupemos com o bem de todos, uns dos outros, aderindo ao Reino de Deus, convertendo-nos. De contrário, pior será a nossa sorte!
       3 – Para que não haja dúvidas, Jesus dá um passo em frente para sublinhar a importância da conversão, a inutilidade de arranjar culpados, apontando mais para nós que para os outros, partindo da misericórdia de Deus. Fácil é olhar para os defeitos e pecados dos outros e, quem sabe, atirar pedras ao telhado do vizinho! Porém, para os seguidores de Jesus, importa deixar-se olhar pela Misericórdia de Deus e a Ele aderir de todo o coração.
       Numa outra ocasião, os discípulos perguntam a Jesus, sobre uma cego de nascença que Ele se prepara para curar, quem é que tinha pecado, o próprio ou os pais. Jesus responde inequivocamente que nem ele nem os pais tiveram culpa alguma que pudesse ter provocado aquela cegueira (cf. Jo 9, 1-5). Nesse episódio, lembra que o importante é que ninguém fique cego diante dos outros e das suas carências e necessidades, pois neles refulge a presença de Deus.
       Jesus conta então a parábola da figueira que não dá frutos. «Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi procurar os frutos que nela houvesse, mas não os encontrou. Disse então ao vinhateiro: ‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontro. Deves cortá-la. Porque há de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’. Mas o vinhateiro respondeu-lhe: ‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. Talvez venha a dar frutos. Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano».
       Três anos sem dar fruto é muito tempo. Porquê gastar recursos? E porquê ocupar espaço onde se pode plantar outra árvore ou mais vinha? A parábola fala-nos da paciência de Deus e do Seu amor. Deus não desiste de nós. Nunca. Um e outro ano e mais outro e outro ainda. Jesus é o vinhateiro que visualiza o cuidado, a paciência e a misericórdia de Deus. Em Jesus, o Reino de Deus está em ação e já se podem ver os frutos. Cabe-nos transparecer o Reino de Deus que Jesus nos dá.
       4 – "Porventura Me hei de comprazer com a morte do pecador e não com o facto de ele se converter e viver?" (Ez 18, 23). O povo Eleito experimenta na sua história a intervenção de Deus. Ele é um Deus de vivos, de Abraão, de Isaac e de Jacob (cf. Lc 20, 38), não é um ídolo de bronze, de madeira, de prata, de ouro ou de ferro, que não tem olhos nem ouvidos, que não vê e não escuta aqueles que o invocam. Deus olha com amor, com aquele amor compassivo e maternal, isto é, com o amor das entranhas, a Misericórdia. «Eu vi a situação miserável do meu povo no Egipto; escutei o seu clamor provocado pelos opressores. Conheço, pois, as suas angústias. Desci para o libertar das mãos dos egípcios e o levar deste país para uma terra boa e espaçosa, onde corre leite e mel».
       A paciência do vinhateiro não é passiva. Insiste e cuida da figueira que está na sua vinha, tudo fazendo para que possa dar fruto. A Aliança de Deus com o Seu povo não é unilateral, de obediência deste em relação Àquele. Deus OUVE e VÊ a miséria do povo e ATUA para o libertar e conduzir a uma terra de esperança e de vida. Ele conta connosco. Moisés até poderia andar distraído, mas é atraído pelos sinais. Ele VÊ e aproxima-se. Não basta ver, não basta saber, não basta ter um bom coração e boas intenções, é imperioso aproximar-se para VER melhor e mais de perto, e para se deixar COMOVER e ENVIAR. Moisés tinha saído do Egipto e a sua vida era pacata, mesmo com muito trabalho e sacrifícios, pois tornara-se pastor. E a vida do pastor exige uma grande dedicação, procurando proteger o rebanho e procurar as melhores pastagens, afastando-se para longe de casa onde os perigos espreitam, com os salteadores e com os animais selvagens!
       Também Moisés OUVE as angústias do povo sintonizando com a Misericórdia de Deus.
       Descerá ao Egipto para lhes comunicar a mensagem de Deus e os libertar. Deus revela-Se não com adjetivos, como ser distante, como juiz todo-poderoso, mas identificado com a vida de Abraão, de Isaac, de Jacob e de todo o povo.

       5 – Na segunda Leitura, o Apóstolo São Paulo evoca a libertação do Egipto, a nuvem de Deus que envolveu os judeus, a travessia do mar, a bebida espiritual que brotava da rocha e o alimento que Deus lhes mandava do Céu. Nem todos chegaram à Terra prometida. Muitos poderiam ser essa Terra prometida para os outros, mas afastaram-se de Deus e dos seus desígnios de amor. A terra da promessa não é apenas um lugar ainda que haja lugares que nos façam sentir seguros. Deus age em nós e através de nós. Podemos ser terra prometida e lugar de encontro, onde Deus Se deixa ver.
       Moisés desce ao Egipto para lhes levar Deus. Jesus desce até nós e n'Ele podemos VER a misericórdia de Deus, que nos assume como filhos bem-amados.
       Nenhum de nós está excluído do amor e do perdão de Deus. Maior que o nosso pecado é Sua misericórdia. "Ele perdoa todos os teus pecados e cura as tuas enfermidades. / Salva da morte a tua vida e coroa-te de graça e misericórdia. Revelou a Moisés os seus caminhos… O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade. Como a distância da terra aos céus, /assim é grande a sua misericórdia para os que O temem". O salmo reza em nós a misericórdia de Deus.
       Por conseguinte, a Ele nos confiamos: "Deus, Pai de misericórdia e fonte de toda a bondade, que nos fizestes encontrar no jejum, na oração e no amor fraterno os remédios do pecado, olhai benigno para a confissão da nossa humildade, de modo que, abatidos pela consciência da culpa, sejamos confortados pela vossa misericórdia" (oração de coleta).

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano C): Ex 3, 1-8a. 13-15; Sl 102; 1 Cor 10, 1-6. 10-12; Lc 13, 1-9.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

ANSELM GRÜN - AS OITO BEM-AVENTURANÇAS

ANSELM GRÜN (2010). As oito bem-aventuranças. Caminho para uma vida bem conseguida. Braga: Editorial A.O., 184 páginas.
       Anselm Grün é Monge beneditino, formado em economia e teologia, alemão. Através dos seus livros, conferências, procura testemunhar os tesouros da vida. É por muitos considerado um guia espiritual, reunindo grandes audiências. Já tivemos oportunidade de ler e de recomendar outros títulos, tais como: A sublime arte de envelhecer e tornar-se uma bênção para os outros; O Pai-Nosso. Uma ajuda para a vida autêntica; Que fiz eu para merecer isto? A incompreensível justiça de Deus.
       Este é mais uma belíssimo livro de bolso, que se lê com agrado sobre uma temática essencial da pregação e do proceder de Jesus. As Bem-aventuranças não garantem a vida eterna, mas são um caminho que nos levam a viver melhor e mais próximos do jeito de Jesus.
       O autor parte desde logo do significado de "Bem-aventurança", a procura da felicidade, comum a todos as pessoas, ainda que de maneiras distintas e caminhos diferentes.
       Jesus sobe ao MONTE com os discípulos. O monte aproxima-nos de Deus, da luz. Na cidade, a confusão, o barulho, a poluição. A montanha dissipa o nevoeiro e conduz-nos à calmaria, à natureza em que é possível ouvir os pássaros, o vento, ouvir a Deus. Tal como no Horeb ou Sinai, em que Deus dá a Lei ao Povo através de Moisés, agora Jesus, no monte, dá-nos uma leitura nova da Lei. As leis é para que vivamos harmoniosamente uns com os outros. "É possível uma boa convivência".
       Anselm Grün segue de perto a interpretação de São Gregório de Nisa, lembrando-nos que ele "vê a montanha como o lugar para onde seguimos Jesus, a fim de nos elevarmos para cima das nossas concepções baixas e limitadas «até à montanha espiritual da contemplação mais sublime» (Gregório, 153). O monte está envolvido pela luz de Deus".
       Seguindo o título dos capítulos, o autor faz-nos perceber que as bem-aventuranças são promessa de uma vida em plenitude, acentuando também que "a felicidade não é uma consequência do comportamento, mas é expressão desse comportamento... as oito atitudes das Bem-aventuranças são o lugar onde podemos fazer a experiência de Deus e onde, em Deus, podemos experimentar a nossa verdadeira felicidade... são o caminho para uma vida bem conseguida... aponta um caminho. E podemos ver, no próprio Jesus, como é que Ele percorreu o caminho".

1.ª Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino de Deus.
"Quem é pobre em espírito está aberto a Deus que habita nele... Não usa Deus, a fim de ter alguma coisa para si, a fim de conseguir a satisfação dos seus desejos, ou a fim de se sentir melhor ou mais seguro em Deus. A pobreza em espírito é desinteressada... Para São Gregório de Nisa, a pobreza em espírito é a condição para a pessoa se elevar até Deus, em liberdade... A primeira bem-aventurança é, pois, uma caminho de liberdade interior para a verdadeira felicidade". Por deles é o reino de Deus..."O Reino dos Céus é o lugar onde Deus reina em nós. Quem é pobre em espírito, renuncia a ter as rédeas de tudo e a tudo controlar em si. está aberto ao domínio de Deus. Onde Deus reina nele, encontra o acesso ao próprio eu... se alguém se liberta de toda a dependência das coisas deste mundo, nele reina Deus. E o reinado de Deus faz dele verdadeiramente livre".
2.ª Bem-aventurados os que choram porque serão consolados.
É necessário fazer o luto de tudo o que não podemos ser, para valorizarmos o que somos e o que podemos ser, com as circunstâncias que nos contextualizam com o mundo e com o tempo atual. "Aquele que sou, saúda, tristemente, aquele que eu poderia ser" (Kierkegaard). "Jesus proclama bem-aventurados aqueles que estão dispostos a chorar, os que enfrentam a dor da despedida das ilusões. Só eles continuarão sãos, interiormente... Jesus descreve o luto como uma caminho para a felicidade... o luto é um caminho para eu enfrentar a realidade e para me libertar das ilusões com que encubro a realidade. No luto não me esquivo à dor... Ninguém pode realizar todas as possibilidades da vida... Cada decisão me dá alguma coisa e me priva de algo. Compromete-me. E em cada decisão, excluo alguma coisa. E tenho de fazer luto por aquilo que excluo. Se falho o luto, então encho esse défice que fica em mim com uma qualquer sucedâneo... O luto chora e, desse modo, fecunda a alma. A tristeza, pelo contrário, é apenas chorosa... É Cristo quem nos consola. Sim, Ele mesmo é a consolação. Se pomos o olhar n'Ele, no meio do nosso luto, já experimentamos a consolação... e o luto transforma o seu coração..."
3.ª Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.
"A agressividade está a transformar-se num problema... Tudo tem de ser protegido, para não ser destruído... No terror, pratica-se uma agressividade sem limite. Onde ela é praticada em nome de Deus, não conhece barreiras. O valor do ser humano já não conta. O único objetivo é propagar o medo... As palavras de Jesus sobre a doçura e a mansidão parecem ser, de facto, de um outro mundo". Em contrapartida, "a mansidão nãos e deixa arrastar pelos impulsos, pela ira, ou pelos ciúmes. Permanece arreigada no solo... Jesus não proclama felizes os insensíveis. «Ditosos são, portanto, aqueles que não cedem rapidamente aos movimentos passionais da alma, mas conservam a serenidade no seu íntimo graças à temperança» (São Gregório, 170)... As palavras de Jesus desafiam-me a transmitir, também para fora, a mansidão que experimento dentro de mim... Confio no poder da ternura. Ela é água que amolece a pedra dura... Trabalhamos em nós próprios mas renunciamos a ser perfeitos... A minha terra pertence-me. Expande-se. Herdo a terra, isto é, tenho chão suficiente debaixo dos pés. Deixo de ser dividido... só nos pertencemos a nós próprios se lidamos amistosamente com o que assoma em nós..."
4.ª Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
O autor contextualiza o tempo em que as Bem-aventuranças foram proclamadas por Jesus, o contexto das comunidades que acolheram a mensagem de Jesus, interpretações ao longo da história da Igreja, com pontes à filosofia grega e ocidental, ao ambiente semita, à religiosidade popular. Ponte importante com a atualidade. Começa por referir que "o rendimento médio nos vinte países mais ricos do mundo é 37 vezes superior ao dos vinte países mais pobres... nos últimos 40 anos duplicou a distância... entre as 100 maiores unidades económicas do mundo há 52 empresas mas apenas 48 estados... Não há justiça quanto à igualdade de oportunidades... A injustiça conduz, ultimamente, à guerra". Há, por outro lado, uma «judicialização» cada vez mais abrangente. Tudo está regulamentado. "Os juristas determinam casa vez mais a vida coletiva... já não valem a fidelidade e a confiança, mas unicamente a segurança legal". Anselm Grün constata que "as pessoas anseiam pela verdadeira justiça, por um mundo onde reine a justa distribuição dos bens e das oportunidades, no qual se faz justiça a todos, tanto aos pobres como aos ricos, tanto aos mais fortes como aos mais fracos... existe a convicção de que só onde reina a justiça pode florescer a paz... A fome e a sede de justiça referem-se a todos os homens, a uma ordem justa para todos, à vida em retidão que Deus pensou para todos... As virtudes da justiça, da prudência, da coragem e da temperança põem-nos em contacto com o nosso interior". Segundo São Gregório de Nisa, as virtudes enchem-nos "de doçura e de alegria, em todos os momentos da nossa vida". Com efeito, ainda citando São Gregório, "A bem-aventurança é uma convite a uma vida feliz. Que exercita a justiça não ficará saciado apenas no Além. Será feliz e viverá satisfeito já no meio da luta pela justiça".
5.ª Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
No Jubileu Extraordinário da Misericórdia que decorre (8 de dezembro de 2015 a 20 de novembro de 2016), esta Bem-aventurança coloca-nos em sintonia e em sinfonia com o desejo do Papa Francisco de refletir e viver as Obras de Misericórdia. O Coração misericordioso e compassivo de Deus, que Se faz peregrino connosco, mas que nos Seus gestos encontremos o desafio e o compromisso para vivermos como irmãos, acolhendo e integrando todos, sobretudo os que se encontram em situação mais frágil. Partindo da atualidade, o autor começa por mostrar como o "mercado é implacável. Só o mais forte consegue impor-se, Os outros ficam pelo caminho. O carácter implacável do mercado parece influenciar também a vida social... Quem sabe «vender-se» bem, «vale» alguma coisa... Aqui só contam os números e não a pessoa". Quanto à misericórdia, dela fazem parte a compaixão e o «sofrer com». Segundo alguns, a compaixão é fraqueza (por exemplo o Terceiro Reich). "A falta de misericórdia leva ao endurecimento e à violência na convivência mútua... Só o mais forte consegue impor-se. Os outros extinguem-se". Por conseguinte, "neste mundo frio, cresce a aspiração a um mundo misericordioso... [em que] sejamos respeitados na nossa dignidade humana... Jesus manteve-se fiel à misericórdia. E declarou bem-aventurados os que são misericordiosos. Porque alcançarão. Ele acreditou na vitória da misericórdia e da compaixão... Se somos misericordiosos também experimentamos a misericórdia... É misericordioso o que lida consigo e com os outros... Lido amorosamente com a esta criança em mim, necessitada de ajuda. Confio em que a minha criança interior vá amadurecendo, no meu colo materno e no colo materno de Deus, e que venha a ser o que deve ser a partir de Deus... A misericórdia brota do amor ao próximo... A misericórdia devolve-nos a vida... A compaixão pela nossa doença devolve-nos a saúde... A misericórdia de Deus permite-nos ser mais misericordiosos connosco próprios... Quem é misericordioso compreendeu quem é Deus. E participa de Deus. Está em Deus. A misericórdia é, para nós, os seres humanos, o caminho para o coração de Deus".
6.ª Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
Olhando para o nosso tempo, o autor conclui que "a desconfiança está na moda". Não se aceitam as palavras sem reservas, crê-se que há sempre segundas intenções. No entanto, "aspiramos à clareza e à pureza de sentimentos, a pessoas que possuem um coração puro, que fazem, sem segundas intenções, o que reconheceram ser reto, e que dizem o que para elas brilha como verdade... aspiramos à pureza do coração... O coração puro é o coração simples, sincero, claro... Jesus exorta-nos a deixarmos que a luz irradie sobre o nosso corpo e expulse todas as trevas. Quando nos encontramos com uma pessoa cujos olhos brilham, sem segundas intenções, então também algo em nós se torna claro e límpido". Na Transfiguração, os discípulos "veem, de repente, claramente, quem é Jesus Cristo. E no espelho de Jesus reconhecem-se a si próprios... A meta do ser humano é ver a Deus, na visão passar a ser um com Deus... Se vemos a Deus esquecemo-nos de nós mesmos. Fazemo-nos um com Deus e, ao mesmo tempo, connosco próprios, Na unidade com Deus tomamos consciência de nós próprios, chegamos ao nosso esplendor original e não falseados... Sentimo-nos luz, iluminados pela luz de Deus. Isto é o ápice da Encarnação, o mais alto a que um ser humano pode aspirar". A pureza do coração faz bem à saúde, pois aquele que se encontrou consigo próprio, com a sua luz interior, "deixa de procurar no exterior a cura das suas feridas. Já não espera, vinda do afeto e da ajuda dos outros, a sua saúde. Encontra-a em si mesmo se, graças à pureza, se tornou inteiramente ele próprio".
7.ª Bem aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus.
Olhando para o mundo atual, vemos como é frágil da paz. São disso exemplo as duas Guerras mundiais, mas igualmente tantas zonas de conflito bélico, em diferentes latitudes. No tempo de Jesus Cristo a paz é periclitante. O povo está sob o domínio romano e aquilo que se chama a paz romana (pax romana) não passava efetivamente de pacificação, de imposição da paz pela força, pelo domínio, pelo controlo apertado, aniquilando todos os focos de resistência e até povos inteiros. "Era uma paz violenta". A paz não é algo de passivo, de deixar correr, sem fazer nada, sem intervir, mesmo quando a violência o atinge. A paz é ativa, implica. "Criar paz significa a disponibilidade ativa para ir ao encontro das pessoas que estão em conflito e reconciliá-las entre si". Também em nós devemos fazer as pazes com os nossos inimigos: o nosso medo, a nossa depressão, a nossa susceptibilidade, a nossa falta de disciplina, e então os nossos inimigos convertem-se em amigos e "a nossa terra, de repente, torna-se maior do que nunca sucedeu antes. Em vez de dez mil soldados, temos à disposição trinta mil (cf. Lc 14, 31ss). Ficamos mais fortes... Só quem está em sintonia consigo próprio, ou pelo menos a caminho dessa meta, pode construir a paz entre as pessoas". Por outro lado, prossegue Anselm Grün, a construção da paz resultará do amor e do diálogo, superando o conflito interior para superar os conflitos exteriores, não pela violência mas pelo diálogo. "Se quero vencer os inimigos, não construirei a paz. O derrotado quer vir a ser, um dia, o vencedor. Assim voltará a levantar-se e a continuar a combater. Só quando se alcança um bom equilíbrio todos podem viver em paz... Construir a paz é um processo criativo... Quem cria paz, participa do poder criador de Deus, que fez tudo bem feito". Dando como exemplo Martin Luther King, o autor sublinha que "só o amor pode construir a paz. «O ódio não pode expulsar o ódio. Só o amor consegue. O ódio multiplica o ódio, a violência aumenta a violência, a dureza faz aumentar a dureza, uma espiral permanente de aniquilamento» (Feldmann, 702). O ódio não destrói apenas a convivência, prejudica também a pessoa".
8.ª Bem-aventurados os que sofrem perseguição, por causa da justiça, porque deles é o reino dos Céus.
"A injustiça no mundo clama ao céu. Mas não há quase ninguém que arrisque a pele pela justiça". No mundo atual parece que são felizes aqueles que estão do lado dos vencedores, dos lobos, daqueles que passam por cima dos outros. "A bem-aventurança desafia-nos, mas não sobrecarrega com coisas impossíveis. O que faz é fortalecer a nossa aspiração à coragem de nos empenharmos pela justiça, custe o que custar... A coragem é a expressão da liberdade interior... mantenho-me firma na justiça, mesmo que isso me cause desvantagens junto dos outros". O que me sucede de mal pode empurrar-se para a frente, para o bem. Seguindo de perto São Gregório de Nisa, o autor evoca a imagem das corridas. Os adversários que correm comigo levam-me a avançar, lutando. Os conflitos em que caio podem ajudar-me a ser mais forte.
"São Mateus compôs as oito Bem-aventuranças de tal modo que a primeira e a última contêm a promessa do Reino dos Céus. Os pobres em espírito são, como os perseguidos por causa da justiça, também pessoas interiormente livres, que não se deixam depender da opinião dos outros... porque encontraram em Deus a sua verdadeira essência. Deus reina nelas. E porque Deus reina nelas são por inteiro elas mesmas, livres do poder dos outros. Porque Deus é o seu centro, são elas próprias, no seu centro, estão em sintonia consigo mesmas".
As bem-aventuranças são um caminho para viver melhor e ser mais saudáveis.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Domingo II da Quaresma - ano C - 21 de fevereiro

       1 – Depois do Batismo, Jesus, impelido pelo Espírito Santo, seguiu para o deserto, para orar. O deserto deixa a descoberto o essencial, com as suas forças e as suas fraquezas. Jesus deixa-Se preencher por Deus e pelo Seu Espírito de Amor, superando dessa forma as tentações do poder, do egoísmo, da facilidade, a tentação de renunciar a uma vida vivida em primeira pessoa e de caminhar enfrentando as dificuldades e os obstáculos, não os contornando, não os escondendo debaixo do tapete, mas vivendo comprometido, servindo, fazendo-Se Caminho connosco e para nós.
       Agora sobe ao monte. O monte é também um lugar especial de encontro com o essencial, isto é, de encontro com Deus. Jesus leva-nos com Ele. "Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago e subiu ao monte, para orar. Enquanto orava, alterou-se o aspeto do seu rosto e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente". A subida à montanha permite-nos respirar um ar mais puro, sem poluentes, onde se dissolve a nebulosidade. Como não lembrar aqueles dias em que o nevoeiro permanece sobre a vila, sobre a aldeia, e temos de ir à montanha para vermos o sol e a luminosidade.
       Mas não apenas isso. Jesus vai à montanha com um propósito primeiro: orar ao Pai. O Evangelho de Lucas é particularmente o evangelho da oração de Jesus. Jesus reza, por ocasião do Batismo, e abrem-se os Céus. No alto do monte, Jesus reza e o Seu rosto altera-se, as suas vestes ficam de uma brancura refulgente. A oração faz perceber a presença do Pai. Na oração Jesus, deixa-Se ver tal como É, filho de Deus. É um vislumbre da eternidade de Deus e da ressurreição. O Caminho ainda será longo e de sofrimento, mas uma luz ao fundo do túnel sempre nos incentiva a prosseguir e nos aponta a direção para chegarmos à tona, para chegarmos à luz.
       A oração permite-nos participar da vida de Deus. Jesus ensina-nos a fazê-lo, incentivando-nos: "sede misericordiosos como o Vosso Pai é misericordioso" (Lc 6, 36). É na oração que nos aproximamos do monte, que nos aproximamos de Deus. É na oração que Deus dilata o nosso coração para O acolhermos, para nos identificarmos com Ele. Não há outro caminho, ainda que possam existir alguns atalhos que nos aproximem de Deus.
       2 – Estamos a meio do caminho. Jesus conduz-nos ao monte e, em oração, deixa-Se ver como Filho de Deus, do Seu rosto irradia a Luz da eternidade, o desenlace da Sua e da nossa história na Ressurreição. Mas ainda falta percorrer caminho. Da montanha é possível, estando mais perto dos Céus, olhar o mundo a partir de Deus e do Seu amor de ternura, é possível ver mais longe. Somos agora conduzidos por Jesus, e não pelo demónio, para contemplarmos o mundo não para o subjugar mas para o servir, cuidando de todos os que o habitam, sobretudo os mais frágeis.
       Jesus tinha dito claramente aos seus discípulos que a hora das trevas se aproximava rápida e decididamente. Ecoa ainda a repreensão de Pedro: «Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há de acontecer!». A reposta de Jesus é contundente: «Vai-te daqui, Satanás. Tu és para mim uma ocasião de escândalo, pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens» (Mt 16, 22-23). 
       Um balde de água fria nas aspirações e nas expectativas dos discípulos. Agora Jesus revela-lhes o que está para lá da paixão, da entrega, da cruz, do sofrimento. Não lhes esconde as dificuldades, mas aponta para a frente. A oração sincroniza-nos com a eternidade, podemos então ver Moisés e Elias, a Aliança que Deus estabelece com todas as nações através do Povo Eleito. A Aliança é refeita, plenizada e universalizada com a presença, a vida e a mensagem, a morte e a ressurreição de Jesus. A Palavra e a Aliança de Deus com o Seu povo tem agora um ROSTO humano, toda a criação desemboca em Jesus. Lucas ainda tem tempo para nos dizer que Moisés e Elias falavam da morte de Jesus a consumar-se em Jerusalém. Despertando, os discípulos veem a glória de Jesus. Atónito, Pedro, interpretando o sentir dos companheiros, diz a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias».
       A nuvem de Deus guiou Moisés e o povo pelo deserto, agora envolve Jesus e os discípulos. Da nuvem Deus faz-Se ouvir: «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O».
       Quando os Céus se abriram por ocasião do batismo de Jesus no rio Jordão era-nos revelada a identidade de Jesus. Conhecer a Sua identidade é o início mas não é tudo. Não basta saber Quem é Jesus, há que segui-l’O. "Deus de infinita bondade, que nos mandais ouvir o vosso amado Filho, fortalecei-nos com o alimento interior da vossa palavra, de modo que, purificado o nosso olhar espiritual, possamos alegrar-nos um dia na visão da vossa glória" (oração de coleta).
       3 – Jesus é o Rosto da Misericórdia do Pai. “Quem Me vê, vê o Pai” (Jo 14, 9). O Filho vem iluminar o nosso caminho, aproximando-Se. Não fica ao longe, distante, alheado, como observador! Deus intervém na nossa história. Coloca-Se do nosso lado. Na Transfiguração, Jesus faz-nos vislumbrar a luminosidade de Deus, mostra Quem É, deixando-nos ver a Sua glória. Mais, o próprio Jesus exemplifica, vivendo, o caminho a seguir para entrarmos no Coração de Deus.
       "Ouvi, Senhor, a voz da minha súplica, tende compaixão de mim e atendei-me. Diz-me o coração: «Procurai a sua face». A vossa face, Senhor, eu procuro. Não escondais de mim o vosso rosto, nem afasteis com ira o vosso servo. Não me rejeiteis nem me abandoneis, meu Deus e meu Salvador. Espero vir a contemplar a bondade do Senhor na terra dos vivos".
       A esperança cristã não diz respeito apenas à eternidade, diz respeito à nossa vida atual. A Transfiguração de Jesus acontece a caminho da Cruz, antes, portanto, da ressurreição. Mas são dois acontecimentos entrelaçados. A paixão emerge como oferenda, como entrega, como identificação com os nossos sofrimentos. A ressurreição é a outra face da moeda. Nem tudo está perdido. Com Deus, nada está perdido. Mantemo-nos na corrida. Melhor, Deus mantém-nos na corrida. A Sua misericórdia clama por nós. Espreita-nos por entre as provações inevitáveis da nossa fragilidade humana. Desafia-nos. Escutai o Meu filho e vinde para que Eu reine em vós. Se Deus reina em nós, nada nos derrubará em definitivo. Daí, sublinhe-se uma vez mais, a importância da oração, para que em nós seja visível a presença e o amor de Deus, para que Ele possa transparecer a beleza da eternidade que se inicia connosco no tempo atual. Vamos ressuscitando com Ele. Somos chamados, seguindo Cristo, a ser luz para os outros, a transparecer em nós a Graça e a Bondade de Deus.
       4 – Em Abraão, Deus encontra um interlocutor privilegiado com quem fará uma primeira Aliança. A promessa de uma terra e de uma descendência numerosa. Abraão é posto à prova. A idade avançada aponta para a infertilidade e, no concreto, para a "desonra". Mas Deus não desiste de nós e não Se dá por vencido para que também nós não desistamos. A oferenda de Abraão – «Toma uma vitela de três anos, uma cabra de três anos e um carneiro de três anos, uma rola e um pombinho» – é trespassada pelo fogo divino. Desta forma, Deus sela a Aliança com Abraão. Por sua vez, Abraão vislumbra a presença de Deus por aquele brasido fumegante, e segue adiante!

       5 – "A nossa pátria está no Céu". Naquela montanha, Jesus dá aos seus discípulos um vislumbre da eternidade, como promessa, como desafio, como compromisso. O Céu está ao nosso alcance, ainda que haja um caminho a percorrer, o que implicará esforço, trabalho, sacrifício, com suor e lágrimas, luta, mas vai valer a pena, porque Deus é connosco, e Ele não nos vai deixar mal.
       O Apóstolo São Paulo, nesta missiva aos Filipenses, apresenta-se como referência, não por sobranceria mas para nos incentivar a viver ao jeito de Jesus: "Sede meus imitadores e ponde os olhos naqueles que procedem segundo o modelo que tendes em nós. Porque há muitos, de quem tenho falado várias vezes e agora falo a chorar, que procedem como inimigos da cruz de Cristo".
       São Paulo envolve-se totalmente no anúncio do Evangelho, preocupando-se a sério, prevenindo desvios, alertando para aqueles que semeiam a discórdia, a divisão, a dúvida: "O fim deles é a perdição: têm por deus o ventre, orgulham-se da sua vergonha e só apreciam as coisas terrenas".
       Vivemos no mundo e não fora dele ou alheados da realidade. Deus veio habitar connosco. Fez-Se um de nós. Na Oração Sacerdotal, Jesus reza ao Pai não para que nos tire do mundo mas nos livre do mal, lembrando que nem Ele nem nós somos do mundo, mas da eternidade (cf. Jo 17, 11-16). O Apóstolo Paulo dá-nos um critério de fidelidade ao Evangelho: "A nossa pátria está nos Céus, donde esperamos, como Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o nosso corpo miserável, para o tornar semelhante ao seu corpo glorioso, pelo poder que Ele tem de sujeitar a Si todo o universo. Portanto, meus amados e queridos irmãos, minha alegria e minha coroa, permanecei firmes no Senhor".

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano C): Gen 15, 5-12. 17-18; Sl 26 (27); Filip 3, 17 – 4, 1; Lc 9, 28b-36.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Paróquia de Tabuaço e a Caminhada Quaresmal 2016

       Inserida no Arciprestado de Moimenta, Sernancelhe, Tabuaço, a nossa Paróquia, segue a CAMINHADA QUARESMAL preparada e proposta para o Arciprestado.
       Seguindo o Ano Santo da Misericórdia, acentuar-se-á, em cada domingo uma das Obras de Misericórdia, em conformidade com a Liturgia da Palavra. Assumir-se-á um gesto, um símbolo ou uma intervenção que ilustre a Obra de Misericórdia ou reflita a Palavra de Deus. De seguida pode ver-se o esquema desta caminhada:
A construção de um DESERTO que evoca as palavras do Primeiro Domingo da Quaresma, os 40 dias de Jesus no deserto, mas também enquadra a Quaresma, como 40 dias de preparação para a celebração festiva da Páscoa.
É luminoso um dos Prefácios para a Quaresma (V):
"Senhor, Pai santo, rico de misericórdia, é verdadeiramente nossa salvação bendizer o vosso nome, no nosso itinerário para a luz pascal, seguindo os passos de Cristo, mestre e exemplo da humanidade reconciliada no vosso amor. Vós abris de novo à Igreja o caminho do Êxodo, através do deserto quaresmal, para que, aos pés da montanha santa, de coração contrito e humilhado, tome consciência da sua vocação como povo da aliança, reunido para cantar o vosso louvor, escutar a vossa palavra e viver a experiência admirável dos vossos prodígios".

Viver a Quaresma ao ritmo da Liturgia e do Jubileu


Viver a Quaresma à luz da Liturgia e do Jubileu

A Quaresma há de ser vivida à luz da Páscoa, de onde nos vem a salvação. Jesus vive, apareceu aos discípulos e faz-Se presente pelos Sacramentos, pela oração e pela caridade, congregando-nos como comunidade crente. Se voltássemos do sepulcro sem a presença luminosa de Jesus, tudo seria uma desilusão que daria lugar à dispersão.

O Papa Francisco lança-nos o desafio: “A Quaresma deste Ano Jubilar seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus. Quantas páginas da Sagrada Escritura se podem meditar, nas semanas da Quaresma, para redescobrir o rosto misericordioso do Pai!” (Misericordiae Vultus).

Algumas referências breves ao Evangelho da Quarta-feira de Cinzas e dos domingos da Quaresma:

QUARTA-FEIRA DE CINZAS: três práticas para melhor preparar a Páscoa: o jejum, a oração, a esmola, com a discrição e a humildade próprias de quem coloca o Outro no centro e não a si mesmo (cf Mt 6, 1-6.16-18)

PRIMEIRO DOMINGO: As tentações superadas pela proximidade com Deus e com a Sua Palavra. “Nem só de pão vive o homem… Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto” (Lc 4, 1-13).

SEGUNDO DOMINGO: A transfiguração de Jesus inicia a nossa transfiguração, para transparecermos Jesus Ressuscitado. «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O» (Lc 9, 28b-36).

TERCEIRO DOMINGO: O arrependimento é o início do caminho para acolhermos a graça de Deus. «Se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo». Maior que o nosso pecado, a misericórdia de Deus. Ele espera por nós, até ao limite: «Senhor, deixa-a ficar ainda este ano… talvez venha a dar frutos» (Lc 13, 1-9).

QUARTO DOMINGO: Misericordiosos como o Pai da Parábola, que não só perdoa como faz festa pelo regresso do filho: «Este teu irmão estava morto e voltou à vida» (Lc 15, 1-3.11-32).

QUINTO DOMINGO: O pecado envergonha-nos, mas não é um problema para Deus. «Vai e não tornes a pecar» (Jo 8, 1-11).

DOMINGO DE RAMOS:
«Bendito o Rei que vem em nome do Senhor» (Lc 19, 28-40).
«Isto é o meu Corpo entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim…
«Este cálice é a nova aliança no meu Sangue, derramado por vós…
«O maior entre vós seja como o menor e aquele que manda seja como quem serve…
«Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice. Todavia, não se faça a minha vontade, mas a tua…
«Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso…
«Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito» (Lc 22, 14 – 23, 56).

Texto publicado na Voz de Lamego, edição de 9 de fevereiro de 2016

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Domingo I da Quaresma - ano C - 14 de fevereiro

       1 – A Quarta-feira de Cinzas dá início à Quaresma com o gesto significativo da imposição das cinzas sobre as nossas cabeças, recordando-nos algo de essencial para continuarmos a ser humanos: a nossa ligação aos outros e a Deus. A fragilidade não é um atributo de menoridade, mas a oportunidade de nos abrirmos aos outros e ao Transcendente. A cinza e a areia, a pequenez e o deserto. Tomar consciência dos nossos limites, dispondo-nos a acolher Deus para acolhermos os nossos semelhantes, especialmente os mais frágeis.
       Nesta semana acentuou-se a discussão à volta da eutanásia, ou melhor, da morte assistida. Depois da facilitação do aborto, sem qualquer controlo nem reflexão, é mais um passo em ordem à raça ariana defendida por Hitler e pelo nazismo: eliminação de todos os seres humanos diminuídos – os não-nascidos, idosos, pessoas portadoras de deficiência, doentes... e, depois, de todos os que nos incomodam, sejam judeus ou turcos ou os nossos vizinhos. Corre já a discussão defendendo o "aborto" dos nascituros. Um casal de cientistas veio defender que um bebé quando nasce é igual a um feto de 12 ou de 24 semanas, ainda não decide por si mesmo, logo não é portador de direitos, logo os pais podem decidir se vive ou se morre, independentemente dos motivos. Mais algum tempo e decidir-se-á sobre qualquer pessoa que não tenha pleno uso da razão!
       Salvaguarde-se o respeito e o acolhimento de todos os que viveram situações traumáticas e, que muitas vezes, não encontraram quem ajudasse positivamente. Por conseguinte, no Jubileu da Misericórdia o Papa Francisco concedeu a todos os sacerdotes a faculdade de absolver as pessoas envolvidas no aborto, para que todos beneficiem da Misericórdia de Deus.
       O gesto, muito expressivo, das cinzas, mas de toda a vivência quaresmal, aviva-nos a consciência sobre a nossa indigência e finitude. Somos vasos de barro nos quais Deus coloca a abundância do Seu amor e da Sua misericórdia. Cabe-nos cuidar uns dos outros, reconhecendo-nos promotores da vida e não causadores de morte, de abandono, de indiferença.
       2 – Jesus, guiado pelo Espírito Santo, vai para o deserto e leva-nos com Ele, para fazermos a experiência do despojamento, da humildade, capacitando-nos para as situações mais adversas.
       A opção de Jesus é inequívoca. Deixa-Se conduzir pelo Espírito, para que n'Ele sobrevenha a vontade do Pai, mesmo quando as tentações se querem sobrepor à Sua missão. Quarenta dias alimentando-Se de outro pão, de uma ligação mais forte que a fome ou que a morte.
       O deserto remete-nos para o essencial, pondo em evidência as nossas fraquezas, libertando-nos do que é acessório. Com o avançar dos dias começam as dúvidas e as incertezas, os suores frios e as alucinações! É possível perder-se não havendo ninguém por perto a quem recorrer. Quando estamos mais frágeis, tudo nos passa pela cabeça!
       Vem o Diabo com um caminho alternativo, caminho do poder e da força, caminho da facilidade e da indiferença, sem tocar o humano, o frágil, a indigência, caminho do milagre e do espetáculo impondo-nos a Sua divindade, caminho de egoísmo, utilizando o poder em benefício próprio, excluindo todo o trabalho e sacrifício, todo o esforço:
A) «Se és Filho de Deus, manda a esta pedra que se transforme em pão»; B) «Eu Te darei todo este poder e a glória destes reinos, porque me foram confiados e os dou a quem eu quiser. Se Te prostrares diante de mim, tudo será teu»; C) «Se és Filho de Deus, atira-Te daqui abaixo, porque está escrito: ‘Ele dará ordens aos seus Anjos a teu respeito, para que Te guardem’; e ainda: ‘Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra’».
       As respostas de Jesus são concludentes: 
A) «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem’»; B) «Está escrito: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto’»; C) «Está mandado: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».
       Seguindo o Caminho de Jesus, decalcando a Sua postura e a Sua intimidade com o Pai, ser-nos-á possível vencer as tentações.
       3 – Tantas situações da vida em que gostaríamos de ter o poder de mudar as coisas, de vencer os adversários, de que nos caísse do céu uma vida facilitada sem procura nem esforço! Como gostaríamos de ter os outros aos nossos pés como se fôssemos as pessoas mais importantes do mundo. A vida de mão beijada! Sim, mas isso não seria a nossa vida! A vida é-nos dada por Deus, em abundância, mas para viver, para nos esforçarmos, para convivermos com as adversidades, mas dando luta, sem desistir.
       Deus é Pai de misericórdia e está connosco, nos nossos desertos, como esteve com Jesus naquele deserto. Mais à frente a tentação virá de enxurrada, no Horto das Oliveiras, um deserto (interior) mais intenso: Jesus queria que tudo passasse rapidamente e de forma indolor. Mas foi só um momento, a tentação. Não é o deserto que nos mata. O que nos mata é não termos Alguém a quem recorrer. O que nos mata é o sem-sentido da vida, o não ter nada por que morrer ou por que viver!
       A vida de Jesus será uma oferenda permanente. Oferecer-Se-á por nós, esgotando-Se. Não usará o poder em benefício próprio. Não Se salvará a Si mesmo. A tentação da cruz – salva-te a ti e a nós também – será superada pela entrega – Pai, perdoa-lhes. Fácil seria transformar as pedras em pão. Mas não seria humano. Humano é trabalhar com honestidade pelo pão de cada dia. Quando necessário Jesus há de transformar a água em vinho de qualidade que sacia a nossa sede e nos permite continuar a festa da vida; multiplicará os pães e converter-nos-á em pessoas solidárias, para que não falte o alimente a ninguém. "Tive fome e deste-me de comer". A fé traduz-se nas obras de misericórdia.
       Em muitas situações seria mais fácil ter poder e ter riqueza e mandar nos outros e ter muitas pessoas a servir-nos. O caminho de Jesus é o serviço, o centro são os pobres, a opção primeira é pelos últimos. O filho do Homem veio para servir e dar a vida por nós!
       D. António Couto, na mensagem para esta Quaresma, desafia-nos: "Façamos, amados irmãos e irmãs, do tempo da Quaresma um tempo de diferença, e não de indiferença. Dilatemos as cordas do nosso coração até às periferias do mundo, e que o nosso olhar seja de Misericórdia para os nossos irmãos de perto e de longe". O mundo não gira à nossa volta, mas dos irmãos mais pequeninos.

       4 – Nem só de pão vive o homem mas de toda a palavra que sai da boca de Deus (Lc 4, 4; Mt 4, 4). Duas partes da mesma equação. Se nos centrarmos apenas no pão corremos o risco de nos esquecermos de tudo o que nos rodeia. Se nos fixarmos na Palavra de Deus, o "risco" do compromisso e da partilha solidária. A Palavra de Deus alimenta-nos e envia-nos aos outros, ao cuidado de todos, mas sobretudo dos mais pobres. O que fizeste ao mais pequeno dos meus irmãos a Mim o fizeste (Mt 25, 40).
       Deus ouve a voz dos oprimidos, do pobre, da viúva e do órfão. Vem em auxílio dos seus eleitos, vem socorrer e salvar o seu povo. "O Senhor Deus dos nossos pais ouviu a nossa voz, viu a nossa miséria, o nosso sofrimento e a opressão que nos dominava".
       Ontem como hoje, somos peregrinos, caminheiros. "Meu pai era um arameu errante". Desde Abraão que moramos como que em terra estrangeira, preparando-nos para a pátria definitiva, quando Deus enxugar todas as nossas lágrimas, quando todos formos irmãos em Cristo.
       Moisés prioriza os bens da terra. Serão oferenda para Deus que nos libertou. Se Ele nos libertou também há de prover à abundância do alimento. Partindo de Deus, chegaremos aos irmãos.
       Por sua vez, o apóstolo São Paulo veicula a precedência da fé e da Palavra de Deus, acessível a todos, acentuando a gratuidade da salvação: «A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração… Esta é a palavra da fé que nós pregamos. Se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor e se acreditares no teu coração que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo... Não há diferença entre judeu e grego: todos têm o mesmo Senhor, rico para com todos os que O invocam».

       5 – Primeiro o Reino de Deus e o mais virá por acréscimo. Peçamos com fé ao Senhor, para que nos conceda "que, pela observância quaresmal, alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo e a nossa vida seja dele um digno testemunho" (Coleta).
       Jesus confia no Pai, pelo que não precisa de O pôr à prova. Com efeito, Jesus é que é provado na Sua confiança. No meio do deserto Ele pode rezar connosco o Salmo: “Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra… Porque em Mim confiou, hei de salvá-lo, hei de atendê-lo, estarei com ele na tribulação, / hei de libertá-lo e dar-lhe glória”.
       Súplica e não usurpação. O Diabo quer obrigar Deus. O Salmo abandona-nos confiantes nas mãos de Deus que virá em nosso auxílio, gratuitamente, não porque sou eu, ou sou o melhor do mundo, mas porque sou Filho e porque Ele é Pai de misericórdia. Para todos.

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia (ano C): Deut 26, 4-10; Sl 90 (91); Rom 10, 8-13; Lc 4, 1-13.

Paróquia de Pinheiros | Natal | ano pastoral 2015-206

       O ano litúrgico é cadenciado pelos dois grandes acontecimentos na vida de Jesus: o Natal, celebração do Seu nascimento, expressão da Encarnação de Deus na história e no tempo, e Páscoa, mistério da vida nova, oferecida e retomada.
       As comunidades cristãs vivem de forma mais intensa cada um destes momentos. Obviamente que todo o ano litúrgico é importante, pois em todo o tempo se celebra o mistério pascal de Jesus. Mas tal como nas nossas vidas há os tempos dedicados às festas e o tempo ferial, de trabalho e de rotina. Para valorizarmos uns precisamos dos outros. Que sentido tem a festa quando estamos sempre em festa? Cansa! Que sentido têm os dias se são todos iguais, ao longo de todo o ano? Cansa. Não saberíamos apreciar a festa se ela não viesse depois do trabalho, perder-nos-íamos se ao trabalho só se acrescentasse trabalho.
       A paróquia de Santa Eufémia, seguindo o ciclo litúrgico, tem na Páscoa e no Natal, com os tempos preparatórios, dois picos celebrativos, com outro momento importante na Festa de Santa Eufémia, sua Padroeira.
       Advento, Natal e Epifania. No videoporama que se segue, imagens do Avento, com a construção progressiva da coroa do Advento, a solenidade do Natal, com a encenação de vários quadros relacionados com o nascimento de Jesus, e a solenidade da Epifania do Senhor, com a encenação da Adoração dos Magos.
       Vale a pena escutar o música que acompanha o vídeo - No Senhor pus a minha confiança:

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

WALDEMAR TUREK - A Quaresma com Santo Agostinho

WALDEMAR TUREK (2015). História de uma conversão. A Quaresma com Santo Agostinho. Lisboa: Paulus Editora. 128 páginas.

       Há livros que procuramos, pelo conteúdo, pelo autor, por uma sugestão. Há livros que encontramos sem procurar, mas que saltam à vista por algum motivo: o título, a capa, o tema, a referência a um autor. É o caso deste livro. A Gráfica de Lamego, livraria da Diocese de Lamego, procura diversificar nos livros e nos autores, acolhendo também as sugestões das Editoras (sobretudo cristãs). Semana a semana, ou conforme vamos passando, a verificação se há novidades. A capa não chamou à atenção, mas a referência a Santo Agostinho saltou logo à vista, por se um dos teólogos mais brilhantes do cristianismo.
       Ainda hesitamos, o tema era interessante, a Quaresma, com reflexões para todos os dias, da Quarta-feira de Cinzas até Sexta-feira Santa, e a reflexão dos Domingos, seguindo os três ciclos A, B e C; a referência a Santo Agostinho e às suas Confissões, eram sugestivas, mas o autor desconhecido. Quando um autor se vale de alguém do estatuto de Santo Agostinho, poderá ter o propósito de vender bem. Obviamente que ninguém escreve e publica um livro para ficar apenas exposto em prateleiras.
       Folheando o livro percebemos, na nossa opinião, que é um livro agradável, com reflexões muitos sugestivas para todos os dias da Quaresma, e as referências a Santo Agostinho fazem-nos entrar na sua busca espiritual, na sua conversão, na preocupação constante de conhecer e acolher Deus.
       Para quem leu as Confissões, tem aqui um prestimosa ajuda para relembrar alguns dos momentos comoventes na vida de Santo Agostinho. Para quem não leu esta importantíssima obra do Bispo de Hipona, aqui está uma ajuda e um incentivo.
       A vida de Santo Agostinho mostra como é possível passar da presunção de que se atinge a verdade pelo esforço pessoal, pelo estudo, pela filosofia, para a humildade de quem se aceita nas suas limitações, confiando na misericórdia de Deus.
       Nestes dias em que o Papa Francisco anunciou o Jubileu da Misericórdia (a iniciar no dia 8 de dezembro de 2015 e a encerrar no dia 20 de novembro de 2016), a leitura deste livro far-nos-á perceber melhor a misericórdia de Deus, numa reflexão agostiniana tão atual, hoje como nos seus dias terrenos. A misericórdia de Deus é transversal a todas as reflexões, e às Confissões do Santo de Tagaste. 

Veja a sugestão pelos olhos do

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos!

       «Convertei-vos a Mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e lamentações. Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos. Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete...» (Joel 2, 12-18).

       "Nós somos embaixadores de Cristo; é Deus quem vos exorta por nosso intermédio. Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus. A Cristo, que não conhecera o pecado, identificou-O Deus com o pecado por amor de nós, para que em Cristo nos tornássemos justiça de Deus... Porque Ele diz: «No tempo favorável, Eu te ouvi; no dia da salvação, vim em teu auxílio». Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação" (2 Cor 5, 20 - 6, 2).

Disse Jesus aos seus discípulos: «Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Aliás, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus. Assim, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. Quando rezardes, não sejais como os hipócritas, porque eles gostam de orar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a ecompensa. Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai, que está presente em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa».
       És pó da terra e à terra hás-de voltar.
       É a condição de todos os seres humanos. O início da Quaresma relembra-nos a nossa condição igual. Donde vimos e para onde vamos. Mas diz-nos muito mais. Numa perspectiva mais científica é hoje afirmado que no início do Universo haveria apenas "poeira". E desta "poeira" nasceu o Universo. Neste sentido, a Bíblia é explicitada pelos dados da ciência. Numa palavra, temos todos a mesma origem: vida vegetal, animal, vida humana. Para nós crentes, vimos todos de Deus. Esta solidariedade na origem há-de catapultar-nos para a solidariedade no caminho, para que no fim nos reencontremos todos em Deus.
       A expressão que se sublinha neste dia, lembra-nos a nossa fragilidade. A miséria do ser humano, mas que é também a sua grandeza. Não fomos criados para vivermos sozinhos, ou uns contra os outros, ou independentemente dos outros. Fomos criados para vivermos como família, em Deus. De novo, recordemos a nossa origem comum. Por outro lado, o saber que não estamos cá para sempre, deve levar-nos a aproveitar bem o tempo que Deus nos dá para sermos felizes, para fazermos alguém feliz, para deixarmos o mundo melhor que o encontramos.
       Quaresma é este tempo favorável, como nos diz São Paulo, para a conversão, para a mudança de vida. Não uma mudança qualquer, mas mudarmos as nossas atitudes e o nosso comportamento para seguirmos imitando o Mestre dos Mestres, reconciliando-nos com Deus.
       Neste tempo santo, a Igreja recomenda diversas práticas: o jejum, a conversão, a confissão, a abstinência, a leitura mais frequente da Sagrada Escritura, a participação mais activa na Eucaristia, a partilha mais efetiva com os mais necessitados. Hão-de ser expressão da conversão interior. O gesto da imposição da cinzas, nesta Quarta-feira de Cinzas, mais não é que um fortíssimo sinal do nosso despojamento interior, que deverá significar adesão firme a Deus. Importa "rasgar o nosso coração"... os gestos exteriores só vale se nos mobilizarem interiormente...

Participação na Jornada Arciprestal de Catequistas

       No passado dia 6 de fevereiro, no Centro Paroquial de Moimenta da Beira, o Arciprestado que inclui as Zonas Pastorais de Moimenta, Sernancelhe e Tabuaço, viveu a Primeira Jornada Arciprestal de Catequistas, voltada sobretudo para a formação.
       Os momentos foram variados, sobre a identidade e missão do Catequista, oração, caminhada para entrar na Porta Jubilar da Igreja Matriz de Moimenta da Beira, testemunho do compromisso com a catequese da D. Natália e, da parte de tarde, com a professora Amélia, de Trancoso, numa componente mais prática, debruçando-se sobre o catecismo do 4.º Ano.
       O encontro encerrou com a celebração da Santa Missa.
       Da Zona Pastoral de Tabuaço, participaram catequistas de Tabuaço e de Barcos, no total de 9 catequistas. Algumas das fotos desta Jornada:

Para outras fotos disponíveis:

A Palavra de Deus e as tradições...

       Reuniu-se à volta de Jesus um grupo de fariseus e alguns escribas que tinham vindo de Jerusalém. Viram que alguns dos discípulos de Jesus comiam com as mãos impuras, isto é, sem as lavar. – Na verdade, os fariseus e os judeus em geral só comem depois de lavar cuidadosamente as mãos, conforme a tradição dos antigos. Ao voltarem da praça pública, não comem sem antes se terem lavado. E seguem muitos outros costumes a que se prenderam por tradição, como lavar os copos, os jarros e as vasilhas de cobre –. Os fariseus e os escribas perguntaram a Jesus: «Porque não seguem os teus discípulos a tradição dos antigos, e comem sem lavar as mãos?». Jesus respondeu-lhes: «Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim. É vão o culto que Me prestam, e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos’. Vós deixais de lado o mandamento de Deus, para vos prenderdes à tradição dos homens». Jesus acrescentou:  «Sabeis muito bem desprezar o mandamento de Deus, para observar a vossa tradição. Porque Moisés disse: ‘Honra teu pai e tua mãe’; e ainda: ‘Quem amaldiçoar o seu pai ou a sua mãe deve morrer’. Mas vós dizeis que se alguém tiver bens para ajudar os seus pais necessitados, mas declarar esses bens como oferta sagrada, nesse caso fica dispensado de ajudar o pai ou a mãe. Deste modo anulais a palavra de Deus com a tradição que transmitis. E fazeis muitas coisas deste género» (Mc 7, 1-13).
       No diálogo/confronto com os fariseus, Jesus coloca a prioridade na conversão interior, na prática da caridade, na justiça, na generosidade para com o semelhante. Os fariseus interrogam Jesus pelo facto dos seus discípulos não lavarem as mãos antes da refeição. Tratava-se não apenas de higiene, mas de uma tradição religiosa. Jesus não perde a oportunidade para nos recentrar no essencial. As tradições podem ser e são importantes na medida em que nos aproximam dos outros e não podem servir de desculpa ou de justificação para não ajudarmos os outros. Pelo contrário, as tradições só são defensáveis se contribuem para a prática do bem.
       Dests modo, Jesus dá prioridade ao tratamento afável com o semelhante, ainda que algum costume não seja rigorosamente cumprido...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Poder curativo de Jesus

       Quando saíram do barco, as pessoas reconheceram logo Jesus; então percorreram toda aquela região e começaram a trazer os doentes nos catres, para onde ouviam dizer que Ele estava. Nas aldeias, cidades ou casais onde Jesus entrasse, colocavam os enfermos nas praças públicas e pediam que os deixasse tocar-Lhe ao menos na orla do manto. E todos os que O tocavam ficavam curados (Mc 6, 53-56).
       A multidão segue Jesus, à procura de cura. Levam-Lhe todos os doentes. Pedem que ao menos lhes deixe tocar na orla do manto.
       Também nós não deveremos ter medo de ir ao encontro, à procura de Jesus, e pedir-lhe que nos cure.
       Também nós devemos apostar no nosso poder curativo, com as nossas palavras, com os nossos gestos, criar em nós as condições, como dizia Madre Teresa de Calcutá, para que as pessoas quando saírem da nossa presença vão mais felizes do que quando chegaram.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Domingo V do Tempo Comum - ano C - 7 de fevereiro

       1 – «Faz-te ao largo e lançai as redes para a pesca». Com Jesus a pesca será abundante.
       Ontem, Pedro e os Onze, e os 72 discípulos. HOJE cada um de nós é chamado à pescaria, com Ele, seguindo-O, pois só nessa condição a pesca será generosa.
       Depois das dificuldades encontradas em Nazaré, "Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho", fazendo-Se Caminho para nós, o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14, 6). É para nos salvar que Jesus vem ao mundo e se faz à estrada. Não é um capricho de um deus poderoso que se diverte a ver-nos destruir-nos uns aos outros, ou a controlar-nos como se fôramos marionetas, ou submetendo-nos por entre medos e hesitações e superstições. Ele vem e entrega-Se para nos libertar, para nos aliviar a carga. Respeita-nos na nossa liberdade e, por conseguinte, podemos até negá-l'O, afastá-l’O ou matá-l'O para sermos totalmente independentes, sem regras nem ligações. E, depois, ficará o vazio e a solidão.
       Em Jesus, Deus propõe-Se e expõe-Se, definitivamente, tornando-Se mendigo do nosso amor. Por amor. Por que nos quer bem. Porque nos quer filhos. Porque, sabendo o que nos salva, nos envolve no seu projeto de amor e de perdão e de vida nova.
       Como Pai, Deus não Se mantém longe. Nem longe de nós nem de fora ou à parte. Nem indiferente. Nem juiz. Não se alheia da nossa história. Depois de nos enviar os Profetas, os Juízes, os Patriarcas, envia-nos o Seu próprio Filho, encarnando, assumindo a nossa pele e a nossa carne por inteiro. Sujeita-Se, porque assim foi do Seu agrado, às nossas escolhas.
       2 – A multidão segue Jesus para ouvir a palavra de Deus. Nem só de pão vive o homem. Também vive e precisa do alimento corporal, todos os dias, mas a vida de uma pessoa não se esgota no que come, no que veste ou no que tem. A vida realiza-se no encontro com os outros, na amizade e na ternura que nos envolve como irmãos, apesar e além das limitações, dos pecados e das fragilidades de cada um. A vida realiza-se na ligação ao mundo que nos rodeia e na abertura ao Transcendente, donde, em definitivo, nos vem a esperança e a certeza de que a nossa vida nos ultrapassa no tempo e no espaço. A vida não nos mata. Pode destruir-nos. Pode despedaçar-nos. Mas não nos mata, porque no final se encontra o Pai, Deus de Misericórdia. A garantia é-nos dada pelo Filho. Podemos já experimentar esta Presença amorosa, apesar de todo o sofrimento que possamos atravessar.
       A Palavra de Deus alimenta a nossa esperança, sanciona a nossa fé, dá força à nossa caridade.
       Para melhor Se fazer ouvir, Jesus sobe para o barco de Simão, pedindo-lhe que se afaste um pouco da terra, para continuar a ensinar a multidão.
       Logo depois, diz a Simão Pedro: «Faz-te ao largo e lançai as redes para a pesca».
       Pedro hesita. São pescadores experientes. Andaram na faina toda a noite e não foram bem-sucedidos. A noite não correu bem. Já lavam as redes para outra jornada. «Mas, já que o dizes, lançarei as redes». Por vezes é necessário lançar-nos, confiando. Se te estás a afogar, melhor do que esbracejar pode ser "boiar", tranquilizar-se e deixar-se guiar pela água ou por quem te deita a mão. Já que é Jesus que nos desafia, então, só por isso, só por Ele, já vale a pena lançar as redes e lançar-nos à pesca. E a pesca é abundante. Naquele mar da Galileia, mas em todos os mares da nossa vida. A quantidade é tanta que as redes começam a dar-se e é necessário pedir ajuda aos companheiros do outro barco.
       A pesca acontece por iniciativa de Jesus. Mas conta connosco. Com o nosso barco. Com a nossa fé. Com o nosso trabalho. Precisamos de lançar as redes. Precisamos de contar uns com os outros. Todos não somos demais. Venham os do outro barco. O mal é quando queremos fazer tudo sozinhos, sem Deus e sem os outros. Então o nosso barco não sairá do ancoradouro, as nossas redes não servirão para nada e se se romperem perderemos todo o peixe, puxamos de um lado e o peixe sai do outro.
       3 – Diante da Santidade de Deus pode advir o medo, o receio que o nosso pecado não seja digno da grandeza e da beleza de Deus. Logo ficamos a saber que a santidade de Deus não é estática nem distância, nem afastamento ou separação. O nosso pecado não contamina a santidade de Deus! Pelo contrário, a santidade de Deus assume e purifica o nosso pecado. Se mais nada tivermos a dar a Deus, demos-lhes o nosso pecado, para que passe para Deus e em nós sobrevenha a Sua misericórdia.
       Como amiúde nos tem lembrado o Papa Francisco, e com maior insistência no Jubileu da Misericórdia, Deus não Se cansa de nós, não se cansa de nos perdoar e de nos assumir como filhos. A Sua vingança é a misericórdia. Perdoa-nos e acaricia-nos. Podemos cansar-nos de Lhe pedir perdão, Ele não Se cansa de nos amar, de Se lançar ao nosso encontro, não Se cansa de esperar por nós.
       Pedro visualiza a santidade de Jesus: «Senhor, afasta-Te de mim, que sou um homem pecador».
       A santidade de Deus é para nossa salvação. Jesus, Rosto da Misericórdia, vem contagiar o mundo com a Sua graça santificante. «Não temas. Daqui em diante serás pescador de homens».
      Pedro e os discípulos conduzem o barco para terra, deixam tudo e seguem Jesus.
       Isaías sente o mesmo assombro, em sonhos contempla a fímbria do manto do Senhor, que enche todo o templo, e o canto dos Serafins: «Santo, santo, santo é o Senhor do Universo. A sua glória enche toda a terra!». O profeta sente-se esmagado com a magnificência de Deus e com a Sua santidade: «Ai de mim, que estou perdido, porque sou um homem de lábios impuros, moro no meio de um povo de lábios impuros e os meus olhos viram o Rei, Senhor do Universo».
       Deus faz-lhe saber, através de um dos serafins, que lhe toca com um carvão ardente: «Isto tocou os teus lábios: desapareceu o teu pecado, foi perdoada a tua culpa». Vem a proposta em jeito de interpelação: «Quem enviarei? Quem irá por nós?». E logo a resposta pronta: «Eis-me aqui: podeis enviar-me».
       Sabemos como respondeu Isaías e como responderem os apóstolos.
       Também a nós Deus nos chama com as nossas fragilidades, com os nossos medos e com o nosso pecado, mas chama-nos como filhos. Qual a resposta que damos?

       4 – Paulo foi um dos que deixou tudo para seguir Jesus. O seu percurso é luminoso. Fariseu zeloso, cumpridor da Lei mosaica. Persegue os cristãos, levando ao excesso a sua fé judaica, pensando que dessa forma prestaria um serviço a Deus! Jesus mete-se no seu caminho, faz-Se Caminho para Paulo, e deixa que este O siga em novos caminhos.
       Continuamos a escutar o amor de Paulo às comunidades cristãs, nomeadamente a Corinto, lembrando-nos que não se anuncia a si mesmo mas a Cristo Jesus: «Transmiti-vos em primeiro lugar o que eu mesmo recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e apareceu a Pedro e depois aos Doze. Em seguida apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maior parte ainda vive, enquanto alguns já faleceram. Posteriormente apareceu a Tiago e depois a todos os Apóstolos. Em último lugar, apareceu-me também a mim...».
       Como Isaías, como Pedro, também Paulo se sente indigno de ser alcançado pela misericórdia de Deus. «Não sou digno de ser chamado Apóstolo... Mas pela graça de Deus sou aquilo que sou e a graça que Ele me deu não foi inútil. Pelo contrário, tenho trabalhado mais que todos eles, não eu, mas a graça de Deus, que está comigo».
       Façamo-nos ao largo, lancemos as redes para a pesca, façamo-nos Casa de Oração e de Misericórdia para todos. Porque Ele segue connosco, pois nós O seguimos. Ele é o nosso Caminho!

Pe. Manuel Gonçalves



Textos para a Eucaristia (ano C): Is 6, 1-2a. 3-8; Sl 137 (138); 1 Cor 15, 1-11; Lc 5, 1-11.